O significado do governo Evo Morales

Pouco após a vitória esmagadora de Evo Morales, um analista de um jornal boliviano dizia que Che Guevara pode ter se enganado sobre muitas coisas, mas acertou quando enxergou que a revolução na América Latina passaria, necessariamente, pela Bolívia. O país em cujas selvas o guerrilheiro foi morto vive há alguns anos uma nova revolução, que desperta o interesse de milhares de ativistas em todo o mundo.

Na semana passada, estes viram novas cenas impressionantes nas cerimônias de posse de Morales. Ele participou de uma no Templo do Sol, em Tiwanaku, com as comunidades originárias do país, no qual, pela primeira vez, foi empossado um presidente indígena. Isto em um país onde 62,2% da população reivindica-se como tal e que sempre foi governado por uma minoria branca. Até 1952, os analfabetos, ou seja, a quase totalidade dos indígenas, que falavam o quechua, não votavam.

A posse de um índigena impactou toda a América Latina e em particular a região andina, onde as mesmas etnias são tão discriminadas quanto na Bolívia, representando uma vitória distorcida desse povo sofrido.

A eleição do candidato do MAS (Movimento ao Socialismo), com 53,7% dos votos, tem provocado ilusões nos que sonham com uma América Latina e um mundo socialistas. Em seu discurso na Praça, Evo homenageou Che Guevara, os mártires de El Alto e apresentou seu governo como continuidade de uma luta histórica contra os 500 anos de saques, de opressão e da “luta pela revolução”.

Na praça e fora dela, são muitos os que acreditam nesse discurso. O problema é se a política de Evo e de seu partido permitem que ele seja digno dessas esperanças.

Primeiros sinais
A julgar não só pela trajetória de Evo, mas pelo que tem dito depois da vitória eleitoral, é possível falar de um governo contra as aspirações do povo boliviano, justamente as que o alçaram ao poder.

A principal, a da nacionalização dos hidrocarbonetos o gás e o petróleo é uma exigência nacional, a principal reivindicação da insurreição que derrubou o último governo. Morales aponta para uma nacionalização ‘simbólica’, que tem as multinacionais como “sócias” e permite que explorem e comercializem gás e petróleo, ao contrário do que seguem exigindo a COB (Central Operária Boliviana) e organizações como o Movimento Socialista dos Trabalhadores, da LIT-QI, que é a nacionalização sem indenização e com o controle total pelo Estado
A legalização da folha de coca é outra luta importante. Tradicional e sagrada para os povos andinos – a planta é mascada e os incas a ofereciam aos deuses – a folha é usada para remédios, chá e, também, para a produção de cocaína. Por isso a desculpa dos EUA para aumentar a presença militar na região, ainda que este país compre 98% da produção mundial da folha, para a Coca-Cola. Morales pediu o fim da perseguição, mas propõe um acordo que, para o intelectual James Petras, restringirá o cultivo “a menos de meio acre por família”.

Outro tema crucial é o da convocação da Assembléia Constituinte. Parte significativa dos trabalhadores bolivianos, assim como a maioria oprimida indígena, encara a convocatória da Constituinte como uma forma de impor sua maioria para resolver os graves problemas sociais e romper com o imperialismo. Evo trata de apresentar a Constituinte, em julho, com o objetivo de canalizar pela via morta da democracia burguesa as legítimas aspirações do povo boliviano, mantendo a estrutura capitalista e deixando intactas as estruturas coloniais e a opressão aos indígenas.

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