O massacre em Tiananmen

No final da década de oitenta, a China vivia uma forte aceleração das reformas capitalistas de mercado que o partido único stalinista, dirigido por Deng Xiaoping, dera início em 1979

Redação, escrito em 2014

Tinha-se eliminado o direito de greve; tinha-se reforçado extraordinariamente o poder dos gerentes das empresas estatais; era permitido, a eles e à burocracia do partido-Estado, a criação de empresas privadas; criaram-se “zonas econômicas especiais” para o investimento estrangeiro…

Lutando contra a restauração capitalista
No final da década, o enriquecimento da burocracia “comunista” veio acompanhado de um aquecimento econômico que gerou uma significativa inflação, da qual se beneficiou a mesma burocracia, que havia implantado um duplo sistema de preços: os “planificados” e os “de mercado”. Isso lhes dava a possibilidade de comprar produtos pelo “preço planificado” e revendê-los pelos “preços de mercado”, gerando grande descontentamento social.

O movimento democrático iniciou-se em 15 de abril de 1989, quando os estudantes de Beijing (Pequim) começaram os protestos. Setores de trabalhadores imediatamente começaram a participar e trouxeram sua visão de classe ao movimento, que até então tinha se limitado a denunciar a corrupção, exigir liberdades, em particular, de expressão, e reivindicar diálogo.

Os trabalhadores somam-se ao Movimento pela Democracia
Em 17 de abril, alguns trabalhadores tiveram a iniciativa de se organizar independentemente do sindicato oficial e decidiram formar a BWAF, Federação Autônoma de Trabalhadores de Beijing, que visitava fábricas e exigia, além de liberdades, mais salário, estabilização de preços e a publicação dos rendimentos e propriedades das autoridades.

Em 26 de abril, em resposta às reivindicações de diálogo dos estudantes, o Diário do Povo (jornal oficial do PCCh) os caluniou, desencadeando a indignação. No dia seguinte, 200.000 estudantes manifestaram-se e um milhão de moradores de Beijing saíram em apoio. Em 15 de maio, 600.000 pessoas tomaram as ruas. Entre 17 e 19 de maio, milhões manifestaram-se em apoio aos estudantes. Amplos grupos de trabalhadores levaram cartazes com o nome de suas empresas.

A pressão social foi tão forte que setores de base e intermediários do sindicato oficial, (ACFTU) descontentes com seus chefes, exigiram diálogo com os estudantes, direitos democráticos, castigo aos corruptos e autogestão sindical.

Enormes manifestações com participação de trabalhadores eclodiram nas grandes cidades do país. Federações Autônomas de Trabalhadores estabeleceram-se de forma espontânea em várias cidades, sem que, naquele momento, se tentasse unificá-las.

Em 19 de maio, a BWAF anunciou sua fundação oficial e declarou que se as reivindicações dos estudantes não fossem aceitas seria convocada uma greve geral. Porém, o bureau político do PCCh decretou a lei marcial e anunciou a chegada de tropas e tanques à cidade. A lei marcial fez com que a população se indignasse e saísse espontaneamente às ruas.

Em 21 de maio, a BWAF tornou público o “Manifesto dos Trabalhadores”, no qual se lia: “O proletariado é a classe mais progressista da sociedade. Temos de mostrar que somos a força central no Movimento pela Democracia. A classe operária é a vanguarda da República Popular da China. Temos todo direito de expulsar os ditadores. Os trabalhadores sabem muito bem o valor dos conhecimentos e das habilidades na produção. Não podemos permitir que se faça algum dano aos estudantes.”

A ditadura respondeu com o massacre
Em 19 de maio, quando a BWAF ameaçou convocar a greve, a Associação Autônoma de Estudantes Universitários de Beijing (SFA) pediu que não o fizesse. Só no final de maio, quando a violência do governo subiu, permitiram à BWAF aderir ao movimento.

Em 3 de junho, o sindicato oficial (ACFTU) de Beijing denunciou a BWAF como contrarrevolucionária e pediu ao governo para reprimi-la. No mesmo dia, as tropas avançaram para a cidade. Centenas de milhares de trabalhadores e estudantes interpuseram-se impedindo que 100.000 soldados entrassem em Beijing.

Quando os trabalhadores se levantaram em apoio aos estudantes, com a ameaça de greve geral, a ditadura do partido-Estado respondeu com o massacre. Em 4 de junho, milhares de pessoas (não há dados oficiais) foram assassinadas. O movimento não estava preparado para a resposta violenta do governo e foi afogado em sangue.

A brutal repressão converteu-se em um “modelo” para destruir a resistência em todo período posterior. Durante o protesto dos trabalhadores dos campos de petróleo de Daqing em 2002, as autoridades enviaram tanques para esmagá-los.

Derrotada a classe operária chinesa, a restauração capitalista avançou sem freios
Em 1992 com a classe trabalhadora e o movimento democrático massacrados, o 14º Congresso do PCCh consagrou e desencadeou de forma acelerada e brutal a restauração capitalista e a abertura do país ao investimento imperialista. Batizaram-no como “economia de mercado socialista com características chinesas“. Em busca da plena inserção na divisão imperialista do trabalho, a ditadura chinesa privatizou em massa as pequenas e médias empresas estatais, beneficiando os antigos gerentes e os burocratas do partido; enquanto as grandes empresas estatais se convertiam em sociedades por ações, associadas, em muitos casos, a multinacionais estrangeiras e com uma rede de empresas subsidiárias privadas. Como resultado da onda de privatização, entre 1996 e 2001 foram despedidos entre 30 e 40 milhões de trabalhadores e em grande medida desmanteladas suas velhas condições de trabalho.

Ao mesmo tempo, um novo e gigantesco setor da classe operária chinesa criou-se a partir da industrialização acelerada, em boa medida vinculada ao investimento imperialista estrangeiro e à exportação: mais de 200 milhões de trabalhadores rurais migraram, foram submetidos a um apartheid social, sem os direitos dos habitantes urbanos e foram submetidos também a uma exploração extrema em regime de trabalho em barracões. 

O despertar da classe operária chinesa
Mas o sinal dos tempos já não é o da derrota, mas o da recuperação da combatividade, em particular, entre os operários migrantes. A recente greve dos trabalhadores que fabricam as grandes marcas de calçado, como antes foi na Honda ou nas gigantescas montadoras de iPhone, marcam este despertar. A luta dos operários chineses por direitos democráticos e trabalhalistas, em defesa do meio ambiente e pelo fim da ditadura do partido único merece todo nosso apoio e tem uma importância universal na luta pelo socialismo.