Frente à pandemia do coronavírus, os trabalhadores de telemarketing de Feira de Santana, aderiram à paralisação nacional da categoria, realizada na última quinta-feira (19), exigindo a quarentena e o isolamento social, com estabilidade do emprego e manutenção integral dos salários

Professor Taylan Santana, Feira de Santana (BA)

A pandemia do coronavírus que assola o mundo é mais uma expressão da crise estrutural do capitalismo, uma crise de natureza humanitária, que atinge sobretudo os mais vulneráveis da sociedade, ou seja, os mais pobres da classe trabalhadora.

Enganam-se aqueles que pensam que se trata apenas de um mero problema de saúde. Ao contrário, a catástrofe que vivemos é fruto do sistema capitalista, estruturado pela exploração dos patrões sobre os trabalhadores, e uma profunda desigualdade social. Nesse sistema vigora a negação dos direitos básicos para a sobrevivência da nossa classe, submetida aos níveis mais intensos de opressão, seja nos seus locais de trabalho, com a alta carga horária e péssimos salários, assim também na privação dos direitos fundamentais, como o direito à saúde de qualidade.

Diante da crise do capital desatada em 2008 e agravada ao longo desse período, a disposição da burguesia e seus governos tem sido a mesma: defender os seus negócios e atacar os trabalhadores com mais exploração, arrocho salarial e desemprego em massa. Ou seja, querem impor no bolso dos trabalhadores a conta dessa crise, gerada por eles.

A pandemia do coronavírus atinge em cheio a população mundial, e mais intensamente os mais pobres, que são duramente explorados pelos patrões. Assim como aqueles que amargam o desemprego em massa. O cenário é de barbárie.

Mas o que o patrão quer, para manter os seus lucros, é obrigar os trabalhadores a seguirem no chão das fábricas, mantendo as empresas funcionando, como ocorre hoje com o telemarketing. Isso deixa os trabalhadores em situação de vulnerabilidade social, propícios aos riscos de contaminação do coronavírus.

Por outro lado, a saúde pública no Brasil não abarca a demanda necessária para o contingente populacional. Saúde de qualidade ainda consiste em um privilégio dos mais ricos, o 1% que concentra a riqueza desse país.

Essa calamidade ainda se amplia com o caráter desumano do capitalismo. A burguesia e seus governos de plantão tratam a gravidade do caso da pandemia do coronavírus como um mal menor, desde que não atinja a riqueza dos empresários e latifundiários. Foi assim que Bolsonaro agiu criminosamente desde o princípio ao preocupar-se apenas com a agenda de exploração econômica chefiada por Paulo Guedes, e não adotar as medidas eficazes de prevenção e proteção aos trabalhadores contra o surto do coronavírus.

Os patrões, preocupados apenas com o seu acúmulo de riqueza, intensificam os ataques à nossa classe, impondo mais exploração e opressão nos locais de trabalho. Não querem liberar os trabalhadores, garantindo-lhes a estabilidade no emprego e a integralidade dos seus salários. Seus objetivos são:  demitir os funcionários; reduzir salários; e corta direitos conquistados. Essa é a lógica do capitalismo: salvar os lucros, em detrimento de nossas vidas.

“Lucro para os patrões, coronavírus para os trabalhadores”

Os trabalhadores do telemarketing estão sentindo, com toda força, o significado da expressão “lucro para os patrões e coronavírus para os trabalhadores”. Na pandemia do coronavírus, estão sendo obrigados a continuarem exercendo uma extenuante jornada de trabalho, com baixa renumeração e péssimas condições de trabalho. Nesta situação, os operadores de call centers estão na linha de frente da contaminação e transmissão do vírus.

São vários os fatores de riscos que, mesmo antes da pandemia já eram um grande problema para os trabalhadores, e com o coronavírus, agravou-se ainda mais a situação. Trata-se de espaços fechados sem ventilação natural, com o sucessivo revezamento de pessoas no mesmo local, utilizando os mesmos materiais (mesas, cadeiras, microfones), tornando esse espaço um grande vetor de contaminação e transmissão do coronavírus dentro e fora das empresas de teleatendimento.

Mesmo com o crescente índice de transmissão do vírus, inclusive com a notificação da transmissão comunitária em todo o país, as empresas de telemarketing seguem a todo vapor, expondo os trabalhadores às situações mais vulneráveis para a contração do coronavírus. Contra essa situação calamitosa, os trabalhadores de telemarketing de várias regiões no Brasil, realizaram greves, paralisações e protestos nos locais de trabalho, na última quinta-feira (19), para denunciar a situação precária e exigir medidas eficazes para a proteção das suas vidas.

Em Feira de Santana, segunda maior cidade da Bahia, trabalhadores das duas grandes empresas de call centers – Tel Telemarketing e Atento – pararam o serviço exigindo medidas preventivas que protejam os operadores. Acobertados pela prefeitura, os patrões fazem o que querem. A exploração é tão gritante que as empresas já determinaram a redução do uso do álcool em gel pelos trabalhadores, justamente na cidade que possui 6 casos confirmados de coronavírus, a primeira cidade na Bahia a ser notificada pela transmissão do vírus.

Ademais, mesmo com o fechamento do comércio local, por força de decreto municipal, e a proibição de aglomeração, sob o limite máximo de 50 pessoas, as empresas de teleatendimento continuam funcionando, com centenas de pessoas aglomeradas e concentradas em um mesmo espaço de trabalho, ameaçando todos com os sérios riscos de difusão do vírus.

Não à toa, cresce a indignação dos trabalhadores de telemarketing em Feira de Santana. Ao pararem o serviço para denunciar, a classe trabalhadora ecoou o grito de sua revolta: “não aceitaremos trabalharmos sob riscos!”.

Quarentena é solução, saúde e proteção

A quarentena e o isolamento social tem sido as determinações das entidades de saúde de todo o mundo. Também são as palavras de ordem dos trabalhadores de telemerketing. Mas não com demissão, redução salarial ou instabilidade no emprego. Defendemos medidas eficientes na proteção aos trabalhadores mediante a paralisação de todas as atividades, com a manutenção integral dos salários.

Por sua vez, exigimos que o prefeito Colbert Martins (MDB), embargue qualquer atividade das empresas de call centers, uma vez que o seu funcionamento não atende aos requisitos básicos de prevenção ao coronavírus.

É preciso cercar da mais ampla solidariedade de classe ao conjunto dos trabalhadores de telemarketing de todo o Brasil. Em Feira de Santana, nós do PSTU, nos somamos à denúncia mais incisiva quanto à precária situação vivida pelos trabalhadores da Tel e Atento. Fazemos também um apelo para que as organizações da nossa classe possam se somar nessa mobilização, pois a luta dessa categoria é a luta da classe trabalhadora.

Por fim, é na luta organizada e na ação direta dos trabalhadores que iremos superar a pandemia do coronavírus, mediante a destruição desse capitalismo que nos adoece e mata.  Precisamos construir uma nova sociedade, sem patrões e exploração, pois nossas vidas valem mais do que os lucros de um punhado de parasitas capitalistas.

– Os trabalhadores do teleatendimento querem viver! A suspensão das atividades dos centros de telemarketing é urgente! Todo apoio às greves e manifestações do telemarketing, a luta organizada dos trabalhadores é o caminho!

– Estabilidade no emprego já, com a aprovação de um Projeto de Lei proibindo as demissões durante a epidemia. Nós queremos viver. Chega de morrer para manter os lucros dos patrões!

– O desemprego não é uma opção! Direito à quarentena já para os trabalhadores, com manutenção integral dos salários!

– Viva a luta dos trabalhadores do telemarketing de todo o Brasil!