Prisões na Camargo Corrêa revelam que o mensalão continua

Quatro anos após o escândalo, grandes empresas continuam a pilhar recursos públicos para irrigar contas dos partidosNo último dia 25, a Polícia Federal prendeu em São Paulo quatro diretores da empreiteira Camargo Corrêa. A chamada Operação Castelo de Areia apura uma série de crimes ligados à empreiteira, uma das maiores do país, desde evasão de divisas a lavagem de dinheiro, superfaturamento de obras públicas e repasses ilegais de recursos a partidos e políticos.

Segundo a investigação, uma obra na refinaria Abreu de Lima, da Petrobras, localizada na região metropolitana de Recife (PE), teria sido superfaturada em R$ 72 milhões. Os relatórios da Polícia Federal listam ainda os partidos que teriam recebido repasses ilegais da empreiteira. Figuram siglas da oposição e da base governista. São eles o PPS, PSB, PDT, DEM. PP, PSDB e o PMDB.

Escutas da polícia revelam que a intermediação entre empresa e partidos era feita por ninguém menos que a Fiesp. Negociações realizadas pelo vice-presidente da entidade, Fernando Botelho, foram interceptadas por grampos da Polícia Federal. Nelas, o empresário cita o próprio presidente da Federação, Paulo Skaf, como articulador dos repasses em Brasília.

O advogado de Skaf justificou os repasses afirmando que se trata de contribuições legais a campanhas políticas alinhadas à empreiteira. “São doações realizadas por empresas filiadas à Fiesp e que contribuem para campanhas de políticos afinados com o ideário da cadeia produtiva. Assim como existe a bancada da saúde, por exemplo, há a bancada da cadeia produtiva”, chegou a dizer.

Empreiteiras superfaturando obras públicas, remetendo dólares para fora ilegalmente e incorrendo em uma vasta lista de ações prescritas no código penal não chega a ser exatamente uma novidade. O que a mais nova operação da Polícia Federal revela, porém, são detalhes das relações entre empreiteiras e partidos políticos, tema que explodiu no escândalo do mensalão, mas que depois foi praticamente esquecido. As prisões mostram que o duto que faz a triangulação obras públicas, empreiteiras e políticos continua a irrigar dinheiro como nunca.

Financiamento eleitoral
Representantes da oposição envolvidos na divulgação das investigações acusaram o governo de utilizar politicamente a Polícia Federal. O governo Lula, porém, parece tão apreensivo com a operação quanto a oposição. A empreiteira é uma das maiores doadoras eleitorais no país, inclusive do PT.

Só nas eleições municipais de 2008, a construtora doou R$ 4,5 milhões para as campanhas do DEM, PSDB e do próprio PT. Desde 2002, foram ao menos R$ 30 milhões destinados às campanhas eleitorais de políticos e siglas das mais diversas matizes, “alinhada ao setor produtivo”, como diria o advogado de Skaf, ou seja, alinhada aos interesses das grandes empreiteiras.

Não tendo vocação para entidade filantrópica, a Camargo Corrêa não joga dinheiro fora. Cada doação eleitoral é um investimento, um gasto realizado esperando uma compensação futura. E tal compensação parece ter valido a pena para a empreiteira. Segundo o portal Contas Abertas, a construtora abocanhou nada menos que R$ 129 milhões do Plano de Aceleração do Crescimento do governo Lula.

A operação da Polícia Federal mostra apenas que, além das doações “contabilizadas”, a empreiteira irriga os partidos com recursos de caixa 2, com dinheiro proveniente de superfaturamento e corrupção. Como ficou evidente no caso do mensalão, a corrupção aparece como modus operandi intrínseco às instituições. É prática arraigada na relação entre grandes empresas, governo e partidos, seja PT, sejam os demais partidos governistas ou da oposição, todas integrantes da bancada das empreiteiras.

Pelo fim do financiamento eleitoral das grandes empresas
A lista de financiadores mostra com clareza os interesses que rondam determinada candidatura. Revelam sobretudo a falsa democracia que se esconde sob o véu democrático das eleições. As grandes empresas, bancos e empreiteiras escolhem seus representantes e, através de financiamentos milionários, determinam os vencedores.

O PSTU nas eleições, assim com no dia-a-dia, é sustentado apenas através de contribuições de militantes e simpatizantes. O partido não aceita qualquer tipo de contribuição de empresas. Ao contrário do PSOL em Porto Alegre (RS), cuja candidatura de Luciana Genro à prefeitura em 2008 recebeu R$ 100 mil da siderúrgica Gerdau, o PSTU não difere financiamento de empresa estrangeira ou nacional. Ambas representam os interesses do grande capital contra os trabalhadores.