A trilha de mortes provocada pelo governo genocida de Bolsonaro é acompanhada por uma imensa crise social e econômica que desnudou a enorme desigualdade social no Brasil. Desigualdade esta que elevou o número de mortes causadas pela pandemia entre a população mais pobre e vulnerável.

A crise expôs toda a crueldade do sistema capitalista. Uma  massa de milhões de brasileiros foi jogada para as piores condições de vida, amargando desemprego, queda da renda e fome. Não é por menos que a pesquisa Datafolha divulgada no último dia 15 de setembro aponta que mais de 70% responsabilizam o governo pelo desemprego e a inflação.

Desemprego recorde

Segundo o índice oficial medido pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), 14,1% dos trabalhadores estão sem emprego. Em apenas um ano houve um aumento de 1,6 milhão no número de desempregados. No entanto, esse número não reflete o total de trabalhadores sem emprego no país, pois só leva em consideração as pessoas que procuram emprego em um dado momento.

Se somarmos todos que não possuem nenhuma atividade remunerada, formal ou informal, veremos que o número de desempregados saltou de 47 milhões em 2019 para mais de 58 milhões em 2020, equivalente a 27,87% da população. Além disso, mais de 33 milhões de pessoas (15,78% da população) estão subempregados, ou seja, vivem como podem, de acordo com os dados produzidos pelo Instituto Latino-Americano de Estudos Socioeconômicos (Ilaese), conforme o gráfico abaixo.

Queda na renda: de bolso vazio

O aumento do desemprego e da precariedade derrubou, por tabela, a renda média dos brasileiros. Segundo a pesquisa “Desigualdade de Impactos Trabalhistas na Pandemia” da FGV Social (Fundação Getúlio Vargas), houve uma redução de 9,4% na renda média individual da população. A queda foi maior para famílias mais pobres que tiveram uma redução de até 21,5%.

A reforma trabalhista, aprovada em 2017 sob o falso pretexto de gerar mais emprego, colaborou para que os empregos virarem fumaça. Com ela, os patrões tiveram mais facilidade em demitir e ampliar o trabalho precário e por tempo determinado. Depois da reforma, o trabalho por tempo determinado saltou de 338 mil em 2018 para assustadores 5,2 milhões em 2019.

Aplicativos

A luta contra o trabalho precário

Uma das modalidades de trabalho precário que mais aumentou foi a dos entregadores e motoristas de passageiros que trabalham em aplicativos. Muita gente encontrou nisso uma alternativa frente à falta de emprego. Muitos chegam a trabalhar 12 ou 14 horas diárias e não possuem nenhuma relação trabalhista, nem têm respaldo das legislações de proteção ao trabalho. Percebendo que são explorados por uma grande empresa e que, no fim das contas, são trabalhadores que não possuem direitos e estão extremamente vulneráveis, esses trabalhadores já mobilizam greve e se organizam por direitos.

Tudo caro

Inflação fora de controle

Vivemos a maior inflação já registrada em duas décadas. Segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), a inflação acumulada no ano bate os 10%. Muitos itens, no entanto, subiram muito acima dessa taxa. Entre eles, combustíveis, alimentos e aluguéis. A sequência de alta nos preços já é um dado cotidiano e atinge itens básicos, como energia, combustível e comida. O preço da gasolina sofreu oito reajustes neste ano. Em alguns estados, o litro da gasolina está sendo vendido a R$ 7,00 e o gás de cozinha, a R$ 115,00.

E vai ficar pior, conforme explica o Banco Central, que prevê uma inflação de 8% para 2021.

A inflação e a redução na renda impactam, inclusive, a dieta dos brasileiros. A combinação arroz, feijão, proteína animal e salada já virou artigo de luxo. As famílias passaram não só a adotar o consumo de proteínas mais baratas (como ovos), mas também a substituir refeições por mingau. Também aumentou o consumo de marmitas e sanduíches preparados pelas próprias pessoas para reduzir os gastos com alimentação fora de casa. Com a alta no preço da carne, os mais pobres migraram para a salsicha, ossos de boi, como ficou patente na fila do osso em Cuiabá (MT), uma das capitais do agronegócio brasileiro. Mas enquanto o povo come osso, o agronegócio fatura alto e aproveita a elevação do dólar para ganhar mais dinheiro e exportar a carne brasileira. Esse é um dos motivos do alta do preço da carne.

A fome voltou

Mais de 19 milhões de brasileiros com a panela vazia

São 19 milhões de brasileiros em situação de fome no Brasil, segundo dados de 2020 da Rede Brasileira de Pesquisa em Soberania e Segurança Alimentar e Nutricional (Penssan). De 2018 para cá, houve um aumento de 9 milhões de pessoas nessa situação.

Entre agosto e dezembro de 2020, 125,6 milhões de brasileiros sofreram com insegurança alimentar durante a pandemia, o equivalente a 59,3% da população do país.

Mas o nível de segurança alimentar já vinha piorando antes do coronavírus. O alastramento da fome no Brasil é reflexo da queda de renda, da inflação, do desemprego e do fim ou esvaziamento de programas voltados a estimular a agricultura familiar e combater a fome. O maior absurdo dessa história é o fato de o país ser um dos maiores produtores de grão e carne de todo o mundo. Enquanto aumenta a fome entre os brasileiros, os grandes fazendeiros lucram como nunca.

Depravação

Brasil: aumento de bilionários e uma longa decadência econômica

O Brasil passa por um uma longa decadência, uma reversão colonial. Durante todos os governos, nossa economia sofreu um processo de desindustrialização e tornou-se um país exportador de produtos primários (mineração e produtos agrícolas), sofreu privatizações e uma profunda desnacionalização que aumentou o domínio das transnacionais. Todo esse processo se acelerou agora com Bolsonaro, que quer transformar o Brasil numa colônia dos países imperialistas. A rapina é gigantesca. Por exemplo, mais de US$ 42 bilhões de lucro da Vale foram remetidos ao exterior sem pagar um centavo de imposto. Com esse dinheiro daria para pagar um auxílio emergencial de R$ 600,00 pra 79 milhões de brasileiros.

No andar de cima existe um outro Brasil, um país formado por um punhado de capitalistas e que não conhece crise. Na pandemia, os ricos ficaram ainda mais ricos, enquanto o povo lutava pra sobreviver. Lucraram com a destruição de nossos direitos e com a ampliação do trabalho precário. No último ano, os 1% mais ricos concentram nas suas mãos 49,6% de toda a riqueza do país, segundo o relatório Riqueza Global, publicado anualmente pelo Credit Suisse.

Segundo a revista Forbes, no Brasil há 65 bilionários. Durante a pandemia, 20 novos empresários foram incluídos na lista. No total, eles acumulam um patrimônio de US$ 220 bilhões.

Entre os novos bilionários estão os herdeiros da rede varejista Magazine Luiza, de Luiza Trajano, considerada a segunda mulher mais rica do Brasil. Também estão na lista alguns donos de planos de saúde e de hospitais. Pelo menos dez empresários que atuam na área da saúde conseguiram expandir em 134% sua fortuna, enquanto milhares de pessoas perdiam suas vidas para o coronavírus. Entre eles está o dono da Rede D’Or, Jorge Moll Filho, fundador da empresa, cuja fortuna saltou de US$ 2 bilhões em abril de 2020 para US$ 13 bilhões; os donos da Hapvida, cuja fortuna saltou de US$ 4 bilhões para US$ 8,8 bilhões; e a família Godoy Bueno, controladora do grupo de diagnósticos clínicos Dasa.

Ainda conforme a Forbes, a média da fortuna dos brasileiros da lista saltou de U$$ 2,28 bilhões para U$$ 3,53 bilhões (54% de aumento). No entanto, levando-se em conta apenas o grupo de bilionários da saúde, esse crescimento explodiu para 184%, saindo de U$$ 1,64 bilhão para U$$ 3,85 bilhões. Enquanto o SUS salvava vidas, essa turma ficava rica com a desgraça do povo.

Programa

Qual é a saída para o Brasil

A realidade mostra que não é possível reformar esse sistema. Precisamos de um programa que ataque a origem das desigualdades e coloque fim à rapina das transnacionais. Um programa dos trabalhadores que aponte para a construção de uma sociedade socialista.

– Pleno emprego, com redução da jornada para 30 horas sem redução dos salários.

– Plano de obras públicas necessárias e ecológicas sob controle dos trabalhadores.

– Enquanto isso, auxílio emergencial de um salário mínimo para todos os desempregados e os que estão na informalidade, vivendo de bicos.

– Reforma agrária sob controle dos trabalhadores. Demarcação já de terras indígenas e quilombolas. Não ao marco temporal.

-Isenção de pagamento de luz e demais tarifas aos desempregados. Congelamento do preços dos alimentos, da luz, do gás e dos combustíveis.

– Suspender o pagamento da dívida pública aos banqueiros.

– Taxar em 50% as grandes fortunas e os dividendos das 200 maiores empresas e bancos do país.

– Revogação das reformas trabalhista e da previdência.

– Impedir todas as privatizações. Reestatizar todas as estatais que foram privatizadas e colocá-las sob controle dos trabalhadores. – Estatizar toda a rede de saúde privada, que deve integrar o SUS, sob controle dos trabalhadores e usuários.

– Estatização do sistema financeiro e centralização num único banco público que garanta crédito ao pequeno negócio e financie o desenvolvimento público, científico e tecnológico.