Sobre reformistas e revolucionários

Está se consumando, infelizmente, um erro: a construção de dois projetos partidários e a divisão dos que se opõem pela esquerda ao governo Lula.

A “Esquerda Socialista Democrática”, que agrupa a senadora Heloísa Helena, os deputados federais Babá, Luciana Genro e João Fontes, e intelectuais como Carlos Nelson Coutinho, decidiu formar um novo partido excluindo o PSTU e outros setores.
O motivo desta decisão é a formação de um partido reformista, com estratégia eleitoral. Por isso, a exclusão do PSTU, que defende a formação de um partido revolucionário.

A estratégia do novo partido foi apresentada por um de seus ideólogos, Carlos Nelson Coutinho, em plenária no Rio de Janeiro. Esta se espelha nos partidos social-democratas europeus na década de 70, antes que incorporassem o neoliberalismo. Coutinho afirma o projeto reformista sem nenhuma hesitação.

A direção da Esquerda Socialista e Democrática não debate claramente sua proposta porque sabe que poucos se empolgarão com o que, na verdade, é uma reprodução do PT de 2002, antes que chegasse ao governo federal. Uma opção equivocada que pode levar os ativistas que estão rompendo com o PT a vivenciar nova frustração.

Luciana Genro, em um ato de apresentação do movimento em São Paulo (SP), afirmou que “esse é um movimento que reúne tanto reformistas como revolucionários”. Tudo resolvido? Não. Por que, quem define o eixo do partido? A carta do Rio de Janeiro, único documento programático desse movimento até hoje, tem um conteúdo reformista. Em nenhum momento fala em ruptura e em revolução. Como na antiga social-democracia, há uma vaga referência ao socialismo.

A reprodução do PT

Este partido está sendo fundado com a estratégia de apresentar a candidatura de Heloísa Helena nas eleições de 2006. Não temos nada contra a candidatura de Heloísa. Só achamos que, ao ser esta a estratégia do novo partido, o limite da democracia burguesa não é ultrapassado, persistindo numa perspectiva eleitoral, reformista.

A estratégia eleitoral do PT, com Lula em 89, 94, 98 e 2002, deu no que deu. Hoje a experiência com Lula já está sendo feita, mas naquela época, por ser uma liderança operária, e ter atrás de si as greves do ABC, ele apresentava até mais motivos para um apoio eleitoral do que a Heloísa Helena hoje. Mas a transformação de uma tática eleitoral (a candidatura de Lula) na estratégia do partido foi a base da adaptação à democracia burguesa e a destruição do PT. Reviver isto, com um “feliz 2006” já é demais. Portanto, a Esquerda Socialista e Democrática não está simplesmente “juntando” reformistas e revolucionários, mas  garantindo aos reformistas a hegemonia no partido, sem qualquer discussão séria anterior.
Além disso, o argumento em defesa da “amplitude” e do caráter “plural” do novo partido se chocam com a exclusão burocrática do PSTU. A generosidade dos companheiros se concentra em sua mão direita, reservando para a esquerda uma postura sectária e autoritária.

Por um partido revolucionário

Nós, do PSTU, defendemos que o movimento pela construção de um novo partido tivesse um caráter amplo e unitário, que pudesse abarcar a diversidade de todos os que rompessem com o PT, o que inclui reformistas e revolucionários. Mas defendemos também que existisse um profundo debate programático neste movimento, que definisse o caráter do partido e seu programa.

A Esquerda Socialista e Democrática suprimiu o debate programático e vai a um partido reformista. O que está havendo nos estados são apenas atos de lançamento, sem debate de programa.

Em junho será fundado o novo partido. Para a militância sobrará a tarefa de colher assinaturas para a legalização. No futuro, estará reservado o mesmo que foi reservado à base do PT: recolher votos para eleger os parlamentares, enquanto eles decidem tudo.

Um partido não é um sindicato, um organismo de frente única, em que é necessária a unidade dos trabalhadores reformistas e revolucionários em torno de questões mínimas, como a luta salarial. Um partido deve apresentar um projeto de poder à sociedade.

O centro do partido deve ser a luta direta das massas, dentro de uma perspectiva revolucionária.

Hoje existe um processo convulsivo na América Latina, que pode se expressar também no Brasil, com ascensos como ocorreram na Bolívia, Argentina e Equador. Um “novo PT” reformista não sobreviverá a um ascenso revolucionário, ou, pior, permanecerá unido ao redor de uma direção reformista cumprindo um papel reacionário. Basta pensar o que será deste partido, com uma orientação de “democratização do Estado”, e, portanto, de adaptação à democracia burguesa, quando o regime for questionado pelas massas. O “novo partido” estará defendendo o regime contra as massas. Por isto, tentar voltar a roda da história e reeditar um PT é um grave equívoco. O momento histórico aponta para a necessidade de um novo partido revolucionário.

UNIDADE NAS LUTAS E NAS ELEIÇÕES

A divisão está se consumando por iniciativa da Esquerda Socialista e Democrática. No entanto, a divisão dos que se opõem pela esquerda ao governo Lula é um profundo equívoco. Como não vamos estar em um mesmo partido, só nos resta chamar a unidade na luta de classes e nas eleições.

Teremos inúmeras greves no próximo período e a mobilização contra as reformas do governo (Sindical e Trabalhista e Universitária). Temos também a formação da Coordenação Nacional de Lutas (Conlutas), que se propõe a superar o imobilismo que a direção da CUT quer nos impor. Queremos fazer um chamado aos companheiros da Esquerda Socialista e Democrática à unidade em torno destes processos.
Em relação à Conlutas, existem alguns dirigentes sindicais desde o início em sua construção, mas a maioria absoluta dos dirigentes está boicotando ou é omissa, favorecendo, na prática, a direção da CUT.

Existiu até a postura burocrática da dirigente do Sindsprev do Rio de Janeiro Janira Rocha, que desrespeitou uma decisão de assembléia e impediu a ida de ônibus ao Encontro Sindical Nacional, em Luziânia (GO).

Também nas eleições seria um erro que, tanto este ano como em 2006, a oposição pela esquerda ao governo se dividisse. Queremos propor uma frente eleitoral, na medida em que, infelizmente, houve uma divisão partidária.

Nas eleições de 2004, como ainda não tem legalidade, a Esquerda Socialista e Democrática terá de apoiar candidatos de outros partidos. É fundamental que apóiem candidaturas de esquerda contra o governo e contra os partidos burgueses, comprometidos com a luta contra a Alca e o Fundo Monetário Internacional (FMI).

O PSTU vai apresentar candidaturas em todas as capitais. Vários dos grupos, que compõem a Esquerda Socialista e Democrática, têm militantes que se afiliaram ao PSTU com um caráter democrático para concorrer nas eleições de 2004. Chamamos o conjunto dos companheiros a apoiar as candidaturas do PSTU. É preciso rever a atitude de Heloísa Helena, que está apoiando o candidato do PPS em Maceió, Régis Cavalcante. Ou seja, está ajudando o candidato de um partido burguês, de Ciro Gomes, ministro de Lula. Chamamos os companheiros a apoiarem as nossas candidaturas em 2004.

Queremos, desde já, estender o chamado a uma frente única nas eleições de 2006, com o mesmo critério, em base a um programa antiimperialista, de oposição ao governo e aos partidos burgueses.

Post author Eduardo Almeida, da Direção Nacional do PSTU
Publication Date