100 anos da Revolução Russa: A tomada do poder pelos sovietes (parte 1)

Assembleia do Soviete de Retrogrado em 1917

Outubro é o mês da grande insurreição operária dirigida pelos bolcheviques que conduziram o poder aos sovietes. Para explicar melhor o desenrolar dos acontecimentos daquele momento, vamos dividir esta história em dois artigos. Confira a primeira parte.

A tomado do poder pelos sovietes (parte 2). Leia aqui.


 

A Revolução Russa entra em seu mês decisivo. A luta pelo poder é travada pelos operários em cada esquina e fábricas, em cada trincheira onde soldados anseiam pela paz e também na vastidão camponesa do país. O jornalista John Reed descreve com vivacidade esse momento: “Na nova Rússia, todo homem e toda mulher podiam votar; havia jornais operários que explicavam esses novos e surpreendentes acontecimentos. Havia sovietes e sindicatos (…). A Rússia inteira aprendia a ler, e lia política, história, pois o povo queria ‘saber’ (…). A Rússia absorvia livros, manifestos e jornais como a areia suga a água. Era insaciável.”

Em setembro, uma revolução agrária incendeia o país, e o Governo Provisório decreta estado de sítio na região de Tambov, onde se verificam as mais numerosas e violentas convulsões, e envia tropas, transformando a questão agrária em guerra civil. No início de outubro, os socialistas-revolucionários, partido mais importante no campo russo, sofre uma ruptura. O racha foi uma mudança favorável aos bolcheviques. O setor que rompeu passa a se denominar Socialistas-Revolucionários de Esquerda (SRs de Esquerda). Essa realidade é produto da traição do velho Partido Socialista Revolucionário às reivindicações dos camponeses por reforma agrária (leia ao lado).

Então, os SRs de esquerda começaram a ganhar força e a se aproximarem cada vez mais dos bolcheviques em sua estratégia de transferência de todo o poder aos sovietes. No entanto, os bolcheviques ainda teriam de resolver imensas polêmicas internas antes de o partido se orientar totalmente pela tomada do poder.

Lenin: “preparar a insurreição!”

De peruca e sem bigode: foto tirada para o documento falso o qual Lênin pode se exilar na Finlândia e fugir da perseguição do Governo Provisório

Lenin continuava na clandestinidade quando escreveu uma série de cartas ao Comitê Central bolchevique defendendo o início imediato dos preparativos para a insurreição. Os bolcheviques já haviam conquistado a maioria dos sovietes das principais cidades, incluindo Petrogrado e Moscou, o que para Lenin era a prova definitiva de que a maioria da classe operária já se encontrava do lado da insurreição. A aliança formada entre bolcheviques e SRs de esquerda dava ainda mais solidez à sua tese.

Lenin defendia que qualquer demora equivaleria à derrota da insurreição. Por isso, era preciso agir rapidamente. Propunha que o partido não esperasse o II Congresso Russo dos Sovietes, marcado para o dia 20 de outubro, e utilizasse as tropas leais ao Soviete de Petrogrado para prender os membros do Governo Provisório, ocupar os principais prédios públicos e tomar o poder, entregando-o ao congresso dos sovietes quando esse se instalasse.

Havia razão nas preocupações de Lenin. O governo provisório sentia a insurreição no ar e se deu conta de que precisava ter a seu dispor 100% de tropas leais em Petrogrado. Para isso, tentou substituir tropas que lutavam no fronte pelas guarnições de Petrogrado. O soviete da cidade compreendeu rapidamente, porém, as verdadeiras intenções de Kerensky e recusou a proposta. O Soviete de Petrogrado, então, criou um comitê de defesa revolucionária destinado a examinar a necessidade da transferência das tropas. Logo, os bolcheviques aproveitaram a deixa e deram ao novo comitê a finalidade, mais ou menos disfarçada, de ser o estado-maior da insurreição na capital.

Vacilo da direção bolchevique
Enquanto Lenin propunha a insurreição, a direção bolchevique vacilava. As primeiras votações sobre o assunto rejeitaram a proposta de Lenin. Kamenev e Zinoviev, velhos dirigentes bolcheviques, opuseram-se à insurreição, alegando que a maioria da classe operária ainda não estava do lado dos bolcheviques. No dia 10 de outubro, Lenin conseguiu chegar a Petrogrado em segredo para participar de uma reunião do Comitê Central, que finalmente aprovou a estratégia da insurreição.

Mas a vitória de Lenin na votação não acabou com os desacordos e as vacilações na direção bolchevique. Após a definição da direção bolchevique a favor da insurreição, Kamenev e Zinoviev escreveram na imprensa sua posição contraria, escancarando publicamente as desavenças entre os dirigentes bolcheviques. Lenin ficou furioso com a quebra da disciplina partidária por parte dos dois dirigentes e exigiu a expulsão de ambos do partido. Porém o Comitê Central rejeitou a proposta. Por fim, no dia 16 de outubro, o Comitê Central se reuniu novamente e decidiu, dessa vez em definitivo, passar à insurreição armada. Assim, começaram os preparativos para a tomada do poder.

O Comitê Militar Revolucionário de Petrogrado, embora tivesse sido criado pelo soviete em 12 de outubro, só começou a organizar a insurreição no dia 20. Seu presidente, Leon Trotsky, ordenou o armamento operário na capital e criou a Guarda Vermelha, composta por dezenas de milhares de operários armados, subordinada ao Comitê Militar Revolucionário. A capital se preparava para a luta.

 

A aliança entre operários e camponeses

Camponeses russos no início do século XX

A luta travada pelos camponeses russos era crucial para a tomada do poder pelos sovietes. Não podemos esquecer que a Rússia era um país agrário e que, por isso, os camponeses decidiriam o futuro da revolução, tivessem eles com foices ou fuzis nas mãos, como era o caso dos camponeses feitos soldados na Primeira Guerra Mundial. Era fundamental para os bolcheviques obter o apoio dos camponeses.

A luta camponesa era travada contra a servidão e contra a exploração praticada pelos nobres e capitalistas que cobravam o arrendamento das terras. Também havia no campo um proletariado agrícola explorado pelos proprietários de terra que defendia melhores condições de trabalho. Os alvos dessas duas classes sociais eram justamente os nobres e os capitalistas.

Em setembro e outubro de 1917, a revolução no campo se radicalizou a tal ponto que não havia mais nobre ou latifundiário que considerasse seguro. As terras eram tomadas, e seus bens confiscados. Mas os socialistas-revolucionários, que dirigiam os camponeses politicamente, presos aos seus compromissos com a burguesia e ao Governo Provisório, traíram seu próprio programa, que era a tomada das terras dos nobres e sua distribuição para o povo. Foi nesse contexto que surgiu o Partido Socialista Revolucionário de Esquerda, racha do velho SR, que se aproxima do caminho da insurreição proposto pelos bolcheviques.

Não foi só isso. Diante da traição do velho SR, Lenin propôs um ajuste no programa dos bolcheviques quanto à questão agrária. Até então, o partido defendia apenas a nacionalização das terras de toda a Rússia e sua imediata coletivização. Para aproximar o partido do campesinato, Lenin propôs que o partido também defendesse o antigo programa abandonados pelos SRs, isto é, que as terras dos nobres e latifundiários fossem tomadas e distribuídas para o povo. Trata-se de um recuo necessário do tradicional programa do partido. Necessário, pois foi fundamental para forjar a aliança entre a classe operária e camponesa na via da tomada do poder.

“Como governo democrático não podemos dar de lado a decisão das massas populares, mesmo no caso de que não estejamos de acordo com elas”, explicaria Lenin mais tarde. “No jogo da vida, na aplicação prática do decreto em cada localidade, os próprios camponeses saberão onde está a verdade”.

 

Os sovietes de toda a Rússia se reúnem

“Rostos rudes, feridos pelo inverno, mãos pesadas e rachadas, dedos amarelados pelo tabaco, botões caindo, cintos frouxos e longas botas rugosas e bolorentas. A nação plebeia, pela primeira vez, enviou uma representação honesta, feita à sua própria imagem e sem retoques”. Assim eram os delegados ao Segundo Congresso dos Sovietes de toda a Rússia segundo a descrição de Trotsky.

O Congresso, iniciado em 25 de outubro na capital Petrogrado, tinha maioria bolchevique: 390 dos 650 delegados. Os bolcheviques contavam também com o apoio dos SRs de esquerda, que somavam cerca de 150 delegados. Era a Rússia profunda manifestando sua vontade política.

Enquanto o congresso se reunia, o Comitê Militar Revolucionário, dirigido pelos bolcheviques, já havia colocado a insurreição em marcha. Todas as ordens dadas pelo governo eram anuladas pelo comitê. No dia 24, os soldados da guarnição de Petrogrado começaram a distribuir armas entre os destacamentos operários com a justificativa de garantir a segurança do Congresso dos Sovietes. No dia 25, as tropas do Comitê Militar Revolucionário começaram a ocupar os principais locais da capital. Em poucas horas, todos os prédios públicos, estações de trem, pontes, centrais de correios, telégrafos e telefones passaram para as mãos dos rebeldes. Na prática, o poder já estava nas mãos do comitê. Contudo, restava ainda uma última trincheira: o Palácio de Inverno, onde estavam reunidos os últimos ministros do Governo Provisório.

Publicado no Opinião Socialista nº 544