Opressão: cada vez mais, uma questão de classe

Para muita gente, 2009 começou com sinais evidentes de que a luta contra a opressão deu importantes e decisivos passos. Obviamente, o maior “símbolo” dessa suposta mudança foi a chegada do primeiro negro à presidência dos Estados Unidos.

Um “símbolo” que, de fato, não pode ser menosprezado. Afinal, ninguém em sã cons-ciência pode desconsiderar o impacto mundial provocado pela chegada de Barack Obama ao poder em um país que é a maior potência mundial. Além disso, tem seu passado marcado tanto pela segregação racial quanto por uma fantástica história de lutas contra o racismo e demais formas de opressão.

É essa história (juntamente com a inegável satisfação causada pela derrota de George W. Bush) que alimenta as ilusões e expectativas dos milhões que, mundo afora, acompanharam a posse de Obama aos berros de “Sim, nós podemos!”. Para muita gente a eleição do novo presidente norte-americano é vista como uma vitória de todos aqueles que, até hoje, não puderam realizar seus sonhos.

Não por acaso, a maioria dos que depositam esperanças em Obama são jovens, mulheres, negros, homossexuais, migrantes, trabalhadores e membros da classe média. Gente que facilmente se identifica com a figura jovem, simpática, negra e “liberal” de Obama.

Nós, do PSTU, há muito declaramos que não estamos nesta barca. Obama, como tantos outros que pipocaram na América Latina nos últimos anos, é apenas um “novo rosto” para as velhas políticas imperialistas.

Mesmo que varra parte do ultra-conservadorismo que marcou a era Bush, Obama jamais irá tocar na raiz do sistema que promove e se beneficia do racismo, do machismo e da homofobia.

Símbolos do quê? Para quem?
Mesmo entre os mais críticos, há quem diga que a simples “simbologia” que envolve a chegada de um negro ao poder nos EUA é uma vitória inquestionável contra o racismo e toda forma de preconceito. Não é nossa opinião. Até mesmo porque não acreditamos que “símbolos façam a história”, e sim o contrário.

Aqui na América Latina, figuras como Obama já são velhas conhecidas. Como “primos pobres” do presidente dos EUA, Lula, Chávez (Venezuela), Evo Morales (Bolívia), Tabaré Vázquez (Uruguai) e Fernando Lugo (Paraguai) também chegaram ao poder prometendo mudanças.

Como o presidente norte-americano, eles apóiam-se em sua origem (indígena, popular ou operária) para ganhar a simpatia e alimentar as ilusões da população. Contudo, todos sabemos que a história tem sido bem diferente dos “simbolismos” construídos ao redor desses senhores.

Do ponto de vista da luta contra a opressão, apesar de muito “blá-blá-blá” e de algumas migalhas, o racismo, a homofobia e o machismo continuam vitimando milhões.
Apesar disso, há muito tempo as principais organizações dos movimentos negro, feminista e LGBT (lésbicas, gays, bissexuais e transgêneros) se apresentam como “parceiras” desses governos. Ao invés de organizar suas bases para a luta, passaram a adotar uma postura de “assessores” deles.

Exemplo lamentável dessa postura é o caráter festivo e completamente despolitizado dos principais eventos dos movimentos contra a opressão. O que temos visto, salvo raras e honrosas exceções, é uma extensão do clima “carnavalesco” que há tempos caracteriza a Parada do Orgulho Gay (28 de junho), contaminando tanto o 8 de março quanto o 20 de novembro.

Enquanto isso, negros e negras continuam sendo a maioria em todos os índices sociais negativos. Mulheres são assassinadas cotidianamente em episódios machistas ou morrem em função de abortos clandestinos. A violência homofóbica não pára de fazer vítimas.

A chegada de Obama ao poder, pelo menos neste momento, certamente irá aumentar essa tendência. A experiência da população negra com Obama virá com as dolorosas conseqüências da crise econômica. A situação da população negra vai piorar. A crise econômica sempre afeta em primeiro lugar os setores mais oprimidos, como as mulheres e o povo negro. Na Europa, os governos já intensificaram a perseguição aos imigrantes. O certo é que só há uma saída: a organização independente, classista e revolucionária daqueles que realmente querem derrotar a opressão.

Unidade de classe contra a opressão
Essa certeza continuará sendo a marca registrada de nossa atuação na luta contra a opressão, através de nossas secretarias ou nos grupos de trabalho da Conlutas (que nesta edição do Fórum Social Mundial estarão realizando plenárias e reuniões).

É para essa luta que queremos convidar todos os que entendem que o combate ao machismo, ao racismo e à homofobia deve voltar-se obrigatoriamente contra o sistema que deles se beneficia. Queremos organizar negros e negras, gays, lésbicas, jovens e mulheres no interior de seus sindicatos e entidades para que juntos, em aliança estreita com os demais setores da classe trabalhadora, possamos de fato construir uma luta conseqüente contra a opressão.

Uma luta e uma história que de forma alguma terão em Obama um de seus “símbolos”. Nossos exemplos são outros.

A mudança que queremos é aquela apontada pela rebelião de Stonewall que, há exatos 40 anos, levou para as ruas a luta LGBT, de forma radical e combativa. Nosso símbolo continua sendo o punho cerrado dos Panteras Negras e de Malcolm X, que compreenderam que “não há capitalismo sem racismo”. E, assim como Lênin, continuamos acreditando que a completa emancipação da mulher virá com o fim do capital e é fundamental para construir uma sociedade realmente livre.

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