Várias regiões do país adotaram medidas de distanciamento social relativamente cedo, ainda que bastante insuficientes, com governadores e prefeitos pressionados pelo alto índice de aceitação a essas medidas. Foi o que impediu que a rede pública e privada de saúde entrasse em total colapso como o então ministro da Saúde, Henrique Mandetta, havia previsto que ocorreria no final de abril. O resultado foi que, até o meio de abril, a curva de mortes do Brasil seguiu menor que a observada em países como Itália, EUA e Espanha.

De meados de abril em diante, porém, sem os governos garantirem condições mínimas para os mais pobres ficarem em casa e com Bolsonaro dia após dia mandando as pessoas saírem às ruas, as medidas de distanciamento social foram se perdendo. Como o período de incubação do novo coronavírus se dá entre uma e duas semanas, estamos sofrendo agora os efeitos dessa política genocida.

Colapso do sistema de saúde nos estados

A dramática situação do Amazonas, com o colapso do sistema público de saúde, alastra-se para outros estados, como Maranhão, Ceará, Pernambuco e Rio de Janeiro (leia a entrevista abaixo). Enquanto fechávamos esta edição, a taxa de ocupação de UTI na Grande São Paulo era de 81%.

Uma projeção realizada pela Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) aponta que, ainda em maio, toda a rede de UTI do SUS deve entrar em colapso, mantida a atual taxa de infecção. Embora atenda 75% dos brasileiros, o SUS conta com 1,4 leito de UTI para cada 10 mil habitantes. Já a rede privada, que tem 4,9 leitos para cada 10 mil, deve lotar em junho.

ENTREVISTA
“Tem gente morrendo nas unidades de emergência, sem respirador”

O Opinião Socialista conversou com Gustavo Treistman, militante do PSTU e médico da rede pública do Rio de Janeiro, que nos contou um pouco da realidade da pandemia no estado.

Opinião Socialista – O sistema público de saúde do Rio está em colapso?

Gustavo Treistman – Todos nós que trabalhamos na ponta, no atendimento à população no serviço público, já sabemos que está em colapso. Nós temos hoje uma fila de espera para leitos de UTI de quase 400 pessoas, que estão internadas em unidades de urgência aguardando surgir uma vaga de UTI. Temos cerca de 30 UPAs [Unidade de Pronto Atendimento] e emergências no Rio de portas fechadas porque não têm como receber pacientes porque já estão lotadas. Nós temos pacientes morrendo nas unidades, sem acesso ao respirador.

Existem leitos nos hospitais privados? Não deviam atender toda a população?

Gustavo – Essa informação nós temos muita dificuldade de ter, porque, pelo fato de o sistema não ser integrado, os hospitais particulares não necessariamente passam todas as informações para o Estado. Um dado que a gente tinha, que o Estado divulgou no último dia 30, é que existiriam 420 leitos disponíveis na rede privada. Mas na verdade esse número é maior, porque esse número se refere aos leitos de UTI geral, existem alguns leitos como de UTI coronariana que poderiam ser convertidos em leitos gerais para a pandemia ou leitos de UTI pediátrica.

Qual a situação dos profissionais de Saúde?

Gustavo – Até o dia 2 de maio, 35 profissionais de saúde faleceram aqui de COVID-19. Mas esses números são muito maiores, porque na maioria das vezes os que morreram ou não fizeram o teste ou fizeram o teste e ele não saiu a tempo e não entra nas estatísticas. Isso muito se deve à falta de EPI. Nós temos equipamentos que são inadequados, então, por exemplo, o capote que é o avental que nós usamos, ele é muito mais fino do que deveria ser, é totalmente permeável, só cobre o tronco e muitas vezes não cobre as pernas. Nós temos máscaras inadequadas. E temos um racionamento de material muito grande. Então, você entra num plantão, coloca o avental, o certo seria, quando você sair da sala do plantão, jogar o avental fora, e quando voltar, colocar um novo. Mas não podemos fazer isso. Quando você reutiliza, você está reutilizando um material já contaminado que deveria ter ido para o lixo. Para além disso, há um desrespeito total com os profissionais. Além do atraso nos salários, a prefeitura obriga os profissionais dos grupos de risco, como os acima dos 60 anos e com comorbidades, a trabalharem.

Como está a situação na cidade?

Gustavo – A COVID começou aqui pelos bairros de classe média, que chegaram de viagem e tal, mas hoje temos uma distribuição mais universal. Entre os dez bairros com maior número de casos, encontramos Campo Grande, Bangu, Realengo, bairros populares aqui da Zona Oeste, mais periféricos. Agora, a grande diferença está na letalidade. Sabemos, por exemplo, que nos bairros como Leblon, Botafogo, há uma letalidade de 5%, ou seja, de cada 100 casos confirmados, cinco vão a óbito. Em Realengo, Bangu, Santa Cruz, essa letalidade passa de 20%. Essa letalidade mostra realmente que a pandemia atinge com mais força os mais pobres, que não têm acesso a hospitais de qualidade, leitos de UTI, respiradores.

MEDIDAS
Quarentena total já!

Garantia de estabilidade, emprego e renda para que todos possam ficar em casa

Para evitar uma matança como quer Bolsonaro, não há outra medida no momento que não seja a paralisação imediata de todos os setores não essenciais.

Sem uma quarentena de verdade, vai ocorrer um genocídio. Em Passo Fundo (RS), uma unidade da JBS se tornou um foco de infecção, ameaçando milhares de trabalhadores, num caso escondido de propósito pelas autoridades por semanas. Já no Amazonas, região mais castigada pela pandemia, 50 mil trabalhadores retornavam às atividades enquanto fechávamos esta edição e outros 35 mil se preparavam para voltar nas próximas semanas. São operários mandados para a morte para garantir os lucros das grandes empresas.

É preciso parar tudo já, proibir as demissões e mandar os trabalhadores para casa. Para os desempregados e informais, é preciso garantir renda para que não tenham de sair às ruas.

Bolsonaro, pague os R$ 600 já!

Enquanto fechávamos esta edição, 30 milhões de brasileiros ainda não haviam recebido a ajuda insuficiente de R$ 600. Eram pelo menos 11,2 milhões que, embora já autorizados, não haviam recebido a primeira parcela do auxílio, e outros 18,8 milhões ainda esperavam análise.

Isso sem falar na humilhação e no risco que as pessoas sofrem ao ir à agência da Caixa para tentar receber esse direito. Inúmeras pessoas madrugam nas filas e se submetem a aglomerações.

É preciso garantir o pagamento imediato desse auxílio e aumentar essa ajuda para um valor que, no mínimo, garanta a sobrevivência de desempregados e informais, um valor de 2,5 salários mínimos.

Estatização da rede privada e lista única de leitos de UTI

O novo coronavírus está se espalhando rápido por periferias e bairros pobres. Na capital paulista, por exemplo, enquanto há vagas ociosas na rede privada, os hospitais públicos que atendem as periferias já estão com leitos de UTI abarrotados. É preciso colocar imediatamente todos os leitos hospitalares da rede privada a serviço do SUS, com uma lista centralizada de leitos. É preciso também abrir os hospitais militares para o povo!

Construção de novos leitos de UTI e reconversão de fábricas para produção de respiradores

Diante da realidade atual, é preciso garantir a construção de novos leitos hospitalares, principalmente de UTI, e os equipamentos necessários como respiradores, reconvertendo a produção das fábricas para isso já.

Distribuição massiva de máscaras e álcool em gel para a população

É preciso garantir a distribuição de materiais de proteção, prevenção e higienização à população, com a reconversão de indústria para a fabricação de máscaras e álcool em gel.

Proibição de despejos e confisco dos imóveis vazios para sem-teto

É um crime que em plena pandemia a polícia esteja realizando ações de reintegração de posse contra o setor mais vulnerável à COVID-19. É preciso proibir as ações de despejo, confiscar os imóveis vazios e hotéis para garantir o direito à moradia e à sobrevivência da população sem teto.

É DELES
Que os ricos paguem a conta da crise

Manaus 01 05 2020-Manaus (AM) – Aldenor Basques Félix Gutchicü, vice-cacique da comunidade Wotchimaücü, do povo Tikuna, morreu com suspeita de Covid-19, em sua casa no bairro Cidade de Deus, na zona norte de Manaus. A família aguardou por mais de sete horas para que o corpo do indígena fosse retirado da igreja evangélica, onde ficou acomodado em três mesas de plástico, pelo serviço SOS Funeral, da Prefeitura de Manaus. À meia-noite de ontem os restos mortais do cacique foram levados pelos funcionários para uma câmara frigorífica do cemitério municipal Nossa Senhora Aparecida, no bairro Tarumã, na zona oeste da cidade. No local, Aldenor foi sepultado ontem, às 15h30, em uma vala coletiva, onde são enterradas as pessoas que não podem pagar por um caixão.(Foto:Fernando Crispim/Amazônia Real)

Enquanto os hospitais se abarrotam de doentes e milhões sofrem com o coronavírus ou com a fome, os bancos continuam lucrando bilhões. Só no primeiro trimestre, o Itaú lucrou quase R$ 4 bilhões. É o mesmo banco que faz uma campanha massiva afirmando que doou R$ 1 bilhão para o combate à pandemia. Só de lucro líquido no ano passado, o Itaú lucrou R$ 26 bilhões.

O governo Bolsonaro, por sua vez, ao mesmo tempo em que segura os R$ 600 dos pobres, já deu R$ 1,2 trilhão aos bancos, e agora anunciou mais isenções aos banqueiros. Um verdadeiro escândalo.

Confisco dos lucros dos bancos e estatização do sistema financeiro

É preciso confiscar os lucros bilionários dos banqueiros e financiar a rede pública de Saúde com esse dinheiro; estatizar o sistema financeiro sob controle dos trabalhadores; e proibir a remessa de lucros e de dólares das multinacionais e de especuladores.

Taxação das grandes fortunas

É preciso que os ricos paguem impostos sobre suas fortunas, e não só os pobres e a classe média como é hoje.

Suspensão da falsa dívida

É preciso parar essa sangria e usar as reservas internacionais (mais de US$ 360 bilhões) para investimento social e em obras públicas.

 

OPERÁRIOS E POVO POBRE NO PODER!
Auto-organização dos trabalhadores e dos setores populares

A solidariedade entre os de baixo, como já está acontecendo, é fundamental. É preciso fazer avançar a consciência e a nossa organização para defender a vida e a soberania do país e controlar a produção e a distribuição do que necessitamos, rumo à construção de comitês populares e de um governo socialista dos trabalhadores que governe por conselhos populares.