Ser ou nao ser… mensaleiro?

Incrível. Em um mesmo dia, os deputados afirmaram a existência do mensalão. Poucas horas depois, absolveram mais um, como em uma afirmação de que ninguém recebia a propinaA CPI dos Correios aprovou seu relatório final por 17 votos a 4, com o mensalão incluído no texto. Mas, no mesmo dia, o mensaleiro João Paulo Cunha (PT-SP) foi absolvido no plenário por 256 votos a 209, com quórum elevado e vitória folgada. Ele é o nono parlamentar a ser absolvido em plenário. Resumindo, para os deputados, o mensalão pode até ter existido, mas todos são inocentes.

Pode soar uma dúvida existencial, nascida da leitura costumaz das novelas de William Shakespeare ou uma contradição. Nenhum dos dois. É apenas uma amostra do que pode ocorrer quando dois setores que representam os mesmos interesses brigam encarniçadamente pelo controle do Estado brasileiro. E, diante dessa disputa eleitoral aberta, estão pouco se lixando para essa ‘contradição´ ou para a literatura.

`MontagemJoão Paulo Cunha não foi somente um mensaleiro a mais a se safar, não é somente um ingrediente a mais na pizzaria de Brasília. João Paulo presidia a Câmara no período investigado. João Paulo recebeu R$ 50 mil do esquema do valerioduto. O dinheiro foi sacado na agência do Banco Rural, em Brasília, por sua mulher, Márcia, em setembro de 2003. As incontestáveis evidências e a indicação de sua cassação não impediram que o plenário da Câmara livrasse sua cara. Sua absolvição, com folga, é simbólica e serve de alento aos últimos quatro mensaleiros identificados, que esperam pelo julgamento de seus pares.

O relatório
Ainda que a deputada Ângela Guadagnin tenha se contido e evitado repetir a ‘dança do mensalão´, o PT de Lula era só sorrisos diante da absolvição de Cunha. A oposição burguesa, principalmente o bloco PSDB-PFL, também estampou sua felicidade, desta vez com a aprovação do relatório da CPI dos Correios. O relatório encerra a CPI, admitindo a prática do mensalão e refutando a tese governista de que tudo não passava de crime eleitoral, ou caixa-dois. Apesar dos 245 dias de depoimentos e investigações, a CPI apenas cita que o presidente Lula ‘poderia ter percebido o crescimento da base aliada´ e omite o nome de seu filho Fábio, que recebeu R$ 5 milhões da Telemar, para sua empresa.

O PT tentou negociar a aprovação de uma versão de relatório na qual o partido teria sido “seduzido” por Marcos Valério. Com a aprovação do texto original (com algumas alterações e nomes retirados de última hora) o deputado José Eduardo Cardozo (PT-SP) protocolou o recurso contra a votação da CPI na Mesa da Câmara e este deverá ser analisado pelo presidente do Congresso, Renan Calheiros (PMDB-AL).

O que eles estão comemorando?
Nesta quinta, 6 de abril, os brasileiros que abrirem os jornais vão se deparar com uma manchete dizendo que mais um mensaleiro é absolvido e outra dizendo que o relatório que admite o mensalão foi aprovado. Como se isso não bastasse, ainda verão a foto de comemoração, com os deputados oposicionistas exaltando a coragem do relator Osmar Serraglio (PMDB) por ter sido persistente em não mudar o texto do relatório. E então, os leitores se perguntarão: o que eles estão comemorando?

Os deputados sorridentes, tanto os da oposição que conseguiu aprovar o relatório, quanto os governistas que absolveram João Paulo, festejam os benefícios que cada qual vai tirar de tudo isso nas eleições. Diante da dimensão dos escândalos, que saíram do controle da oposição e do governo, não era possível terminar a história dizendo que tudo não passou de um mal entendido. Ia pegar mal. Ao mesmo tempo, não dava para punir os deputados, pois isso inviabilizaria a reeleição dos mesmos. Seria cortar na própria carne, uma expressão que pode até ser dita, mas que segue sendo estranha aos picaretas de Brasília. Como na máfia, há um código de solidariedade entre eles: ‘Hoje eu livro a sua cara. Amanhã você livra a minha´.

Os governistas e a oposição burguesa trocaram acusações e até insultos. Quem vê de longe, pode até imaginar diferenças. Mas estas não vão além das cores da camisa. Com um mesmo programa de submissão do País ao mercado e ao FMI e enlameados até o pescoço, PT, PSDB e PFL encenam o que o colunista Clóvis Rossi, da Folha de S. Paulo, chamou hoje de ‘Fla-Flu imbecil”. Eles estão em campo, as cores podem ser diferentes, as canções de guerra podem vir até a motivar alguns poucos, formando suas torcidas. Mas, neste campeonato, Lula e Alckmin escolheram os mesmos de sempre para entregar a taça. E não somos nós.