O Segundo Sol branco da Globo

A nova novela da Globo deu o que falar na boca do povo. Rodada em Porto Seguro e Salvador, a capital mais negra fora da África, já foi sendo criticada antes mesmo de sua estreia por não apresentar em seu elenco principal atores e atrizes de pele negra, o que seria natural pela predominância da população soteropolitana.

Salvador já foi a primeira capital do país. Seu litoral foi um dos primeiros a receber milhares de negros escravos trazidos do continente africano, o que foi fundamental para a construção histórica e a formação social do povo brasileiro. Em razão disso, muito do que se chama de “cultura brasileira” tem suas origens nos costumes, nos ritmos, nas danças, nas músicas, na culinária, na religiosidade e um longo etc. dos povos negros africanos.

Assim, não é exagero quando dizemos que Salvador é um dos grandes centros irradiadores da cultura negra no Brasil e nas Américas. Suas ruas e bairros tradicionais, seu povo batalhador e exultante, suas festividades, suas tradições, suas paredes, suas cores, exalam e respiram cultura, arte, música, criatividade, escravidão, racismo.

Contudo, a nova novela das nove, escrita por João Emanuel Carneiro (escritor da implacável “Avenida Brasil”, de 2012) parece não tratar nada disso. Sua história está girando em torno de um caso de amor entre um cantor baiano da capital e uma moça simples e humilde das ilhas que se encontraram por uma série sucessiva de eventos casuais, que começou com a explosão de um avião e segue com a confusão gerada em torno da suposta morte do cantor. É claro, como não poderia deixar de ser em uma novela global, incide sobre esse romance as tramas, as conspirações, as falsidades e mentiras que envolvem desde o irmão do cantor Beto Falcão, interpretado pelo baiano Vladimir Brichta, até uma misteriosa e inescrupulosa produtora, interpretada por Adriana Esteves.

Por falar em elenco, esse é um grande problema racista da novela. A Bahia de Todos os Santos tem sido um importante celeiro de produção de grandes atores e atrizes que se destacam a nível nacional e até internacional por suas atuações. Daqui, saíram nomes como Lázaro Ramos, Wagner Moura, Luís Miranda, João Miguel, Fábio Lago, Cyria Coentro, Laila Garin, Regina Dourado, entre outros já conhecidos do grande público. Mas a produção optou por selecionar um elenco branco, composto em sua grande maioria de cariocas para representar o povo baiano.

Se não vejamos: a composição do elenco em que gira a história principal: Emílio Dantas (que representa o protagonista Beto Falcão), Giovana Antonelli (Luzia), Deborah Secco (Carola) e Adriana Esteves (Laureta) são todos cariocas e não-negros; apenas Vladimir Brichta (Remildo Falcão) tem origens nas terras baianas. Além desse elenco principal, na família de Beto Falcão estão o paulista José de Abreu, interpretando Seu Dodô, e a pernambucana Arlete Salles, como a matriarca Dona Naná; e seus outros dois irmãos, os atores Luis Lobianco (carioca) e Armando Babaioff (pernambucano), o que totaliza nenhum negro ou negra no elenco principal.

Na história paralela no casarão do rico empresário Severo Athayde (o paranaense Odilon Wagner), estão Cássia Kiss (paulista), Maria Luísa Mendonça (carioca), Caco Ciocler (paulista), a empregada Cacau (a paranaense Fabiula Nascimento). Apenas Fabrício Boliveira (como Roberval) e Claudia di Moura (Dona Zefa) estão representando a negritude baiana nesta primeira fase da novela.

Além da composição não-negra do elenco em uma novela gravada em terra de negros, chamou atenção também a composição de atores do Sul e Sudeste brasileiro. Este fato ocasionou um grande questionamento por parte da população baiana, a ponto de atores e atrizes, junto ao Sindicado dos Artistas e Técnicos da Bahia (Sated-Ba) construírem uma nota onde solicitam maior participação de artistas da terra no elenco. De igual modo, o Ministério Público do Trabalho também entrou com uma Notificação Recomendatória com prazo de 10 dias para que a Globo realizasse adequações ao roteiro e produção com fins de garantir a representatividade da “diversidade étnico-racial da sociedade brasileira”.

A Globo parece ter desprezado essa simples recomendação, pois após uma semana de exibição, com exceção de Roberval e Dona Zefa, até agora só vemos os negros e as negras da Bahia compondo papéis de figurantes. Aliás, parece que a Bahia toda e o que ela tem de melhor, além de sua beleza natural: o seu povo e a sua cultura, tem servido apenas como paisagem, isto é, como parte integrante do cenário que se soma as praias, o sol, o mar, o Elevador Lacerda, o Farol da Barra, etc. Isso fica evidente quando se mostra cenas de relance da luta ancestral brasileira, a capoeira, apenas de passagem entre a mudança de um cenário a outro.

Emilio Dantas , Giovanna Antonelli e Deborah Secco

Essa talvez seja a razão para a queda sucessiva de audiência da novela. Ela estreou na segunda-feira passada (14/05) com a média de 34 pontos de audiência e pico de 36,6 pontos, o que superou a estreia de seis novelas anteriores da emissora no mesmo horário. Contudo, ao longo da semana ela foi perdendo público: na sexta-feira (18/05) ela registrou 28,2 pontos de audiência com o pico de 30 pontos; já no sábado (19/05) ela caiu para 23,6 pontos, considerado péssimo para o horário na emissora.

As tramas e as conspirações elaborados por João Emanuel Carneiro chegam a chocar qualquer um. Diferente da relação clássica entre irmãos contada desde escritos bíblicos, o que move Remildo Falcão é a exploração consciente, planejada e gananciosa de seu irmão, o falido cantor de axé Beto Falcão. Para além de seu enrolado e ganancioso irmão, soma-se ao rol de exploradores, a ex-namorada e interesseira Carola e sua amiga, a rica produtora Laureta.

O centro da história de Segundo Sol tem sido a relação de gente gananciosa e sem quaisquer escrúpulos contra gente humilde, simples, ingênua e batalhadora, que melhor se expressa na personagem de Luzia. Portanto, é a história dos capitalistas e sua moral, ansiosa de lucros cada vez maiores, contra os trabalhadores. Para fazer esta comparação, basta ver as tramas espúrias dos donos da Odrebrecht, da JBS/Friboi, dos refrigerantes Dolly para se ter uma ideia, por cima, do que são essa classe de parasitas da força de trabalho alheio. Deixam um Remildo ou uma Laureta para trás.

História que também pode ser percebida na casa da família Athayde, onde os patrões e os filhos, todos brancos, possuem nada mais que negros e negras como seus serviçais, não por acaso, únicos negros no elenco da novela até agora. Contudo, infelizmente, esse fato ainda é corriqueiro na realidade brasileira. Realidade em que o racismo está presente em nosso cotidiano, tão presente que a novela de João Carneiro e dirigida por Dennis Carvalho reproduz desde a seleção de seu elenco até ao conteúdo de sua produção.

A trilha sonora talvez seja o seu ponto alto, posto que ela passeia entre o “Faraó” interpretada por Margareth Menezes e “Você Passa, Eu Acho Graça” interpretada por Laila Garin, além da presença musical ilustre de Daniela Mercury e de Baiana System na abertura. Ainda assim, faltou muitos dos ritmos e musicalidades baianas, a bem da verdade, não dá muito para falar em música baiana ou de músicos baianos, sem falar de Ivete, Pit, Raul, Caetano, Gilberto, Bethânia, Gal, Bell, Edson Gomes, Luiz Caldas, entre muitos outros. Por isso, o seu ponto alto também pode revelar a sua fraqueza.

A novela Segundo Sol tenta passar a ideia de uma Bahia não negra, pior do que isso, a ideia da cultura de um povo que se não está ausente, aparece apenas como “paisagem”. Tal como a blusa usada por um dos irmãos de Beto Falcão, Ionan, em que o “Bahea” (time) é mostrado como um figurino, mas de “Bahia” mesmo, até agora ninguém viu!