Tiros em Columbine: um tiro certeiro na cultura do faroeste

`EmMichael Moore, o ganhador do Oscar de melhor documentário deste ano com Tiros em Columbine, que usou o palco do prêmio para criticar a guerra de Bush no Iraque, é filho da operária cidade de Flint, cidade cuja economia foi arrasada pela transferência da fábrica da General Motors para o México. Quando isso ocorreu, ele já tinha uma boa história de militância estudantil, em moldes muito diferentes da que conhecemos no Brasil. Escreveu jornais e acabou fazendo o filme Roger e Eu, sobre a transferência da fábrica. Roger era uma referência ao presidente da empresa, que economizaria alguns míseros dólares por carro com a transferência que transformou Flint numa cidade fantasma e com índices de mortalidade infantil compatíveis com as de um país africano.

A partir de Roger e Eu, disponível em vídeo, Moore desenvolveu um método de realizar documentários, transmitidos em geral pela TV pública norte-americana. Se os poderosos não querem ser entrevistados, ele faz com que eles tenham, ao menos, de assumir. Também usa a câmera para pressionar os entrevistados: em Tiros em Columbine, durante as filmagens, uma rede de supermercados se compromete a não mais vender munição, por exemplo.

O tema de Tiros é o uso indiscriminado de armas de fogo pelos americanos. O ponto de partida é um massacre numa escola de classe média, em que dois amigos alvejaram amigos e professores. Moore, no decorrer da obra, defende a tese de que é possível ter tantas armas quanto os americanos (os canadenses tem 7 milhões de armas de fogo, para 10 milhões de lares), assistir a tantos filmes violentos (na França), jogar videogames mais sangüinários (Japão) e, ainda assim, ter menos vítimas fatais. Nos EUA, os assassinatos por arma de fogo chegam a 11 mil por ano, contra muito menos de mil em outros países desenvolvidos. O segredo para tanta violência interna não seria a história (alemães mataram milhões na Segunda Guerra) nem a miscigenação racial (como sugere o líder da American Rifle Association, o canastrão Chalton Helston), mas o medo que o homem branco norte-americano tem dos negros e da diferença: na verdade, de tudo que não conhece muito bem.

A tese de Moore é controversa, mas ele é um grande retórico — e faz um belo panfleto, a arte mais “patrulhada” dos dias de hoje. O fato é que ele representa bem aqueles que lutam contra o monstro de duas cabeças do sistema político norte-americano — uma democrata, outra republicana. E Moore luta com vontade, força e sinceridade que fazem dele um homem a ser ouvido, entre outros motivos porque chega aonde quer: denunciar não apenas o “hábito” da violência repressora e preconceituosa, mas indicar que ela está associada à exploração dos mais pobres e à riqueza de empresas como a Lookheed Martin, maior fabricante de armas – até nucleares – dos EUA, instalada, não por coincidência, em Columbine.
Atualmente, Moore prepara um filme para atrapalhar a campanha de Bush em 2004, mostrando os negócios da família texana com Bin Laden.

Post author Alexandra Collontini,
especial para o Opinião Socialista
Publication Date