Fabio Bosco, ex-diretor do Sindicato dos Metroviários

A campanha salarial dos metroviários de São Paulo conquistou a manutenção do acordo coletivo, sem reajuste salarial e sem resolver várias pendências como o “vale-peru”, as PR’s (participação nos resultados) deste e do próximo ano, a terceirização das bilheterias, a falta crônica de funcionários, entre outros.

Para avaliar se houve vitória ou derrota, é relevante observar alguns pontos:

1) No enfrentamento à pandemia o Governo Federal e depois todos os governos estaduais e municipais, sem distinção de partido, aplicaram uma política de “salve-se quem puder”. Quem puder, fique em casa! Quem não puder use máscaras, lave as mãos e boa sorte. Fruto desta política genocida, o Brasil já conta com mais de 100 mil mortos e 3,5 milhões de contaminados que na verdade são 10 vezes mais;

2) No enfrentamento à ofensiva geral dos patrões e dos governos sobre direitos trabalhistas em meio à pandemia, as grandes centrais sindicais (a CUT e a Força Sindical em particular) também aplicaram a política do “salve-se quem puder”. Ao invés de promover uma luta de todas as categorias pela renovação dos acordos coletivos, com reposição salarial e sem demissões, apoiaram uma Medida Provisória no Congresso Nacional que não garantiu nem direitos nem empregos, e deixaram cada categoria à sua própria sorte;

3) Neste cenário difícil de “salve-se quem puder” os metroviários realizaram sua campanha salarial. À cabeça do movimento, duas estratégias se enfrentaram: a fórmula negociação permanente com o Metrô e TRT com recurso acessório à mobilização; e a fórmula da organização/mobilização permanente com recurso acessório à negociação;

4) A estratégia baseada na negociação permanente estava inviabilizada pela intransigência do Metrô. A cada negociação, a empresa reafirmava os novos ataques, não apenas aos direitos, mas também aos salários e ainda dizia que em agosto seria pior. Mesmo inviabilizada, esta estratégia equivocada de negociação permanente empurrou a campanha para um beco sem saída: em meados de julho, corria na base propostas de trocar alguns direitos como o adicional noturno e adicional de H.E. (hora extra) pela manutenção dos demais, o que levaria a divisão da base e a derrota da categoria.

5) O anúncio do corte de 10% dos salários colocou a categoria definitivamente na rota da greve, derrubando a estratégia da negociação permanente. No dia 27, a assembleia confirmou a greve e a adesão maciça da categoria já na troca de turno a partir das 22h, levou o então secretário Alexandre Baldy a capitular e a renovar o acordo coletivo.

6) A cereja do bolo veio logo cedo. Frente à não abertura das estações a partir das 4h40, a mídia iniciou a ladainha de sempre: a falta de responsabilidade do sindicato ainda mais em um momento de pandemia. Mas a resposta contundente de Altino Prazeres, um dos três coordenadores do sindicato, empalmou o sentimento popular contra a desigualdade social e se tornou um dos top trends do Twitter nesse dia; afinal, se os 42 bilionários brasileiros ganharam 27% em meio da pandemia, por que os metroviários e demais trabalhadores tinham que aceitar perdas de salários, direitos e empregos? A categoria se sentiu aliviada pela manutenção do acordo coletivo e vingada pela resposta à mídia anti-operária e anti-popular.

Neste cenário de “salve-se quem puder”, a renovação do acordo coletivo representou uma vitória parcial dos metroviários, um triunfo da mobilização sobre a estratégia de negociação permanente.

Representou também uma vitória da classe trabalhadora em meio à guerra promovida pelos patrões e pelos governos contra os direitos da classe trabalhadora.
A vitória dos metalúrgicos da Renault em Curitiba com a readmissão de 747 operários representou mais uma batalha vitoriosa. Agora são os direitos dos trabalhadores e trabalhadoras dos Correios que estão em disputa em uma greve nacional que merece todo o nosso apoio.

Para os metroviários ficam como reflexão a necessidade da organização de base e de um sindicato combativo.

Para a classe trabalhadora, fica a necessidade de fortalecer as centrais sindicais combativas como a CSP-Conlutas para as grandes batalhas que a classe trabalhadora terá pela frente, bem como lutar por uma solução definitiva: frente à crise capitalista, com privações para a população trabalhadora para manter os privilégios para a burguesia, é necessário lutar pelo poder aos trabalhadores e trabalhadoras e um Brasil e um mundo socialistas.