Parada Gay: mais de 2 milhões na Paulista e quase nada de política

Bandeiras do PSTU, com as cores do movimento GLBT
Cromafoto

Como havíamos previsto no artigo “Orgulho do que e para quê?”, a Parada de Gays Lésbicas, Bissexuais e Transgêneros (GLBT) de São Paulo foi marcada por uma gigantesca contradição. Tendo como tema “Homofobia é crime”, o evento, apontado pelo segundo ano consecutivo como o maior do mundo, reuniu – segundo dados da PM – cerca de 2,4 milhões de pessoas. Número – que mesmo tendo sido questionado por participantes, que falavam tanto em menos gente quanto em muito mais gente – está longe de poder ser desprezado.

Polêmicas numéricas a parte, o que realmente se destacou na Parada não foi nem o já conhecido mar multicolorido de pessoas que tomou a Avenida Paulista nem a empolgante alegria e bom humor de seus participantes. O destaque, infelizmente, ficou por conta de uma gigantesca ausência: a quase completa falta de referências às ações práticas e políticas necessárias para que, de fato, possamos transformar a homofobia e todo e qualquer tipo de discriminação em crime.

Apesar das milhares de bandeirinhas pintadas nas cores do arco-íris e distribuídas entre os participantes com a frase “Homofobia é crime”, os pouquíssimos discursos quase não foram escutados, abafados pela música de quase 20 trios elétricos que inundaram a avenida. E o tom foi de uma despolitização assustadora ou uma constrangedora hipocrisia, principalmente, por parte dos representantes das elites governantes, de todas as matizes e esferas.

“Brasil sem homofobia” só no papel ou em dias de festa
Representando o governo federal, Sérgio Mamberti abriu a parada afirmando que “por meio da luta podemos construir um Brasil mais justo”. Um discurso que não pareceu convincente nem quando interpretado pelo ótimo ator que Mamberti já demonstrou ser. Afinal, ele estava ali como representante de um governo que no que se refere aos direitos de GLBT – como em todo o resto – também prometeu “radicais e contundentes” mudanças e nada mais ofereceu além de documentos com títulos pomposos, mas completamente vazios tanto no que se refere às ações práticas quanto às dotações orçamentárias.

Numa demonstração de que a hipocrisia do governo e, particularmente, de Lula – cujas afirmações homofóbicas já fazem parte da História – não tem limites, o presidente ainda mandou enviou uma mensagem à Parada, se auto-vangloriando pelos “esforços que vem desenvolvendo desde o início do mandado” com vistas a promover a dignidade e a defesa dos direitos dos GLBT´s em campos tão variados como a educação, a saúde, os meios de comunicação e demais esferas sociais.

O prefeito Gilberto Kassab (PFL) voltou a afirmar neste sábado que esse será o último ano dos grandes eventos na avenida, com exceção do Réveillon e da Corrida de São Silvestre. Mas, se depender do presidente da Associação da Parada do Orgulho GLBT, Nelson Matias Pereira, o assunto ainda deve gerar polêmica. “Sairemos em defesa da Paulista. Vamos mostrar para Prefeitura e Promotoria que é o melhor local pela logística e segurança”, justificou.

“Parada ou balada?”
O clima de despolitização do evento repercutiu na imprensa em manchetes como a do Estado de S. Paulo, no dia 18 de junho – “Parada se assume como balada” – mas foi diretamente estimulado pelos próprios organizadores da Parada, que já em sua abertura centraram suas falas na disputa para que a Parada continue acontecendo na Avenida Paulista – uma causa mais do que justa, principalmente diante da resolução da prefeitura contrária a que isto ocorra – e no clima “festivo” e no “beijaço” como grande formas de protestos.

Apesar de não termos nada contra a festa e os beijos públicos, como forma de dar visibilidade à livre orientação sexual de todo e qualquer um, é impossível concordar que um evento que reúna mais de 2 milhões de pessoas se resuma a isto, principalmente na capital de um estado que carrega o lamentável recorde, segundo dados levantados pelo Grupo Gay da Bahia, de ter o maior número de assassinatos de homossexuais por ano, com a média de 21 mortos e marcados pela impunidade.

Como era de se esperar, o tom dado pelos organizadores foi o mesmo seguido pelos demais trios-elétricos, inclusive por aqueles levados pela UNE e pela CUT que, de forma nada surpreeendente, de forma alguma destoaram do clima de despolitização.

PSTU e Conlutas marcaram presença
Apesar de nossas públicas e notórias diferenças com a Parada, a Secretaria GLBT do PSTU de São Paulo – acompanhado por companheiros e companheiras da Conlutas – mais uma vez se fez presente com suas bandeiras decoradas com as cores do arco-íris e com o propósito de discutir com os participantes que a luta contra a discriminação de gays, lésbicas, bissexuais e transgêneros – assim como pelas mudanças sociais que possam levar ao fim da homofobia – não pode se resumir a Paradas simplesmente e muito menos a eventos que proposital e sistematicamente se recusam a apontar para à ação e à luta direta contra os opressores e a exploração capitalista.