Desde a retirada do imperialismo estadunidense do Afeganistão ante sua derrota após duas décadas de ocupação, quem acompanha as notícias, no geral, tem a impressão que seria melhor os Estados Unidos não terem deixado o país, já que “salvaram” as mulheres das mãos de bárbaros opressores. O que não só nunca aconteceu, como o imperialismo é diretamente responsável pela dramática situação das mulheres no país asiático, que constituem metade da população de quase 39 milhões. Na disputa geopolítica por um país que é ponte para a circulação de produtos entre Ásia Central e Oriente Médio e fundamental à estabilidade do imperialismo ao controle de localização estratégica, o vale-tudo é a regra.

No geral, a mídia de massas, nas mãos dos grandes capitalistas, limita-se à mesma retórica de “civilização contra a barbárie” usada por todos os ocupantes que por lá passaram desde fins do século XIX – da Grã-Bretanha e ex-União Soviética aos EUA e aliados.

Piada de mau gosto

Nessa linha, o imperialismo estadunidense declarara ao mundo que em sua “guerra contra o terror” sua missão era levar democracia, proteger os direitos humanos e salvar as mulheres e meninas. Assim, fez parecer que a vida destas melhorou depois que ocupou o país.

Como resume a Associação Revolucionária de Mulheres Afegãs (Rawa, na sigla em inglês), uma piada. “Nos últimos 20 anos, uma de nossas reivindicações foi o fim da ocupação dos EUA/OTAN e ainda melhor se eles levassem seus fundamentalistas islâmicos e tecnocratas com eles e deixassem nosso povo decidir seu próprio destino. Essa ocupação resultou apenas em derramamento de sangue, destruição e caos. Eles transformaram nosso país no lugar mais corrupto, inseguro, da máfia das drogas e perigoso, especialmente para as mulheres”, vaticina a Rawa em entrevista disponível em seu site, conduzida em 20 de agosto último por Sonali Kolhatkar, codiretora da Missão das Mulheres Afegãs (AWM).

Os ditos avanços para as mulheres não passaram de fachada para que EUA e companhia encobrissem seus interesses imperialistas – ao que crimes contra a humanidade abundam, como o bombardeio de aldeias inteiras, deixando milhares de mortos. Para as mulheres, o quadro é trágico. Ao mesmo tempo, o imperialismo estadunidense vinha relocalizando o Taliban nas corruptas estruturas de poder desde pelo menos 2010.

O grupo é fruto do financiamento pelos EUA, Arábia Saudita e Paquistão tanto de escolas religiosas fundamentalistas neste último país – em que se “educaram” os talebans [estudantes]  – quanto dos denominados “senhores da guerra” para que lutassem contra a União Soviética (URSS), a qual invadiu o país em 1979 para tentar barrar efeito dominó após a revolução no país vizinho, Irã, no mesmo ano.

Propaganda stalinista

Em dez anos de ocupação, a URSS impôs governo despótico que resultou em 1,5 milhão de mortos e 5 milhões de refugiados. Mais uma vez as mulheres estiveram entre as principais vítimas. Uma delas foi Meena Keshwar Kamal, fundadora em 1977 da Rawa, assassinada no Paquistão em 1987, com a cumplicidade do braço local do serviço secreto soviético (KGB).

No período que antecede a invasão da URSS, sob forte influência soviética, houve tentativas de “modernização”, ignorando o modo de vida e cultura locais. Algumas imagens dos anos 1970 mostram mulheres usando minissaias, na propaganda stalinista, que produz mais uma falsificação histórica. Carrega no tom de uma vestimenta semelhante ao que usam “ocidentais” para afirmar que houve avanços às mulheres. Recupera, assim, a chamada obsessão pelo véu, como se representasse por si opressão – o que feministas anticoloniais, para as quais a luta contra a colonização é inseparável da emancipação da mulher, rechaçam categoricamente. O problema é a imposição.

O fundamentalismo

Após a saída da URSS em 1989, que deixa o país devastado, o Afeganistão vive um período brutal de guerras civis. Ao fim, o Talibã assume o poder no ano de 1996 e governa o país até a ocupação de 2001. Nesse período, comete uma série de atrocidades. Submete as mulheres a violenta opressão, excluindo-as do espaço público e obrigando-as a usarem a burca, que o Taliban não criou – entre sua etnia pashtun, majoritária no país, já era utilizada, mas por uma minoria de apenas 2% das mulheres. A maioria preferia outro traje típico, mais parecido com o que as indianas usam.

Agora, o fundamentalista Taliban, cuja interpretação da lei islâmica é equivocada, tem afirmado publicamente que aprendeu com seus erros. A Rawa não tem dúvidas de que não mudou e está entre as organizações que lutam pela sua derrubada e por um Afeganistão laico.

A luta das mulheres afegãs

“Abaixo o Taliban!”. Foi, portanto, o que grafitaram mulheres nos muros das cidades no Afeganistão logo após o grupo tomar o poder. E saíram às ruas também em protesto.

O movimento feminista no país tem uma tradição de luta e garante que não vai silenciar. A Rawa diz que desta vez o conjunto das mulheres avançou em sua consciência em meio à barbárie imperialista e fundamentalista. E se prepara para mobilizar o povo afegão, que em sua maioria não se vê representado pelo Taliban, nessa nova etapa de luta, agora sem os ocupantes.

Qualquer organização disposta a se mobilizar em solidariedade tem que ouvir primeiro o que estão dizendo, levantando a denúncia contra a estrutura social de classes e o imperialismo. Discurso contrário serve às ocupações, à colonização, que deixam um rastro de devastação, miséria, dor e sofrimento.