Sobre a queda de Yanukovich na Ucrânia


A mobilização popular derrubou Yanukovich!

Nenhuma confiança em Timoshenko, Klitschko e no novo governo provisório de Turchínov!

A Ucrânia será independente apenas com um governo dos trabalhadores!

A imponente força da mobilização revolucionária do povo ucraniano derrubou o governo assassino, entreguista e oligárquico de Víctor Yanukovich, conquistando uma vitória democrática que ilumina o caminho dos outros povos e aterroriza as classes dominantes da Ucrânia, Rússia, da Europa imperialista e do mundo inteiro.

Dezenas de milhares de pessoas, auto-organizadas a partir da ocupação da emblemática Maidán (Praça da Independência) enfrentaram durante vários dias a selvagem contra-ofensiva repressiva de Yanukovich que, valendo-se das sinistras Berkut (forças de elite da polícia) atacou brutalmente a praça várias vezes, tentando afogar em sangue seus valentes defensores.

Mas, apesar do assédio policial e da ação assassina de dezenas de franco-atiradores, e ao doloroso preço de mais de cem mortos e quase mil feridos, as improvisadas milícias de auto-defesa da Maidán, munidas com pedaços de pau, pedras, garrafas de coquetel molotov e algumas poucas armas subtraídas de algumas delegacias de polícia, arsenais menores ou das dezenas de “prisioneiros” que fizeram entre as forças policiais, resistiram de forma tão decidida que chegaram ao ponto de abrir uma verdadeira crise de poder no país.

A resistência aguerrida de dezenas de milhares de pessoas acabou quebrando a cadeia de comando das Forças Armadas, divididas entre esmagar fisicamente os manifestantes ou não, deixando no  ar Yanukovich e seus pares que, no desespero, tentaram fazer um acordo de último minuto que pudesse salvar seu governo do desmoronamento mais estrepitoso.

Esse acordo firmado “por cima” entre Yanukovich e toda a oposição parlamentar (La Patria, UDAR e Swoboda), e rubricado com o beneplácito dos representantes do imperialismo europeu, norte-americano e a própria Rússia, foi repudiado veementemente  pela Maidán, que não acreditou na promessa de “eleições antecipadas” para dezembro, nem um “novo governo de unidade nacional em dez dias”, e se manteve firme exigindo: Fora Yanukovich já!

A praça derrotou a repressão e foi além, passando por cima do acordo que salvaria o governo de Yanukovich do colapso. Assim, no sábado, 22 de fevereiro, pela manhã, o tirano fugiu de Kiev e a capital ficou praticamente nas mãos dos manifestantes e seus destacamentos de auto-defesa, que haviam ocupado os principais pontos estratégicos de poder: o palácio presidencial, o Banco Central e os principais ministérios.

Como testemunhos dessa clara situação de duplo poder, as imagens de milhares de pessoas invadindo a luxuosa mansão de Yanukovich e a entrevista que um membro das milícias, sentado na poltrona presidencial, deu diante das câmeras dos principais meios de comunicação, percorreram e causaram impacto no mundo inteiro.

A dramática ausência de uma direção revolucionária
No entanto, diante da fuga de Yanukóvich e da ocupação dos principais edifícios públicos pelas milícias de auto-defesa, a oposição europeísta e as forças de ultra-direita correram para tapar o evidente “vazio de poder” que ficou no país, aproveitando-se da terrível ausência de una direção revolucionária no processo.

O Partido Comunista da Ucrânia cumpriu historicamente e continua cumprindo um papel nefasto nesse sentido. O PC sempre apoiou Yanukóvich, aprovou as “leis repressivas” em janeiro e agora diz que o assassino oligarca era um “presidente legítimo” que foi derrotado por um “golpe fascista”. O stalinismo, como faz no Oriente Médio, novamente se posiciona ao lado dos tiranos contra a mobilização revolucionária das massas. Com isso, conquistou o justo ódio da Maidán.

Nesse contexto, o instrumento utilizado por esse setor da oligarquia ucraniana para resolver a crise de poder foi a Rada Suprema (parlamento), que não havia sido ocupada pelos manifestantes, apesar de estar cercada por milícias de auto-defensa.

À beira do abismo, a Rada “destituiu” Yanukóvich (na verdade, atuou já sobre um fato consumado) e designou Alexándr Turchínov como “presidente interino”, tanto do Legislativo como do Executivo, e convocou eleições para 25 de maio.

Assim, mesmo que de maneira extremamente precária, está em marcha um operativo reacionário de desvio e estabilização da situação política, de resultados insondáveis, sobretudo porque o movimento de massas se sente vitorioso, olha com desconfiança para os “velhos-novos representantes” do poder e continua mobilizado.

Além disso, a situação econômica, à beira do colapso, impede medidas que possam minimizar de forma efetiva a dramática situação de miséria e desemprego da classe trabalhadora ucraniana.

Nossa posição

1-   A queda de Yanukovich representa uma enorme vitória da mobilização revolucionária do povo ucraniano, que derrotou a repressão, dividiu as forças repressivas, não se deixou enganar pelo pacto desmobilizador entre Yanukovich e a oposição parlamentar, amparado pelo imperialismo europeu e Putin, além de levar ao colapso as principais instituições do poder político por meio de seus organismos de auto-defesa.

2-   Existe uma dualidade de poderes na Ucrânia. De um lado, o auto-proclamado “novo governo”, assentado na oposição pró-imperialista e de ultra-direita e, por outro, o poder latente da praça Maidán, apesar de que em suas milícias de auto-defesa participem também setores de ultra-direita e uma parte delas tenha sido cooptada como agente do “novo poder”.

3-   Ocorreu uma crise revolucionária, um vazio de poder no dia 22 de fevereiro, quando os manifestantes e as milícias de auto-defesa controlaram os principais centros de poder e Yanukovich fugiu. Isso ocorreu independentemente de que o movimento não tenha sido consciente disso e de que, por carecer de uma direção política revolucionária, tampouco tenha podido solucionar essa crise de poder a seu favor. 

4-   Por isso, é fundamental que os revolucionários apliquem uma política que responda a essa situação concreta: Não podemos entregar o poder a Timoshenko, Turchínov, Yatseniuk, Dobkin (governador de Kharkov) ou qualquer outro líder ou partido da chamada “oposição pro- ocidental”!

Nenhuma confiança nos usurpadores da revolução, da luta do povo ucraniano e seus mártires!

Eles são parte da mesma oligarquia que levou a Ucrânia ao caos mais completo, que explora o povo, cerceia suas liberdades democráticas e entrega as riquezas do país tanto à UE como a Putin!

5-   Isso é fundamental, pois o que está colocado na Ucrânia, independente do frágil governo interino, é a questão do poder político. Nossa posição é que o poder deve passar para as mãos de organismos democráticos da classe operária de toda a Ucrânia, junto com os milhares de ucranianos que defenderam, com sua vida, a praça Maidán.

Agora, mais do que nunca, é fundamental impulsionar a organização e a mobilização independente da classe trabalhadora e da juventude precarizada. É urgente convocar um congresso ou encontro nacional para discutir um programa de governo a serviço dos interesses sociais das classes exploradas, oposto a todos os setores da oligarquia, tanto aqueles ligados ao Partido das Regiões como a Timoshenko, Klitschko e os setores neo-nazistas, e que este organismo centralizador tome o poder para aplicar esse programa.

6-   O povo explorado que derrotou Yanukovich é quem deve tomar as rédeas de seu destino e decidir democraticamente os rumos da política e da economia do país. Só concentrando o poder em suas mãos, a classe trabalhadora e o povo explorado da Ucrânia poderão aplicar um programa coerentemente anti-capitalista e anti-imperialista, um programa socialista que assegure a independência total do país (tanto da UE como da Rússia opressora), a nacionalização das riquezas, a vigência plena das liberdades democráticas e o respeito aos direitos das minorias, enfrentando decididamente as provocações dos neo-nazistas e as propostas separatistas. Só um governo operário e popular poderá levar a cabo a revolução agrária e o pleno emprego para melhorar de fato as condições de vida do povo.

7-   Para isso é fundamental defender a expropriação de todos os oligarcas (desde Yanukovich até Timoshenko), do imperialismo, da oligarquia russa e colocar toda a economia a serviço do país A luta deve continuar até que o povo seja o dono de todas as riquezas do país e não um punhado de milionários vendidos à UE e à Rússia!

8-   Por isso, defendemos que a praça Maidán continue mobilizada. Que essa mobilização ocorra em todas as cidades da Ucrânia e que o povo não entregue as armas a ninguém. A tarefa dos revolucionários é continuar impulsionando a luta por um programa socialista e de centralização dos organismos de poder popular, sempre combatendo a influência e se defendendo dos setores ultra-nacionalistas e neo-nazistas, como o nefasto “Setor de Direita”.

9-   A situação do processo revolucionário ucraniano e a dualidade de poderes só reforçam de forma dramática a necessidade de um partido revolucionário, operário e socialista, que seja parte de uma Internacional democraticamente centralizada. A construção dessa direção revolucionária na Ucrânia e em todos os países deve ser a prioridade número um dos marxistas e da vanguarda operária e social.

Secretariado Internacional

26 de fevereiro de 2014

Tradução: Cecília Toledo