Patrimônio cultural, Teatro Oficina é ameaçado novamente pela especulação imobiliária

O CONDEPHAAT (Conselho de Defesa do Patrimônio Histórico, Artístico, Arqueológico e Turístico do Estado de São Paulo) liberou, na última segunda-feira, 23, a construção de três torres de apartamentos para o Grupo Silvio Santo no bairro do Bixiga, bem atrás do Teatro Oficina, patrimônio histórico e cultural tombado pelo Estado. Não estamos falando de pouca coisa. Estamos falando, sem exageros, do assassinato da arte, da cultura, da história, da natureza, da arqueologia, da arquitetura e do cotidiano de toda uma comunidade. A votação não reflete a ignorância dos conselheiros. Isso também, é evidente, e no sentido amplo da palavra. Tudo isso é em nome da especulação imobiliária e do lucro. Nada além do dinheiro e do capital interessa.

Ainda que só o teatro fosse afetado, já seria muita coisa e o suficiente para uma enorme mobilização e indignação. O Oficina é considerado o 10º melhor teatro do mundo. São quase 60 anos (59 para ser mais exata) de existência. Por ele, passaram alguns dos principais nomes da dramaturgia do Brasil e do planeta. No Oficina, foi lançada a versão dos anos 1960 do manifesto do Tropicalismo, o movimento antropofágico de Oswald de Andrade, que até hoje influencia artistas no mundo inteiro. “O Rei da Vela” (em cartaz), “Ham-Let”, “O Banquete”, “Os Sertões”, “Macumba Antropófaga”… é só uma amostra do que já foi feito.

A unidade do Bixiga foi tombada em 1982 pelo mesmo CONDEPHAAT e recebeu o projeto da arquiteta Lina Bo Bardi, com o qual venceu a Bienal de Praga em 1999. Seu projeto privilegia, além da manutenção dos elementos históricos – como a fachada, os tijolinhos à vista e os arcos romanos – uma vista privilegiada para o bairro do Bixiga e para o terreno onde está o próprio teatro, destinado a ser um parque cultural e de lazer. Ali, há um pomar. É um dos poucos espaços vazios e verdes da cidade. Respira-se vida e arte. Queremos o vazio, queremos respirar.

E não é só o Teatro Oficina que será sufocado. É a Casa de Dona Yaya, é o TBC, são as casas dos moradores, são os pequenos comércios de moradores que sobrevivem apesar de tudo – coisa que não se vê mais por aí, sapateiros, brechós (não esses chiques), consertos diversos, barbeiros, mercadinhos… –, são os projetos que o próprio pessoal do Oficina realiza com moradores de rua e a comunidade pobre, é o teatro, é o samba.

Em meio a mais uma batalha (sim, não é a primeira) contra o Grupo $$, resiste o Teatro Oficina. Resiste o bairro do Bixiga, que abriga dois terços de todo o patrimônio tombado da cidade de São Paulo. Em meio à loucura do centro da maior cidade da América do Sul, sobrevive o que já foi quilombo, depois morada de operários italianos e hoje um dos centros culturais e turísticos mais importantes do país.

As torres do Grupo $$ vão encobrir e sufocar tudo isso. A pretensão é construir três torres de 30 andares cada (mais ou menos 100 metros), que abrigariam 1.000 apartamentos. Abrigariam. Porque, no que depender de milhares de artistas, arquitetos, público e comunidade em geral, não vai passar!

Décadas atrás, Geraldo Filme cantou: “Bexiga hoje é só arranha-céu / e não se vê mais luz da Lua.” Não queremos mais arranha-céus. Não ficaremos sem a luz do sol.

No link abaixo, está o manifesto

MOVIMENTO #VETAasTORRES