Solidão nas metrópoles e relacionamentos superficiais são temas do gélido “Medos privados em lugares públicos”, novo filme de Alain ResnaisO filme “Medos privados em lugares públicos”, dirigido pelo veterano diretor francês Alain Resnais (de “Hiroshima, Mon Amour” [1959] e “O Ano Passado em Marienbad”[1961]) apresenta ao espectador um emocionante mosaico de personagens bem construídas, cujas histórias possuem o sentimento da solidão como intersecção. O roteiro do filme é adaptado por Jean-Michel Ribes a partir da peça teatral do inglês Alan Ayckbourn, “Private fears in public places”.

O escritor Ayckbourn é amigo de Resnais. O diretor já realizou um filme anterior a partir de peça sua, “Smoke, no smoke”. Resnais conheceu Ayckbourn na cidade de Scarborough, a mesma em que o amigo testemunha o casamento entre Resnais e a atriz Sabine Azéma. Percebe-se que, além de adaptar sua obra, Resnais fez também uma homenagem ao amigo: há um quadro na parede do personagem Thierry que aparece várias vezes no filme, em que se lê o nome da cidade Scarborough.

Como é característico de Resnais, um dos cineastas fundadores da Nouvelle Vague, sua obra se concentra nas emoções dos personagens. Neste caso, ele nos apresenta o corretor de imóveis Thierry (André Dussolier), que nutre sentimentos pela funcionária que trabalha com ele, Charlotte (Sabine Azéma). Gaëlle (Isabelle Carré) é a irmã mais nova dele, que busca um relacionamento marcando encontros às escuras através de anúncios. Charlotte, por sua vez, trabalha à noite cuidando do pai doente de Lionel (Pierre Arditi), solitário barman de um hotel em que o desempregado ex-oficial do exército Dan (Lambert Wilson) bebe com freqüência. Dan é noivo de Nicole (Laura Morante), que busca um bom apartamento para que o casal more com a ajuda do corretor Thierry. O título original do filme “Coeurs” – corações, em francês – também mostra o quanto adentramos tais personagens em seus sentimentos.

Sem luz
Paris é conhecida por ser uma cidade romântica e iluminada, a Cidade Luz. Mas, como muitas grandes metrópoles do mundo, é habitada por milhões. E esses habitantes, no meio da multidão das metrópoles, separam-se em apartamentos solitários, buscam um calor humano inexistente em suas vidas. Resnais coloca na tela uma Paris sem romance e sem muita luz, focando a solidão das almas que a habitam.

A solidão não é vista apenas nas tramas de cada um e em suas buscas por afeto, mas também no gélido clima impregnado naqueles espaços. Durante todo o filme uma neve insistente e artificial está nas janelas, nos casacos dos personagens, e em praticamente todas as fusões que dividem cenas. Na cena chave do clímax, em que Charlotte conversa com Lionel sobre a necessidade de tentar apagar o inferno interior de cada um, explicitando a hipocrisia e as convenções sociais que muitas vezes causam a solidão, neva dentro do próprio apartamento.

Nos cenários há muito de artificial, seja no colorido bar do hotel em que Lionel ouve os desabafos de Dan, seja na envidraçada imobiliária, ou nos apartamentos que Nicole visita com o corretor. Assim, Resnais parece dizer que o que há de verdadeiro não está ao redor dos personagens.

Não há imagens externas e todas as cenas se passam dentro dos apartamentos e estabelecimentos citados. As ruas, a neve, tudo que é externo aparece apenas através das janelas. A única cena que faz o oposto disso é a inicial, que parte de um panorama geral noturno de Paris e vai diminuindo até entrar pela janela de um dos apartamentos, como se convidasse o espectador a se acomodar entre quatro paredes para conhecer as histórias e os personagens. A liberdade que o ambiente externo representa fica do lado de fora. Resta o isolamento, a limitação dos cômodos e paredes. Alguns dos diálogos inclusive se passam com os personagens separados por cortinas, vidraças, obstáculos.

Descartáveis
Além da relação com este espaço, os próprios diálogos também revelam o que há por trás dessa casca gélida. Um exemplo é a fala de Thierry sobre a vantagem da tecnologia do VHS, afirmando que pode-se gravar várias coisas e reutilizar a mesma fita várias vezes. Além de ser um tanto irônico, já que essa tecnologia hoje está ultrapassada pelo DVD, o discurso dele também é uma alegoria das atuais formas de relacionamento humano, seu caráter descartável. A forma como se descartam relacionamentos (o que isola os seres humanos) é a mesma com a qual se desgrava o que já foi assistido no VHS, ou também como se descarta a própria tecnologia ultrapassada.

Até mesmo os movimentos de câmera do filme acompanham a lógica dos sentimentos, conflitos e pensamentos dos personagens. Às vezes a câmera deixa de lado as conversas que acontecem entre os personagens para focalizar fotos ou quadros nas paredes (como o de um homem sozinho em alto mar na casa de Lionel). Em dois dos apartamentos visitados por Nicole junto com o corretor, a câmera está no alto, vemos os cômodos vazios como se fossem uma maquete sem telhado (ou mesmo um cenário cinematográfico?).

Tudo contribui para expressar a solidão, os medos da não-aceitação, as fraquezas, os desejos individuais contidos pelas conveniências impostas pela sociedade. Apesar disso, e de este realmente ser um filme triste, há vários momentos cômicos, principalmente os que envolvem o rabugento pai de Lionel, Arthur, cuja imagem jamais aparece na tela, apenas sua voz ecoa do quarto.

Ao final da sessão, este é um filme capaz de permanecer em nós durante algum tempo. Tornamo-nos, ou nos lembramos que somos, algo como um daqueles sete personagens.

Medos privados em lugares públicos
Nome Original: Coeurs
Direção:Alain Resnais
Roteiro: Jean-Michel Ribes
Origem: França/Itália
Duração: 120 minutos
Ator/Atriz Personagem
Elenco:
Sabine Azéma (Charlotte)
Lambert Wilson (Dan)
André Dussollier (Thierry)
Pierre Arditi (Lionel)
Laura Morante (Nicole)
Isabelle Carré (Gaëlle)
Claude Rich (voz)

Trailer do filme