Queda de bolsas sinaliza desaquecimento da economia mundial

No último dia 27 de fevereiro, a impressionante queda das bolsas de valores em todo o mundo levou o pânico aos investidores internacionais. Alarmada, a grande mídia anunciava o apocalipse enquanto autoridades financeiras esforçavam-se em provar que tudo não passava de um momentâneo soluço dos mercados. A onda de nervosismo teve origem na bolsa de valores de Xangai, a principal da China, que fechou o dia registrando queda de 9%.

A partir daí a crise se alastrou no volátil mercado globalizado. A Bovespa (Bolsa de Valores de São Paulo) teve queda de 6,6% e a de Nova Iork registrou uma desvalorização de 3,29%. Foi a maior queda desde os atentados de 11 de setembro contra o World Trade Center, em 2001.

A instantânea contaminação dos mercados mundiais tem explicação no fato dos investidores com dinheiro aplicado na China, ao constatarem a onda de baixa, terem tentado, rapidamente, vender suas ações em outros países, minimizando o prejuízo. Com mais acionistas tentando vender do que investidores querendo comprar, as ações se desvalorizaram causando a queda das bolsas de todo o planeta. O diretor de estratégia mundial da Brown Brothers Harriman & Co, de Nova York, classificou o dia como um “banho de sangue nos mercados acionários”.

A fuga de capitais do mercado chinês ocorreu após boatos de que o governo aplicaria um controle mais rígido dos investimentos especulativos e de que aumentaria o valor do depósito compulsório que os bancos devem repassar ao Banco Central do país. A intenção da ditadura chinesa seria promover um “pouso suave” para a economia do país, inflada artificialmente por uma bolha especulativa prestes a explodir. Para se ter uma idéia, as ações no mercado chinês tiveram uma valorização de 170% nos últimos 14 meses. Só em 2006, a economia da China cresceu 10,7%, o dobro da média mundial.

A única alternativa do governo chinês seria impor uma desaceleração antes que o país entrasse em colapso. No entanto, embora todos os holofotes estejam posicionados sobre as decisões de Pequim, a onda de queda foi apenas um reflexo do prenúncio de um verdadeiro terremoto econômico, cujo epicentro estava do outro lado do globo.

Crise no coração do capitalismo
O alarme de uma recessão não veio de Pequim, mas de Washington. Sinais cada vez mais claros de desaquecimento econômico e até mesmo prenunciando o início de uma recessão foram o estopim para a atual crise. No dia anterior à queda de Xangai, Alan Greenspan, ex-diretor do FED (Federal Reserve), o Banco Central norte-americano, comentou, numa teleconferência, a possibilidade da economia dos EUA entrar em recessão já no final de 2007.

“Quando nos distanciamos tanto de uma recessão, invariavelmente algumas forças começam a se acumular para a próxima recessão e, de fato, estamos começando a ver sinais”, afirmou Greenspan. Além da volta da inflação, a recente divulgação da queda de encomendas de bens duráveis, de 7,8%, corrobora tal previsão. As empresas hesitam em investir na compra de equipamentos, antevendo uma queda do consumo. Além disso, a margem de lucro das empresas americanas começa a se estabilizar.

Apesar do tremor ter seu ponto chave nos EUA, o terremoto balançou primeiro o chão da China. Isso ocorre, pois a economia chinesa é praticamente anexada à norte-americana, funcionando como uma plataforma de exportação para os EUA devido à larga mão-de-obra barata e superexplorada sob o regime ditatorial. Isso forçou Pequim a estudar as medidas de desaceleração que provocaram o colapso das bolsas do dia 27.

Risco Brasil
O atual ministro da Fazenda, Guido Mantega, apressou-se a aparecer diante das câmeras atenuando o sobressalto e afirmando que se tratava tão somente de um “ajuste” na economia chinesa. No entanto, a desaceleração da China teria efeitos desastrosos para o Brasil, fruto da política econômica dos últimos governos, de priorizar os grandes exportadores de matérias primas, ligados aos agros-negócios e matérias primas.

A China é uma das maiores compradoras de soja e do aço brasileiro. Uma desaceleração afetaria as exportações e o saldo da balança comercial.

Crise não se fechou
Mantega, no Brasil, e o atual presidente do FED, nos EUA, Ben Bernanke, fizeram de tudo para acalmarem os investidores, argumentando se tratar de um momento passageiro, sem lastro na realidade. No entanto, apenas dois dias após a queda das bolsas, Xangai voltou a cair, desta vez em 2,9%. Já a Bovespa fechou o primeiro dia de março com desvalorização de 0,7%, mostrando que essa onda de queda das bolsas não é um mero soluço, mas uma mostra concreta da provável crise econômica que desponta no horizonte.