Sair às ruas para barrar a guerra

Entre 11 e 18 de janeiro, protestos contra a guerra ao Iraque reuniram centenas de milhares em 32 países. Em São Paulo e em Liverpool, na Inglaterra, foram cerca de mil ativistas. No Japão, na Rússia e na Suécia foram cinco mil. Em Berlim, 10 mil. Em Madrid, 20 mil saíram às ruas. Mas, com certeza, as manifestações mais importantes aconteceram exatamente nas principais cidades do coração do império, como Washington, San Francisco, Chicago e Los Angeles.
Somente na capital dos EUA, mais de 100 mil pessoas concentraram-se na frente da Casa Branca, defendendo a “desobediência civil”. A data dos protestos que pipocaram mundo afora, diga-se de passagem, foi proposta pelas organizações norte-americanas, em homenagem ao dirigente negro Martin Luther King, uma das principais vozes que se levantaram contra a Guerra do Vietnã, na década de 60.
Por esta e outras, vários foram os analistas que afirmaram que as manifestações em muitos sentidos recordaram as mobilizações de quarenta anos atrás. Com uma importante diferença: naquela época, os protestos começaram após o início do conflito, quando os corpos já eram contados aos milhares; agora gente do mundo inteiro está tomando as ruas antes mesmo do primeiro tiro ser disparado.
Contudo, a possibilidade de que Bush dê ouvidos ao clamor mundial contra a guerra não é das maiores. Na mesma passada, o governo norte-americano intensificou a campanha de propaganda em defesa do conflito. Num episódio que beira o patético, a administração Bush e os inspetores da ONU — que só estão no Iraque para fazer um jogo de cena que dê aval à guerra — apresentaram aquilo que eles consideram “perturbadoras e definitivas” provas do perigo representado por Saddam: a descoberta de 12 ogivas vazias, que poderiam ser usadas para armas químicas e 3 mil páginas de um estudo sobre urânio.
A utilização de provas tão inconsistentes evidencia que as intenções de Bush nada têm a ver com uma suposta luta contra o terrorismo. Na verdade, sua “luta” é para ter acesso ao petróleo iraquiano e controlar inteira e diretamente a região com uma dupla intenção: tentar tirar a economia norte-americana da crise e satisfazer os petroleiros e os senhores das indústrias armamentistas, que o ajudaram a chegar ao poder.
Por isso mesmo, não podemos descartar que, lamentavelmente, a hipótese mais provável é a de que o presidente cowboy irá levar seus planos adiante.

Intensificar as mobilizações

O principal empecilho para isto é a oposição de trabalhadores e jovens de todo o mundo. Hoje, pesquisas indicam que entre 70% e 85% das populações da Ásia, da Europa e da América Latina se opõem à guerra. É importante dizer que em países com a França e a Alemanha estes números se mantém mesmo que a ONU aprove a invasão. E mais: em todos estes locais esta indignação tem se transformado em ações concretas.
Um dos principais marcos destes protestos ocorreu em novembro, quando da realização do Fórum Econômico Social, em Florença, na Itália. Numa manifestação realizada depois do Fórum, cerca de 500 mil pessoas saíram às ruas e foi neste ato que surgiu a proposta da realização de uma greve continental contra a guerra. Uma proposta que, infelizmente, não foi encaminhada devido a oposição da Confederação Européia de Sindicatos.
De lá para cá, as manifestações não só tiveram continuidade, como também adquiriram as formas mais variadas (quadro ao lado). Parodiando o odioso conceito de “guerra preventiva” do imperialismo, ativistas do mundo inteiro estão realizando o que vem sido chamado de “protestos preventivos”. Este certamente é o caminho a seguir.

Lula tem que se pronunciar

A explosão da guerra significará um ataque aos trabalhadores e à juventude de todo o mundo, inclusive do Brasil. A exploração, o aumento dos preços e a miséria só poderão aumentar. Por isso mesmo, o governo Lula não pode se abster diante desta situação. Em primeiro lugar, é necessário que o presidente faça um pronunciamento categórico contra a guerra e a utilização, pelos EUA, da Base de Alcântara ou de qualquer outra instalação militar do país. Isto, inclusive, se a ONU continuar sua farsa, dando aval a Bush.
Um pronunciamento que, na verdade, já tarda, pois Lula, desde que esteve com Bush sabe que, na ótica norte-americana, a guerra é inevitável. Além disso, o governo brasileiro deve chamar, imediatamente, a construção de uma rede internacional de solidariedade ao povo iraquiano, que deve começar pelo rompimento imediato do boicote de remédios e alimentos imposto pelos EUA, responsável pela morte de milhares de pessoas no Iraque.
Somente iniciativas como estas e a continuidade e intensificação das mobilizações e ações de massas podem criar as condições para que se barre mais este crime do imperialismo. Neste sentido, o primeiro grande evento se dará na abertura do Fórum Social Mundial, quando será realizado um ato com dezenas de milhares.
No mundo todo, o próximo grande evento será o dia 15 de fevereiro, escolhido por organizações européias e americanas como um dia internacional de protestos contra a guerra.
É fundamental que as entidades do movimento sindical e popular, a juventude e demais organizações políticas brasileiras engajem-se neste processo e, a exemplo do que vêm ocorrendo no resto do mundo, intensifiquem as ações de rua. Como também é muito importante que a proposta de realização de um dia de paralisação seja retomada e organizada. Esta é uma guerra que só pode ser barrada com muita luta.
Post author Wilson H. Silva,
de São Paulo
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