Foto Erik Dau

No último domingo (22/08), dois jovens foram baleados durante tiroteio no Complexo do Salgueiro, em São Gonçalo. Alexandre Carvalho Ribeiro Motta, de 19 anos, foi internado em estado grave no Hospital Estadual Alberto Torres, no bairro do Colubandê. Já João Vitor de Oliveira Santiago, de 17 anos, não resistiu aos ferimentos e veio a óbito. Os dois jovens, moradores do Salgueiro, voltavam de uma pescaria quando foram baleados.

Mais uma história de jovens inocentes que acabam mortos ou feridos em confrontos entre a Polícia Militar e facções criminosas. O caso faz relembrar o assassinato de João Pedro, de 14 anos, que brincava com seus primos quando foi baleado durante uma operação da PM no mesmo Complexo do Salgueiro, em maio de 2020. Mais recentemente, a jovem Kathlen Romeu, de 24 anos e grávida de 14 semanas, foi atingida por um tiro de fuzil no tórax, também durante operação policial, no Complexo do Lins, na Zona Norte do Rio de Janeiro.

Para mim é muito difícil falar, porque a gente vê a história se repetindo mais uma vez. A gente vê que nada é feito para que essas operações mudem. A mesma coisa se repete, e com o mesmo nome do nosso filho. É bem difícil essa situação.(…) Além da história se repetir, a polícia tem sempre a mesma versão. Nunca foi eles, sempre eles foram recebidos a tiros. Eles tentam de alguma forma fazer com que essa punição não chegue a eles. Eu acredito que não é coincidência. Mais uma criança com o mesmo nome do João. O Estado precisa rever todas essas operações. Alguém precisa fazer alguma coisa para isso parar de acontecer. Quantos mais vão ter que morrer? A gente fica de mãos atadas com essa impunidade”. Esse é um trecho da entrevista concedida por Rafaela Matos, de 38 anos, mãe de João Pedro, ao jornal Extra, após a morte do jovem João Vitor.

O capitalismo procura a contenção social da miséria através de mais violência

Perante a mais esse caso, é preciso que se faça um balanço dessa política de “guerra às drogas”. Após pelo menos 30 anos de uma política de Estado marcada pelo confronto armado direto às custas de muitas vidas inocentes, a presença do tráfico e das milícias nas favelas e periferias do estado do Rio de Janeiro não retrocedeu; ao contrário, ampliou-se. Esta “guerra às drogas” nas comunidades não só não acaba com o narcotráfico como gera ainda mais violência e morte de inocentes.

Baseada em uma brutal criminalização da pobreza, esta política tem significado um verdadeiro genocídio da juventude e da infância negra nas favelas. Corpos alvejados pelo Estado que tem cor e classe social, são pretos e pobres! Em uma década, a taxa de homicídios de pessoas negras cresceu em 11,5%. Uma criança negra tem três vezes mais chance de morrer antes de completar quinze anos em comparação a uma criança branca. Em outubro de 2020, mais da metade das 20 crianças baleadas no RJ foram vítimas das balas perdidas.

A estrutura militarizada da segurança pública e a doutrina que a governa está a serviço disso. As Polícias Militares estaduais (uma herança deixada pela Ditadura Militar que governou o Brasil de 1964 a 1984), são parte fundamental dessa rotina de violência e pela manutenção do sistema capitalista. Basta ver que a mesma polícia que invade as comunidades pobres com blindados (os chamados “caveirões”) e helicópteros, atirando para todo lado, nunca invade os bairros chiques onde mora a burguesia, que aliás é onde se encontram os grandes financiadores e verdadeiros chefes do tráfico.

Para enfrentar o controle territorial do tráfico e das milícias e ao mesmo tempo, conter o extermínio de jovens negros nas favelas e periferias, é preciso

– Investigação e punição exemplar dos policiais responsáveis por mortes de inocentes e seus comandos;

– Prisão e confisco dos bens dos verdadeiros chefes do tráfico e das milícias, que não estão nas favelas;

– Legalizar o consumo de drogas e regulamentar sua comercialização, com mecanismos de controle social;

– Desmilitarizar a polícia, conformando uma força policial controlada pelos trabalhadores e o povo pobre, com comandos eleitos e mandados revogáveis;

– Construção de um voluntariado civil, formado por membros de confiança da comunidade que receberão treinamento para combate aos crimes de menor periculosidade.