Assembleia virtual dos trabalhadores da MBB de São Bernardo do Campo, região da grande São Paulo, realizada nesse dia 18 de setembro, rejeitou a proposta de acordo apresentada pela direção da empresa.

A Mercedes conta com 8.229 trabalhadores, participaram da assembleia virtual 4.302, ou seja, 52.28%. A votação foi uma verdadeira derrota para a direção do Sindicato dos Metalúrgicos do ABC (CUT), com 3.484 trabalhadores (80,99%) rejeitando a proposta. Foram favoráveis 756 (17,78%) e 53 se abstiveram (1,23%).

O coordenador do Comitê Sindical de Empresa (CSE), Max Pinho, ao fazer o chamado para a assembleia através do Facebook no dia 16 disse que “nessa assembleia vamos apresentar a proposta da data base construída no processo de diálogo com os trabalhadores e a direção empresa”.

Fica evidente que o sindicato estava a favor da proposta. Mas os trabalhadores estão cansados de tantas perdas de direitos e das demissões que estão ocorrendo sem nenhuma resistência por parte do sindicato.

Existe uma situação contraditória no chão da fábrica. A produção de caminhões está a todo vapor, a ponto de que os trabalhadores estão exigindo um terceiro turno. Já na linha de ônibus os trabalhadores estão em casa com os seus contratos suspensos.

Existe um clima de desconfiança muito grande em relação à direção do sindicato. Nos grupos de WhatsApp dos trabalhadores da empresa, um dia antes da assembleia virtual, várias postagens defendiam que a assembleia fosse presencial, pois acham que a virtual pode ser manipulada. Vários trabalhadores diziam: “Por que na Volks se faz assembleia presencial e na Mercedes não?”.  A direção do sindicato, por sua vez, diz que não faz assembleia presencial por causa da COVID-19.

A proposta é muito ruim

Uma das coisas que deixou os trabalhadores revoltados é que em 2020 iriam receber um abono de R$ 4 mil e não teriam reposição salarial pela proposta. Já no acordo para 2021, os trabalhadores, para receberem o INPC (inflação), terão que produzir 52 mil produtos, entre ônibus, caminhões e outros veículos. Caso essa meta não seja atingida, receberão um abono de apenas R$ 3 mil. Além disso, no acordo, a estabilidade no emprego é só para os efetivos e vai até 31 de maio de 2021, e ainda deixa de fora os aposentados e os aposentáveis com 55 anos ou mais.

A estabilidade no emprego para os empregados acidentados ou com doença profissional, por sua vez, só vale até 30 de abril de 2021. Muitos temem que um dia após essa data a empresa demita os trabalhadores com doença profissional.

Um absurdo a Mercedes querer dar abono ao invés de reajuste

A Mercedes é uma empresa multinacional, não está tendo prejuízo. Com a pandemia o que está acontecendo é que se diminuiu a produção, tanto é assim que a linha de caminhões está tirando o couro do trabalhador.  Já a linha de ônibus não está trabalhando por conta das eleições, pois as prefeituras não podem comprar nesse período, mas isso é passageiro.

Ao longo desses anos, a empresa ganhou isenção de impostos do município, recebeu dinheiro barato do BNDES e está usando a pandemia para demitir e retirar direitos. Isso é um absurdo! Não podemos aceitar que a MBB dê abono ao invés de reajuste.

Agora, a direção do Sindicato dos Metalúrgicos do ABC (CUT) terá que voltar à mesa de negociação “e dialogar” mais, pois os trabalhadores, ao rejeitarem a proposta, demostram que não estão dispostos a aceitar acordo rebaixado e que tem disposição de luta.

A empresa vai atacar, vamos preparar a luta

Diante da não aceitação da proposta apresentada pela empresa, o sindicato deve chamar uma assembleia presencial, com todos os cuidados com a saúde dos trabalhadores, e organizar a luta pois a empresa vai chantagear os trabalhadores com ameaças, como é comum quando acontece esse tipo de rebelião de base.

Lições dessa rebelião: unificar os trabalhadores das montadoras

Desse episódio ficam duas lições: a primeira é que o sindicato negociando por empresa e de forma separada só prejudica o trabalhador. Cada um fazer acordo isolado divide e enfraquece.

A direção do sindicato deveria unificar os trabalhadores das montadoras da região, desta forma ficaríamos mais fortes. É necessário ainda unificar com outros sindicatos para discutir um contrato nacional entre os trabalhadores das montadoras.

A segunda lição é que os trabalhadores não estão derrotados e que o fato de não ter mais lutas é de responsabilidade das direções sindicais.

Foi correto os trabalhadores dizerem “não” ao acordo rebaixado que queria a direção do sindicato e a empresa.