“Estamos prontos para liderar mais uma vez”

Essa foi uma das principais frases do discurso de Barack Obama durante sua posse. E indica que a suposta vocação da América, o controle imperial sobre o planeta, está presente também no ideário do novo presidente

Barack Obama é o novo ocupante da Casa Branca. A expectativa de mudanças com o primeiro presidente negro da história dos Estados Unidos se refletiu na presença de quase dois milhões de pessoas nas ruas da capital norte-americana. Muitos são imigrantes, negros, pobres, jovens, idosos, sem-saúde e gente da classe média empobrecida, que votaram em massa nos democratas. Mundo afora, outros milhões de pessoas igualmente acompanhavam pela TV a cerimônia de posse. Especialmente o povo iraquiano, que anseia pelo fim das criminosas investidas militares do imperialismo.

As vaias a Bush evidenciaram o fracasso da sua doutrina reacionária de Guerra ao Terror e do atoleiro em que se transformou as guerras do Iraque e Afeganistão. Seu governo levará para a história a marca do sangue de genocídios e torturas e será lembrado pela maior crise da economia capitalista desde 1929. Os fracassos de Bush no Iraque levaram a uma ampla derrota eleitoral, expressando o repúdio generalizado nos EUA e no mundo.

No imaginário da população, Obama é o oposto de Bush. Sua figura é de um homem negro e jovem com um discurso conciliador, supostamente sensível às necessidades de um povo abandonado por seus governantes. É natural que milhões de oprimidos, em particular os negros, acreditem em Obama. Mas é necessário analisar a sociedade a partir dos interesses das classes sociais e seus conflitos e não de personalidades.

É a burguesia norte-americana, a mais poderosa do mundo, que segue no poder nos EUA. Obama é hoje o maior representante das multinacionais que financiam os democratas, e não dos trabalhadores negros. É essa diferença de classe que vai prevalecer e não a da cor.

Além disso, as ilusões sobre Obama certamente serão de muita utilidade, pois servirão para atuar prevenindo um dos potenciais efeitos da recessão econômica: a temida explosão do barril de pólvora que está se armando nos EUA.

Salvar o capitalismo
“Não podemos adiar decisões desagradáveis… O momento é de sacudir a poeira e reconstruir a América”, disse Obama no discurso de posse, prometendo salvar o capitalismo.

O novo presidente assume em meio a uma das maiores crises da história do sistema. Nos EUA, o desemprego é o maior dos últimos 15 anos e já chega a 7,4%. A economia está em recessão. A dívida pública já atingiu de US$ 20 trilhões, o déficit público US$ 1,2 trilhão equivale a 10% do PIB e o déficit comercial bate os US$ 500 bilhões.

Até agora o governo dos EUA injetou US$ 7,4 trilhões na economia. No total, 257 bancos foram socorridos, alguns nacionalizados na prática, sendo que os sete maiores receberam 60% dos US$ 350 bilhões. Recentemente o governo teve que injetar mais US$ 117 bilhões no Bank of America, o maior do país.

Obama defendeu a ajuda aos banqueiros e empresários. E segue os mesmos passos de Bush, preparando um novo pacote para injetar mais de US$ 800 bilhões na economia – grande parte da quantia irá para os bancos. Enquanto isso as empresas continuam demitindo, como a Microsoft, que mandou cinco mil funcionários para a rua.
Obama pode até colocar em marcha um plano de obras públicas, criando trabalhos precários que atuariam como um colchão para amortecer a crise social. Mais isso não significará uma nova era de regulação da economia, como opção ao modelo neoliberal.

A equipe econômica nomeada por Obama é composta por velhos e conhecidos burocratas neoliberais. Para secretário do Tesouro. Obama indicou Timothy Geithner, presidente do Federal Reserve de Nova York e um dos principais criadores do plano de resgate dos bancos. Outra personalidade é Lawrence Summers, novo diretor do Conselho Econômico Nacional da Casa Branca. Summers foi economista-chefe do Banco Mundial – a mesma instituição que recomendava privatizações, terceirizações e enxugamento da máquina do Estado – e do FMI.

Alguém acredita que esses senhores encabeçarão uma alternativa ao neoliberalismo? Ou é seu objetivo será de baratear os braços dos trabalhadores norte-americanos, com redução de direitos, para que a indústria do país – principalmente as montadoras – torne-se mais competitiva?

A consciência da população segue na direção oposta à da realidade econômica. Obama passou a campanha vendendo ilusões, mas não poderá entregá-las. Com a recessão, a esperança será fraudada. Seu desafio será o de conter uma explosão social nos EUA. É essa a expectativa que a burguesia do país e sua imprensa têm sobre o presidente da “mudança”.

Guerra até quando?
Uma das primeiras medidas de Barack Obama foi o início do fechamento da prisão de Guantánamo, em Cuba, e várias outras prisões da CIA espalhadas por todo o mundo. A decisão pretende acabar com os vergonhosos símbolos das torturas da administração de Bush e melhorar a imagem dos EUA no mundo. Mas engana-se quem acredita que o país vai deixar de atuar de forma imperial e respeitar países e direitos humanos.
Apesar de ser eleito com a promessa de que iria terminar com a guerra do Iraque, a nova administração pretende envolver a retirada das tropas num confuso emaranhado de prazos. Um deles é previsto pelo acordo entre EUA e Iraque, cujo plano é retirar as forças de combate das cidades iraquianas até 30 de junho de 2009. Mas a retirada total somente está prevista para dezembro de 2011. Ou seja, quase no final do mandato do novo presidente.

Até lá os planejadores militares já admitem que muitos soldados permanecerão no país exercendo funções rebatizadas como treinadores ou assessores. Isto é, continuarão participando dos combates, mas serão chamados por outra coisa. Afinal, como explicou um oficial norte-americano ao The New York Times, os “treinadores podem ser alvos de disparos. Às vezes têm que atirar de volta”.

Além disso, o presidente pretende enviar mais soldados ao Afeganistão – guerra que ele considera justa.

Sendo claro sobre Gaza
Nada foi pior do que o silêncio vergonhoso de Obama sobre o genocídio dos palestinos promovido por Israel. No entanto, o presidente falou sobre o assunto no seu segundo dia de governo. “Deixe-me ser claro: os EUA estão comprometidos com a segurança de Israel e concordamos com seu direito de se defender”. Ou seja, igual a Bush, o novo presidente assegurou o apoio irrestrito do imperialismo às ações de Israel, tentou responsabilizar o Hamas, enquanto mantém um silêncio cúmplice sobre o banho de sangue de Israel em Gaza.

Desafios
A crise econômica também marca o início de uma nova situação política internacional. A eleição de Obama foi a primeira conseqüência disto. Nos próximos anos assistiremos a mudanças bruscas e convulsivas em muitos países. A crise poderá colocar em xeque toda a ordem mundial e a hegemonia do imperialismo ianque sobre o atual sistema mundial de Estados. Um dos desafios de Obama será manter o controle dos EUA sobre o sistema imperialista mundial.

E, como em toda crise econômica, esta também poderá provocar revoltas e ascensos revolucionários pelo mundo. Talvez mais intensos e dramáticos do que os que foram vistos após a crise econômica de 2001-2002, quando a América Latina foi palco de levantes e revoluções. Mas as rédeas que conduzirão o imperialismo no enfrentamento com o movimento de massas estão agora nas mãos de Obama.

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