Síria: Sete anos de revolução e guerra

Em 18 de março de 2011, um grupo de jovens pichou a frase “o povo quer o fim do regime” nas paredes de sua escola na cidade de Deraa, sul da Síria. Eles foram presos, torturados e assassinados pela polícia do ditador Bashar al-Assad. Foi o estopim para que milhões de sírios tomassem as ruas do país e começassem sua revolução.

A revolução luta pelo fim da ditadura Assad, no poder desde 1970, e também contra o desemprego e por melhores condições de vida. A população se organiza em centenas de Comitês de Coordenação Local que se formam em todo o país.

Após seis meses de repressão brutal contra manifestações pacíficas, a população trabalhadora inicia sua autodefesa. Com milhares de soldados desertores e voluntários, milícias populares armadas se formam em toda a Síria para derrubar o regime. Eles são chamados de rebeldes e se agrupam sob a denominação de Exército Livre da Síria (ELS).

Em 2013, os rebeldes avançaram em todo o país. Para impedir a queda do ditador, milícias ligadas ao partido libanês Hezbollah abandonaram a luta contra o Estado de Israel e invadiram a Síria. O grupo iraquiano autodenominado Estado Islâmico (Daesh em árabe) também invadiu o país para combater os rebeldes e as milícias curdas.

A Arábia Saudita, o Qatar e a Turquia começam a atuar por dentro da revolução para desviar os rumos para uma luta religiosa que, na prática, divide o povo sírio e ajuda a manter o ditador. Milhões de sírios são obrigados a abandonar suas casas. A crise dos refugiados tem repercussão internacional.

Em 2015, é a vez de os russos invadirem o país para salvar o ditador. Aviões de combate russos, junto com a aviação síria, bombardeiam dia e noite as áreas rebeldes sob alegação de combate ao terrorismo. Vilas e cidades inteiras são arrasadas. Meio milhão de sírios são mortos desde o início da revolução, a maioria pela aviação síria e russa.

Nesse meio tempo, o governo dos Estados Unidos faz um acordo com o partido curdo-sírio (PYD) que lidera as Forças Democráticas da Síria (SDF). Os americanos mandam armas sob o argumento de guerra ao terror. Seu verdadeiro objetivo é controlar a produção de petróleo e energia elétrica da Síria.

Em 2018, a ditadura Assad se mantém no poder graças à invasão do país por várias forças militares estrangeiras: Rússia, Estados Unidos, Irã, Turquia, Hezbollah, grupo iraquiano Estado Islâmico, além da aviação israelense.

Fora da Síria, o imperialismo e as potências internacionais e regionais preferem a manutenção do ditador e partilham o país em áreas de influência. Também a maioria dos partidos de esquerda, especialmente ligados ao chavismo (Venezuela) e ao castrismo (Cuba), apoia o ditador ou se mantém neutra. Dessa forma, eles impedem um grande movimento de solidariedade internacional à revolução.

Mesmo assim, a maioria da população continua na oposição ao ditador, e os rebeldes dominam 11% do território sírio.

Fora Assad e todas as forças militares estrangeiras!

Por um governo dos trabalhadores sírios apoiado nos Comitês de Coordenação Local e nas milícias rebeldes!

O povo trabalhador sírio enfrenta o ditador e todas as forças militares estrangeiras que invadiram o país. Para expulsar essas forças estrangeiras e derrubar a ditadura, os rebeldes sírios precisam formar um novo Comitê de Coordenação Nacional que unifique os comitês locais e as milícias rebeldes. Esse comitê tem de ser independente das potências regionais e mundiais para representar apenas os interesses dos trabalhadores sírios.

Além disso, o comitê tem de construir uma aliança com a população curda. Os curdos odeiam o ditador Assad e lutam pelo direito à autodeterminação. No entanto, o partido curdo PYD cometeu o erro de se aliar ao ditador e aos Estados Unidos. Nenhum deles defende o direito à autodeterminação. O comitê tem de fazer o compromisso de garantir o direito à autodeterminação e trazer os curdos para o lado da revolução.

Os rebeldes também têm de se aliar aos palestinos. Eles têm de se comprometer a retomar a luta contra a ocupação israelense nas colinas de Golã (que pertenciam à Síria), abandonadas pelo ditador Assad. A Liga Internacional dos Trabalhadores – Quarta Internacional (LIT-QI), organização internacional que o PSTU integra, apoia a revolução síria e integra a solidariedade internacional à mesma.

SAIBA MAIS

O que você precisa saber sobre a Síria

Ghouta Oriental – 400 mil sírios rebeldes estão sitiados pelo ditador desde 2013. As aviações russa e síria bombardeiam dia e noite. Mais de cem civis morreram só no dia 9 de fevereiro. O objetivo do ditador é expulsar toda a população para o norte e ocupar a área com novos habitantes (sírios, libaneses, iraquianos e iranianos). Esse processo de mudança demográfica à força é denominado limpeza étnica e é condenado pelo direito internacional.

Idlib – Província rebelde no norte do país. Também está sob intenso ataque pelas forças do ditador. Idlib, Ghouta, Deraa e áreas rurais de Alepo, Hama e Homs são controladas pelos rebeldes. Totalizam 11% do território sírio.

Afrin – Parte de Rojava. Foi invadida pela Turquia em 19 de janeiro. O presidente turco Erdogan anunciou que, após tomar Afrin, vai invadir Manbij, também sob controle dos curdos-sírios. É possível que a população curda-síria seja expulsa para o lado oriental do rio Eufrates em novo processo de limpeza étnica.

Curdos – Os curdos são uma nacionalidade oprimida dentro da Síria, da Turquia, do Iraque e do Irã. Na Síria, eles são a maioria da população em Rojava, região composta por Afrin, Kobani (Ayn al-Arabi) e Hasaka, que tem grande produção agrícola. O principal partido curdo-sírio é o PYD. Esse partido reprime os dissidentes e lidera as Forças Democráticas da Síria com apoio dos Estados Unidos. O PYD também controla vastas áreas onde os curdos são minoria como a cidade de Manbij e o vale do rio Eufrates. Essa área é rica em petróleo e tem a hidrelétrica de Tabqa, responsável pela produção de 50% de toda a energia elétrica do país. Daí o interesse americano.

Guerra por petróleo – A força aérea dos Estados Unidos arrasou um grupo de 550 soldados mercenários russos que queriam tomar uma área petrolífera em 7 de fevereiro.

Daesh – O grupo iraquiano Estado Islâmico controla zonas rurais no deserto próximas à fronteira iraquiana com a cumplicidade do ditador sírio e dos Estados Unidos. Os Estados Unidos permitiram que os líderes do Estado Islâmico (Daesh), junto com suas famílias, soldados e armas, se retirassem em segurança de Raqqa em outubro de 2017.

Palestinos – A ditadura síria sempre foi inimiga da Organização pela Libertação da Palestina (OLP), liderada por Yasser Arafat. O ditador Assad patrocinou o massacre de palestinos no Líbano durante a guerra civil (1975-1990). Na Síria, o ditador bombardeou Yarmouk, o maior campo de refugiados palestinos, para expulsá-los.

Deraa – Cidade onde começou a revolução. Fica na fronteira com a Jordânia. A maior parte da cidade está sob controle dos rebeldes do Exército Livre da Síria.

Colinas do Golã – Território sírio ocupado pelo Estado de Israel em 1967. O Estado de Israel apoia a permanência do ditador sírio Bashar al-Assad, mas não quer que o ditador tenha força militar nem ajude a milícia libanesa Hezbollah ou grupos iranianos. Por isso, periodicamente, bombardeia armazéns e comboios militares em território sírio há anos impunemente. Em 10 de fevereiro, o regime sírio abateu um avião israelense que bombardeou o país. Foi a primeira vez que isso aconteceu.

Publicado no Opinião Socialista nº 550