Continua a escalada da crise política. O ato organizado pela direita bolsonarista em frente ao Palácio do Planalto no domingo, 2 de maio, mais uma vez contou com a participação do presidente, que fez um discurso golpista e disse ter o apoio das Forças Armadas e do povo. Povo, no caso, a minoria de extrema-direita que vai a estes atos, por sinal bem pequenos para sustentar um autogolpe, mas que ressoam seu discurso autoritário.

A escalada de polarização vem desde o pronunciamento negacionista de Bolsonaro chamando a pandemia de “gripezinha”, passando pelas carreatas da morte e pela demissão do ministro da Saúde, até a queda de uma das pernas do tripé que sustentava esse governo: Sérgio Moro e a base da Lava Jato. A queda de Moro foi um novo momento nesse processo, abrindo uma crise aguda no governo.

Empresários mais próximos ameaçaram romper. Especulou-se a saída de Paulo Guedes, e a ala militar apresentou um plano econômico apelidado de “PAC”, na contramão do projeto do “Posto Ipiranga”. Os próprios militares pareciam balançar ao vislumbrar o estrago na base do governo com a saída de Moro. A crise já havia obrigado o governo a lançar mão do velho centrão e do toma-lá-dá-cá, buscando uma base no Congresso Nacional para barrar um eventual processo de impeachment.

Mas a bola nesse momento está com o Judiciário: as investigações sobre as fake news e o financiamento dos atos pró-ditadura. Estas parecem estar chegando nos filhos de Bolsonaro e em mais de uma dezena de parlamentares e empresários bolsonaristas. Avançam ainda as investigações sobre Queiroz e as relações com as milícias. Daí a pressa em controlar a Polícia Federal.

Balança, mas não cai

Nos dias que se seguiram à queda de Sérgio Moro, o governo, mais isolado e enfraquecido, escorava-se em novo equilíbrio instável para contra-atacar. Segurando Paulo Guedes, trouxe os empresários de volta; os militares o sustentaram. A oposição de centro-direita e também a oposição parlamentar descartaram impeachment. Bolsonaro dobrou aposta: nomeou um amigo do seu filho Carlos para chefiar a Polícia Federal, mas o STF suspendeu a nomeação. Ele, então, foi para cima mais uma vez. Compareceu a um novo ato em defesa da ditadura no qual, além do discurso golpista, houve agressões de bolsonaristas contra jornalistas.

A pandemia e a profunda crise econômica e social são o pano de fundo da crise do governo. Bolsonaro era um governo frágil e perigoso desde o início. Frágil porque ele e seu projeto não correspondiam à correlação de forças existente. Perigoso porque tomava uma parte importante do aparato de Estado, a militarizava e a colocava a intervir para mudar a própria correlação de forças e o próprio regime. Ele já vinha com a popularidade em queda, vendo patinar as promessas de crescimento que brotariam do ultraliberalismo de Guedes. Contudo, a pandemia e a crise econômica e social tiraram seu chão.

O projeto Paulo Guedes não é mais aplicável na nova realidade. Desesperado para se manter competitivo em 2022 ou com capacidade para um autogolpe, o capitão cloroquina tenta disputar a narrativa da catástrofe. Não quer deixar o país parar, chama todo mundo a trabalhar e tenta jogar a culpa do desemprego nas costas de quem defende a quarentena.

Essa política genocida vem desgastando ainda mais Bolsonaro e irritando a maioria da população. Mas ele tem conseguido manter um certo patamar de apoio, mesmo que minoritário, compensando a base social que perde ganhando outro setor na base da desinformação, com as igrejas neopentecostais, inclusive com parte dos que estão recebendo os R$ 600 que acreditam ser uma concessão do governo.

ONDE ESTÁ?
Cadê a oposição?

Há outro importante elemento segurando o governo: a inexistência de uma oposição mobilizada. É evidente que a pandemia limita ações. Porém os panelaços espontâneos, a oposição majoritária e a indignação crescente contra a situação e o governo permitiriam, mesmo hoje, uma forte campanha de massas e ações coordenadas que exigissem “Fora já Bolsonaro e Mourão”. Mas não há.

Do ponto de vista dos setores burgueses de oposição, a política é garantir a estabilidade do regime e a aplicação de medidas que joguem o grosso da crise sobre as costas dos trabalhadores. Os militares estão na “unidade nacional” e na canoa do capitão. Parte do Executivo, com os representantes do Congresso, tendo os partidos de conciliação de classes e até as centrais sindicais como apêndice, buscam uma ação unificada. O 1º de Maio das maiores centrais demonstrou isso, com convidados como Maia, Alcolumbre, FHC e Witzel.

Fora Bolsonaro e Mourão

Precisamos entrar em campanha para colocar para fora já Bolsonaro e Mourão! Em defesa das nossas vidas: por quarentena geral, por emprego, renda e hospitais para todos.