Nesse dia 14 de maio, a cidade de Diadema, região do Grande ABC, perdeu dois médicos por conta da COVID-19. As notícias que chegam são de que há outro médico em estado grave em uma UTI. São pessoas, não números, que adoecem. São pessoas que morrem, todos os dias, de forma anônima nos jornais e telejornais do país afora. O sentimento e a dor de cada família, de cada amigo, de cada colega de trabalho, não aparecem nos gráficos, nem nos números oficias e muito menos nas ações dos governos do presidente Jair Bolsonaro (Sem Partido), do governador João Dória (PSDB), ou do prefeito Lauro Michels (PV).

Segundo informações da Secretaria Estadual da Saúde do Estado de São Paulo (SSE-SP), nesse dia 13, a região registrou recorde desde o início da pandemia (que no ABC se iniciou em 15 de março sendo o primeiro óbito no dia 25). Só neste último dia 13 foram 19 óbitos e 150 novos casos confirmados com COVID-19, totalizando 3240 notificações confirmadas com contaminação e 309 vidas perdidas.

Segundo estimativa do IBGE de 2018, o município possui a segunda maior densidade demográfica do país, perdendo apenas para São João do Meriti (RJ), com uma área de 30,796 km² e 423.884 habitantes. Estes mesmos dados do IBGE apontam que 34,6% dos domicílios têm rendimentos mensais de até 1/2 salário mínimo por pessoa. Ou seja, é um município onde pelo menos 1 em cada 3 domicílios vivem (ou sobrevivem) com renda per capita inferior a R$ 522,50 e com aproximadamente 13,7 pessoas a cada metro quadrado. Resumindo: É uma cidade com uma população que vive apinhada e com baixa renda.

Em relação ao Coronavírus, e de acordo com Boletim Epidemiológico Nº 50 do COVID-19, de 14 de maio, divulgado pela prefeitura, já são 2177 casos notificados no município, dos quais 483 já confirmados e 47 óbitos. Segundo SSE-SP a letalidade do município é de 9,4%. E aqui apresentamos apenas os dados oficiais, são apenas números e nem de longe retratam nem a realidade que vivemos e nem a dor a cada vida ceifada.

O PSTU-ABC não pode se calar diante destes fatos e por isso foi às ruas, de máscara de proteção no rosto e álcool em gel no bolso, e entrevistou trabalhadores da saúde e moradores de Diadema para compreender como a população e os trabalhadores da saúde estão enfrentando a pandemia do Coronavírus no município. Dito isto, é importante ressaltar que preservaremos os nomes de todos os entrevistados.

Conversando com os primeiros entrevistados, estes já desabafam e tentam traduzir o drama que os trabalhadores da saúde vivem hoje, seja no Hospital Municipal de Diadema (HMPD), seja no Pronto Socorro Central (PSC). “Não temos condições adequadas de trabalho, o estresse está muito grande, às vezes parece clima de velório!” afirma o primeiro. “É um verdadeiro desespero”, afirma a outra. Outro diz “pensar o que de um governo que sempre negou o conhecimento e a ciência. Eles fingem que governam um país e nós, aqui, somos quem sofre com as consequências”.

Os trabalhadores do HMPD e PSC recebem Equipamento de Proteção Individual (EPI), porém muitas vezes inadequados à situação ou em pouca quantidade. Já foram instruídos pelas suas chefias imediatas, por orientação da Secretaria de Saúde, de que a mesma máscara deveria ser utilizada por até três plantões. Porém, a cada plantão a orientação de quais máscaras e por quanto tempo devem ser usadas muda quase que a cada dia.

No HMPD é fornecido um avental descartável por plantão para quem trabalha nos andares, ou seja, àqueles que não estão na emergência, no pronto atendimento do hospital ou na UTI. O que ocorre é que estes trabalhadores tem contato com vários pacientes, às vezes com sintomas de COVID-19 e outros que estão internados por outras doenças, sejam crônicos ou por outros motivos, e é muito difícil que o avental não encoste em um paciente e em outro, sendo possível que o avental se torne um grande vetor de contaminação.

Já no PSC, nos foi informado que, durante o plantão, é fornecido um único avental descartável para os trabalhadores que atendem pacientes no isolamento, que são deixados no corredor para ‘facilitar em caso de emergência’. “A realidade é que um avental descartável por plantão não é suficiente e serve para contaminar todo o ambiente, colocando em risco os servidores e também pacientes com outras patologias”, afirma um entrevistado. Nas Unidades Básicas de Saúde (UBS) a situação é a de que “o avental é de pano mesmo, e cada um compra o seu; as máscaras também são compradas, são daquele tipo confeccionado em casa e com pano, porque as descartáveis sumiram das farmácias e não chegaram aqui; e o álcool em gel que nós temos foi doação de empresas”, informou uma trabalhadora.

Nem no HMPD nem no PSC os profissionais de grupo de risco, seja pela idade ou por doença crônica ou autoimune, foram afastados de suas funções. A grande justificativa é que a liberação destes profissionais poderia causar falta de funcionários e de que não pode haver hora-extra (apesar de ter) e que, quando acontecem, são pagas em banco de horas.

Importantíssimo dizer que, para ampliar o número de leitos em UTI, a cidade perdeu a única enfermaria pediátrica que tinha e que ficava no 7º andar do HMPD. “Se o Hospital Infantil (HI) já fazia falta, imagina agora que não teremos mais nem o HI e nem os leitos da enfermaria?”, disse um dos entrevistados. Hospital que fora fechado em 2012, durante o governo de Mário Reali (PT).

Foi ressaltado, entre vários entrevistados, de que “ficou muito difícil ir trabalhar”, e isto ficou evidente em várias falas, tais como: “Temos colegas de trabalho que são avós e que não veem os netos há dois meses, isso deve ser terrível! Na minha casa a gente se divide, é cada um em um quarto e evitamos qualquer contato físico”. “Olha, a gente vai trabalhar, cumpre nosso papel, depois volta para casa, mas junto a gente carrega muito medo de contaminar quem está perto. Quem a gente ama. A gente chega em casa, toma banho demorado, às vezes de até 40 minutos, tudo para nos desinfectar, mas não adianta, ainda tem aquela sensação de culpa cutucando a gente, sabe? Porque não tem como não pensar que se meu filho ficar doente ou se ele se contaminar com o Coronavírus a culpa é minha!”, diz um dos entrevistados em lágrimas.

Entretanto, os trabalhadores entrevistados também relataram que manifestações de coletividade e de solidariedade entre os trabalhadores aumentaram. Desde um “deixa que eu amarro seu avental” ou “eu trago seu café no próximo plantão” ou até mesmo “se precisar eu fico com sua filha amanhã”, mostram que, mesmo vivendo em períodos de tensão em função das condições oferecidas a quem trabalha na cidade associada à pandemia, ainda há espaço para a solidariedade de classe.

Durante as entrevistas, firmamos o acordo de que todas seriam anônimas e o motivo é porque já foram feitas denúncias sobre a falta de EPIs e condições de trabalho, e os trabalhadores que as fizeram, ou ao conceder entrevista à TV ou mesmo ao utilizar redes sociais pessoais, sofreram represália e retaliações, situação que aumentou o temor no funcionalismo.

Um morador nos relatou que a empresa onde trabalha continua funcionando normamente, mesmo esta não sendo parte dos chamados serviços essenciais. Ele diz que não pode perder o emprego que conseguiu há seis meses depois de quase dois anos desempregado. “Eu preciso pegar ônibus lotado para trabalhar, meu patrão vai de carro, ou de aplicativo, ou nem vai e manda alguém no lugar dele, mas fazer o quê? Prefiro me arriscar a ver meu filho passando fome. Nos finais de semana é pancadão na rua, é vizinho fazendo churrasco na laje. Olha, para resolver só tem um jeito! É ter decreto proibindo tudo isso, proibir o trabalho que nem é serviço essencial, proibir a gente até de sair de casa. Não adianta prefeito fazer orientação de não abrir comércio e ‘fique em casa’, ele tem que fazer decreto para as empresas e comércios não funcionarem!”, afirma.

E no meio disto tudo, é preciso dizer que o prefeito Lauro Michels (PV) teve a cara de pau de publicar um decreto, no dia 22 de abril, autorizando a reabertura de parte dos estabelecimentos comerciais do município, entre eles óticas, escritórios de advocacia e contabilidade, imobiliárias, lavanderias, papelarias, bazares, salões de cabeleireiro e estética, entre outros. Foi preciso que o Ministério Público de São Paulo fizesse uma liminar que, no dia 24, derrubou o decreto do prefeito.

Para chegar à conclusão de que deveria abrir o comércio, Michels abriu uma enquete no Facebook, pois, segundo ele, em uma democracia o gestor compartilha as decisões. Porém, até o momento, o mesmo gestor não compartilhou decisões (nem informações) de onde os R$ 51 milhões da verba enviada pelo Governo Federal para o combate à pandemia deveriam ser aplicados.

Também foi em meio à pandemia, quando não há condições para protestos ou aglomeração, que servidores públicos de Diadema foram surpreendidos com a solicitação do dia 29 de abril do prefeito Lauro Michels, com apoio da diretoria executiva do Instituto de Previdenciária de Diadema (IPRED), que aprovou em sessão por vídeo-conferência da Câmara dos Vereadores no dia 30, em regime de urgência, um aumento da alíquota previdenciária de 11% para 14% causando, na prática, uma redução do salário dos servidores que já estão sem aumento há dois anos.

Diadema, assim como o Brasil, ainda não chegou ao pico da curva de contágio. Entretanto, já conta com quase a totalidade dos seus 26 leitos e 8 vagas de UTI, destinados à COVID-19, ocupados. Nos próximos dias é possível um colapso do sistema de saúde, já que não só Diadema, mas todos os sete municípios do ABC estão com leitos e UTIs com ocupação quase no limite. Mas, avesso à pandemia e a situação na cidade, o que vemos é o prefeito querendo reabrir o comércio num dia e no outro aumentando a fiscalização e multando, não as fabricas e grandes empresas da cidade, mas sim aos pequenos comércios.