Em 21 de agosto de 1940, Leon Trotsky, dirigente da Revolução Russa de 1917, morria pelo golpe de Ramón Mercader, um agente da GPU, a polícia política da União Soviética, sob ordens do ditador Joseph Stalin. Terminava, assim, a mais encarniçada perseguição da burocracia do estado soviético ao principal líder opositor revolucionário.

O papel de Trotsky na história está ligado à Revolução Russa de forma intrínseca. Durante a revolução de 1905, aos 25 anos de idade, foi o presidente do primeiro soviet (conselho) de deputados operários de Petrogrado. Em 1917, uniu-se ao Partido Bolchevique, reconhecendo a liderança incontestável de Lenin, o maior dirigente da Revolução de Outubro, a primeira revolução socialista e operária vitoriosa da História. Trotsky foi eleito de novo presidente do soviete de Petrogrado e dirigiu o Comitê Militar Revolucionário que organizou a tomada do poder pelos bolcheviques.

Fundador do Exército Vermelho

Durante a guerra civil (1918-1921) travada pelos exércitos brancos e pelas tropas invasoras de quatorze países imperialistas contra o Estado operário revolucionário, Trotsky foi o encarregado de organizar o exército do proletariado. Fundou e dirigiu, então, o Exército Vermelho, que chegou a ter mais de cinco milhões de soldados. A URSS saiu vitoriosa da guerra civil, garantindo a existência do primeiro Estado operário do mundo.

Durante a guerra civil, participou de forma ativa da fundação da III Internacional. Ele foi, ao lado de Lenin, um dos seus principais dirigentes e autor de várias resoluções aprovadas em seus primeiros quatro congressos.

 

CONTRA O STALINISMO

A luta contra a burocratização da URSS

Depois da vitória na guerra civil, o estado soviético viveu um terrível isolamento internacional. A onda revolucionária que varreu a Europa depois fim da Primeira Guerra Mundial retrocedeu. A revolução foi derrotada em vários países, como Hungria, Bulgária e, principalmente, Alemanha.

Contudo, a URSS que saiu da guerra civil era um país com a infraestrutura destruída, fome generalizada e um milhão de operários mortos em defesa da revolução. Nessa situação, o governo soviético teve de utilizar muitos dos funcionários e técnicos do antigo regime reacionário. Fez concessões aos camponeses, permitindo que comercializassem parte de sua colheita no mercado, estimulando-os a produzir.

A combinação destes fatores, produziu uma nova camada social privilegiada de burocratas e pequenos proprietários. Stalin, um dirigente sem expressão, tornou-se a cabeça dessa nova burocracia.

Com a doença e posterior morte de Lenin, em janeiro de 1924, a burocracia assumiu totalmente o poder. Trotsky organizou, então, a Oposição de Esquerda, que lutou contra a burocratização da URSS, do Partido Comunista e da III Internacional.

O isolamento da URSS, porém, acabou derrotando a Oposição de Esquerda. Em 1927, Trotsky e milhares de oposicionistas foram expulsos do Partido Comunista, presos e exilados na Sibéria. Em 1929, Trotsky foi finalmente expulso da URSS e enviado para um exílio forçado na Turquia.

 

CONTRARREVOLUÇÃO

Stalinismo extermina a velha guarda bolchevique

A burocratização da URSS levou à subordinação da III Internacional, dos Partidos Comunistas e da revolução internacional aos interesses da casta dirigente do Estado soviético. Esta criou a teoria justificativa do “socialismo num só país” segundo a qual a URSS já seria uma economia socialista nacional. Assim, os partidos comunistas seguindo a orientação de Stalin frearam a revolução chinesa (1927) e a revolução espanhola (1936-1939) para promover alianças com setores da burguesia.

Trotsky insistiu sempre no caráter internacional de todos os fenômenos da nossa época. Por isso, o elemento central da sua teoria da revolução permanente é o caráter internacional da revolução socialista. O capitalismo em sua etapa imperialista, com sua decadência, arrasta a humanidade à guerras, crises permanentes e finalmente à barbárie. A revolução socialista é uma necessidade e está madura em todas as partes do planeta.

No entanto, para justificar a violação de todos os princípios do marxismo, do socialismo internacional e da tradição operária, o stalinismo precisava destruir toda a velha guarda do Partido Bolchevique e da III Internacional. Esse objetivo foi alcançado com o chamado “grande expurgo” que começou em 1934 e significou a execução ou morte nos campos de concentração de centenas de milhares de comunistas opositores.

Stalin promoveu a farsa dos processos de Moscou (1936-1938), nos quais dezenas de dirigentes da Revolução de Outubro, como Zinoviev, Kamenev, Preobrazhensky e Bukharin, foram acusados de traição e sabotagem, julgados e fuzilados. Trotsky, mesmo no exílio, foi o principal acusado, inclusive de ser um agente do nazismo.

A obsessão assassina de Stalin tinha uma profunda razão de ser. Trotsky era o último dirigente vivo da Revolução de Outubro e o único que continuava enfrentando a burocracia de forma consequente. O ditador temia que o fim da Segunda Guerra Mundial desencadeasse um novo processo revolucionário mundial e que Trotsky pudesse representar para o proletariado a tradição desta revolução.

Consciente de que Stalin planejava sua morte, Trotsky dedicou os últimos dez anos de sua vida a construir uma nova organização revolucionária internacional. Felizmente, conseguiu realizar a tarefa que ele mesmo considerava sua grande obra: em 1938, foi fundada a IV Internacional. O elo de continuidade do marxismo revolucionário não foi rompido.

 

SAIBA MAIS

Afinal, quem foi Leon Trotsky? Para responder a essa pergunta, separando o que é verdade e mentira sobre a sua vida, criamos uma série em nosso canal: “Trotsky, vida obra e luta”, apresentado pelo jornalista Bernardo Cerdeira. Aqui você poderá saber sobre a história do revolucionário russo, suas ideias, sua militância política e sua luta pela revolução socialista. Confira!