O Caldeirão de Santa Cruz do Deserto do Beato Zé Lourenço

Deyvis Barros, de Fortaleza (CE)

Beato Zé Lourenço

Sempre digo, julgo e penso
Que o beato Zé Lourenço
Foi um líder brasileiro
Que fez os mesmos estudos
Do grande herói de Canudos,
Nosso Antônio Conselheiro.

Tiveram o mesmo sonho
De um horizonte risonho
Dentro da mesma intenção,
Criando um sistema novo
Para defender o povo
Da maldita escravidão.

Em Caldeirão trabalhava
E boa assistência dava
A todos os operários,
Com a sua boa gente
Lutava pacificamente
Contra os latifundiários.

Naquele tempo passado
Canudos foi derrotado
Sem dó e sem compaixão,
Com a mesma atrocidade
E maior facilidade
Destruíram Caldeirão.

Por ordem dos militares
Avião cruzou os ares
Com raiva, ódio e com guerra,
Na grande carnificina
Contra a justiça divina
O sangue molhou a terra.

Porém, por vários caminhos,
Pisando sobre os espinhos,
Com um sacrifício imenso,
Seguindo o mesmo roteiro
Sempre haverá Conselheiro
E Beato Zé Lourenço.

(Patativa do Assaré)

Essas palavras do grande poeta popular cearense, Patativa do Assaré, descrevem a força do movimento sertanejo que ficou conhecido como Caldeirão de Santa Cruz do Deserto (nome do sítio em que habitavam milhares de camponeses) e a covardia da burguesia brasileira que reprimiu barbaramente o movimento pacífico. No poema, o movimento é comparado a Canudos e o Beato Zé Lourenço a Antônio Conselheiro.

De fato, assim como Antônio Conselheiro, o Beato Zé Lourenço era um pregador cristão que tentou construir uma comunidade no sertão cearense onde não haviam classes sociais e onde os sertanejos pobres, massacrados pela seca, pela fome e pela ganância dos latifundiários poderiam trabalhar e viver dos frutos dos seus trabalhos. Também, assim como em Canudos, a liberdade de homens e mulheres pobres do sertão nordestino gerou o ódio das elites que foram impiedosas e massacraram a comunidade.

Vamos conhecer um pouco mais dessa história de resistência do nosso povo.

A formação do Beato Zé Lourenço e o Sítio Baixa D’Antas
José Lourenço Gomes da Silva, que mais tarde se tornaria o Beato Zé Lourenço, nasceu em Pilões de Dentro, na Paraíba, em 1870 ou 1872 (não se sabe o ano exato). Filho de pais negros, ex-escravos alforriados, que trabalhavam no campo, Zé Lourenço aprendeu desde cedo a cuidar da terra e dos animais. Ainda muito novo (cerca de 15 anos) Zé Lourenço fugiu de casa, com medo de uma surra que seu pai lhe prometera e foi trabalhar em fazendas como vaqueiro amansador de cavalos, jumentos e burros.

Após alguns anos, resolvido a reencontrar sua família, Zé Lourenço retornou a Pilões de Dentro, mas foi informado que seus familiares não estavam mais por ali. Eles haviam se juntado aos romeiros e peregrinado para Juazeiro do Norte, no Ceará, onde havia notícias de o líder político e religioso da região, Padre Cícero Romão Batista (conhecido pelos fiéis como Padre Cíço, ou Padim Ciço) havia realizado o milagre de transformar uma hóstia na boca da beata Maria de Araujo em sangue. Esse suposto milagre era tido pelos sertanejos como um sinal divino e milhares peregrinaram para Juazeiro buscando a benção do Padim Ciço.  De Pilões de Dentro, Lourenço embarca para Juazeiro com um grupo de romeiros, onde por fim encontra sua família.

Em Juazeiro se tornou beato, adotando um modo de vida simples, celibatário, religioso e desapegado das coisas materiais, usando sempre as vestes de frade (uma batina preta, uma cruz nas costas e um cordão de São Francisco amarrado na cintura). Alem disso, o agora beato, ingressou na ordem dos penitentes que se reuniam a noite diante de locais sagrados para praticarem autoflagelação como forma de purificação do espírito. Em pouco tempo como beato, o dedicado e devoto Zé Lourenço se tornou discípulo e amigo de Padre Cícero.

Após anos de penitência, Zé Lourenço foi aconselhado por Padre Cícero, que o conheceu bem e percebeu sua capacidade de liderança e seus conhecimentos sobre os cuidados com a terra e com animais, a voltar a Juazeiro e a trabalhar nas roças. Com a ajuda de Padre Cícero o beato consegue arrendar uma porção de terra em um sítio chamado Baixa D’Antas, próximo a Crato, cidade vizinha a Juazeiro, para onde vai acompanhado da família e de um grupo de trabalhadores rurais.

O terreno em Baixa D’Antas era árido e tomado pela caatinga. Em pouco tempo, com muito trabalho e dedicação de Zé Lourenço e seus adeptos, a terra foi prosperando e se tornando um verdadeiro pomar. Plantaram inúmeros pés de laranjeiras, mangueiras, jaqueiras, limeiras, coqueiros, limoeiros, abacateiros e cafeeiros, alem de produção de algodão, cereais e hortaliças. A comunidade foi atraindo sertanejos que fugiam de uma vida sofrida sob o controle dos “coronéis”. Relatos de contemporâneos contam que o sítio Baixa D’Antas chegou a juntar cerca de 2000 pessoas.

Para lá o Padre Cícero mandava os sertanejos que trabalhavam no campo e que chegavam a Juazeiro buscando redenção. Para viver em Baixa D’Antas se precisava apenas que a pessoa estivesse disposta a levar uma vida pautada pela fé, pelo trabalho e pela divisão das coisas entre todos. Não se faziam distinção entre os seus habitantes.

Beato José Lourenço

O que atraía tanta gente para o sítio não eram apenas os discursos entusiasmados do beato Zé Lourenço, que além de chefe da comunidade virou uma espécie de guia espiritual (o “padrinho Lourenço”) e que, apesar de analfabeto, ensinava aos habitantes agricultura e medicina natural. A grande atração da comunidade é que, diferente das outras fazendas do Sertão, em Baixa D’Antas a terra e a produção eram coletivos. Todos que estavam lá trabalhavam, seja nas lavouras, com os bichos ou com artesanato. E os frutos dos trabalhos de todos eram distribuídos para todos. Ninguém enriquecia às custas do trabalho de ninguém. E, diferente do resto do Sertão onde reinava a fome e a miséria, em Baixa D’Antas havia fartura.

A Sedição de Juazeiro e os ataques à comunidade de Baixa D’Antas
No começo do século XX o Brasil estava ainda em processo de consolidação da sua República e grupos políticos comandados por latifundiários disputavam o controle do poder de Estado. Até a primeira década do século, havia uma alternância na presidência entre um representante de São Paulo e um de Minas Gerais. Era chamada de política do “Café com Leite”, em referência às atividades econômicas que esses políticos representavam. Mas em 1910 essa política se rompeu e foi eleito para a presidência o representante de Minas Gerais e do Rio Grande do Sul, o Marechal Hermes da Fonseca, que iniciou um processo de deposição de seus opositores e colocar em seus lugares políticos aliados, com a justificativa de combater a corrupção.

Um dos políticos combatidos por Hermes da Fonseca foi Antônio Nogueira Acioly, um coronel que governava o Ceará. Acioly, apesar de contar com amplo apoio entre a oligarquia do estado, começava a enfrentar protestos especialmente por parte de setores das classes médias de Fortaleza e havia se colocado contra Hermes da Fonseca durante as eleições para presidente. Em seu lugar acabou sendo eleito para o governo do estado, em 1912, o Coronel Franco Rabelo que se recusou a negociar com as oligarquias do Cariri que eram fieis a Acioly (entre eles Padre Cícero que era prefeito da cidade recém-fundada de Juazeiro do Norte) e usou a força policial alegando que iria combater o cangaço, quando na verdade a pretensão era prender os jagunços que serviam aos coronéis da oposição, destituir políticos opositores e inclusive o próprio Padre Cícero.

A partir daí se iniciou um plano para depor Franco Rabelo. No final de 1913 uma assembleia de coronéis cearenses declarou como ilegal o governo de Franco Rabelo e nomeou o deputado Floro Bartolomeu como governador provisório. Três dias depois Rabelo mandou tropas de Fortaleza em direção ao Crato e, em seguida a Juazeiro para dar fim à sedição.

O Padre Cícero contava com muito apoio na região entre as elites e entre o povo pobre. Na época em que chegara para ser sacerdote, Juazeiro do Norte ainda era um distrito do Crato. Foi a partir do sucesso do padre, após se espalharem pelos sertões as histórias de seus milagres, que Juazeiro alcançou um desenvolvimento que o levou de uma pequena vila de agricultores e comerciantes a uma das maiores e mais importantes cidades do Ceará. Essa era a principal razão do poder político do Padre, que em 1911 havia conseguido com a ajuda do deputado Floro Bartolomeu (agora nomeado governador provisório) a independência do Juazeiro em relação ao Crato.

Nessa rebelião o poder do Padre Cícero entre os fiéis foi muito importante. Ele convenceu os sertanejos que era necessário pegar em armas contra as tropas de Rabelo porque isso se tratava de uma “guerra santa”. Quando os soldados de Rabelo chegaram a Juazeiro do Norte se depararam com uma trincheira ao redor de toda cidade cavada pelos romeiros de Padre Cícero e por cangaceiros liderados por Floro Bartolomeu, sob os conselhos de Antônio Vilanova, ex-combatente da Guerra de Canudos. As tropas rabelistas foram obrigadas a recuar para o Crato e pedir reforços após atacarem e serem derrotadas pelas tropas de beatos, que já estavam com fome e praticamente sem munição, mas ainda assim resistiram. Franco Rabelo enviou mais soldados e um canhão para invadir Juazeiro do Norte. No entanto, o canhão falhou e as forças rabelistas foram facilmente derrotadas. Após isso os revoltosos seguiram para Fortaleza, ocupando várias cidades no caminho, e conseguiram depor o governador Franco Rabelo no começo de 1914. Algum tempo depois houve novas eleições e o Padre Cícero foi eleito vice-governador.

O Beato José Lourenço estava na região durante os conflitos, mas não se envolveu nas batalhas. Como em Baixa D’Antas havia fartura, o seu papel se limitou a fornecer alimentos para as tropas revoltosas. As tropas rabelistas, apesar de derrotadas, não deixaram de fazer estragos nas redondezas. Ao passarem pelo sítio Baixa D’Antas destruíram todas as benfeitorias e as plantações e incendiaram as casas. Pela primeira vez, o Beato Zé Lourenço e o povo de Baixa D’Antas pagavam a conta de uma disputa que aparentemente não era sua.

Após retornarem de juazeiro, Zé Lourenço e os sertanejos reconstruíram a comunidade que em pouco tempo estava novamente em pé e com fartura de alimentos. A fartura do sítio transformou o Beato Zé Lourenço em uma figura importante, o que incomodava os sacerdotes e principalmente os fazendeiros que perdiam sua mão-de-obra barata para o sítio, onde tudo era dividido. As elites lançaram então uma campanha para difamar o beato o acusando de fanatismo, de imoralidade, de beberrão e de tudo mais que podiam. Geralmente as acusações eram mentirosas ou no mínimo aumentadas.

Um caso refletiu bem essa campanha de mentiras das elites contra o Beato Zé Lourenço. O Padre Cícero havia ganhado um boi da raça Zebu do industrial alagoano Delmiro Golveia. Não tendo onde criá-lo, o padre entregou o boi aos cuidados de Lourenço. Devido ao seu temperamento calmo o boi foi apelidado na comunidade de “Mansinho”. Por ser um presente de padre Cícero e por ser de uma raça nobre, o que poderia ajudar a melhorar a qualidade do gado da comunidade através da reprodução, os moradores do sítio tratavam o boi Mansinho com muito carinho. Depois da sedição de Juazeiro, os adversários políticos de Padre Cicero e de Floro Bartolomeu usaram um boato surgido para divulgar que Lourenço e seus seguidores eram fanáticos e adoravam o boi como a um santo. Diziam que eles utilizavam sua urina para curar doenças e raspas do seu casco como amuleto. Os padres do Crato, incomodados com a autoridade do beato, e os jornais da região divulgavam essas notícias e começaram a pressionar Floro Bartolomeu para intervir. José Lourenço e a comunidade de Baixa D’Antas, mais uma vez, eram atacados em uma disputa política alheia à comunidade.

Floro Bartolomeu, tentando se separar da ideia de que apoiava fanáticos e cangaceiros, prendeu José Lourenço e mandou matar o boi Mansinho na frente da cadeia, obrigando-o a assistir a execução. A carne do boi foi oferecida ao beato que se recusou a comê-la e iniciou uma greve de fome. Os moradores da região também se recusavam a comer a carne do boi Mansinho. Em meio às disputas políticas de Floro Bartolomeu e as desavenças entre o Padre Cícero e o bispado do Crato, o beato José Lourenço foi usado como bode expiatório e só foi solto a pedido de Padre Cícero. Quando retornou ao Baixa D’Antas, encontrou parte das lavouras destruídas pois haviam soltado uma boiada na roça.

A resistência do beato José Lourenço e dos sertanejos que o seguiam em reconstruir a comunidade Baixa D’Antas foi interrompida em 1926, quando o dono do terreno em que estavam vendeu a propriedade e eles foram despejados sem nenhum tipo de indenização pelas benfeitorias que fizeram. Após o despejo, o Padre Cícero os autorizou a se alojarem em um outro terreno próximo ao Crato, que era de sua propriedade, conhecido como Caldeirão dos Jesuítas. Foi ali que o beato e seus seguidores viveram uma atrocidade de repercussão nacional que até hoje não foi reparada.

O Caldeirão de Santa Cruz do Deserto
Os sertanejos rapidamente transformaram o sítio Caldeirão de uma terra seca e árida em uma comunidade que alimentava o seu povo e também os padres Salesianos da região. Alem das casas de moradia para todas as famílias, havia um pequeno engenho que produzia rapadura e melaço, barragens para juntar água para as secas, plantações de algodão, milho, cana-de-açúcar, feijão, arroz, centenas de árvores frutíferas, um cemitério e a igreja. Havia também uma escola para alfabetizar as crianças. Tudo construído pelos próprios sertanejos. Havia centenas de animais, entre bois, porcos, galinha, cavalos, jumentos e outros. Os materiais de trabalho eram produzidos pelos próprios moradores da comunidade que também produziam artesanato entre roupas, redes e calçados. O que sobrava era vendido e com o dinheiro eram comprados querosene e remédios.

Assim como no sítio Baixa D’Anta, no Caldeirão a produção também era coletiva e os frutos do trabalho eram distribuídos coletivamente. Isaias, o braço direito de Zé Lourenço, era o responsável pela administração da comunidade. Recebia as pessoas novas que chegavam e cuidava da produtividade da terra. Era o responsável pela chave dos armazéns e cuidava da distribuição de alimentos e mantimentos produzidos pelos sertanejos. Segundo Marina Gurgel, que viveu no Caldeirão “o Isaias era encarregado de distribuir as mercadorias, comida, tudo era com ele. Tudo que a gente queria, era uma par de alpercatas, ia pedir ao seu Isaias”. O relato mostra que a comunidade tinha acesso aos frutos do seu trabalho, de acordo com as suas necessidades. Segundo memórias produzidas pelos que viveram no Caldeirão, os relatos apontam para aquele período como o melhor de suas vidas.

Em 1932 houve uma grande seca no Nordeste. Em todo canto morria gente de doença e de fome. O governo criou campos de concentração no Sertão (um deles em Senador Pompeu, no interior do Ceará) para confinar os sertanejos num mesmo canto e mantê-los em condições que, apesar de miseráveis, não os permitissem morrer de fome e de sede, ao mesmo tempo que impedia um grande fluxo de êxodo-rural.  A morte estava por todos os lados. Nessa seca, inclusive, morreu de fome a filha de seis anos do poeta que citamos no começo desse texto, Patativa do Assaré, e sobre a qual ele escreveu um belo e triste poema chamado “A morte de Nanã”. Mas no Caldeirão não morreu ninguém de fome. Nos armazéns tinha o suficiente para todo o povo comer. Não faltou comida para ninguém, nem para os flagelados que chegavam em grande número esperando um pouco de paz e pão em meio a fome e morte.

Além de Zé Lourenço, que realizava pregações na comunidade, outro líder dos moradores do Caldeirão foi Severino Tavares que peregrinava pelos sertões fazendo propaganda do Caldeirão, falando ao povo que lá tudo era de todos e convidando os sertanejos afligidos pela seca a se juntarem ao Caldeirão.

Mas nem todos estavam felizes com a prosperidade do sítio. Os latifundiários da região viam na comunidade um verdadeiro perigo. Eles temiam que essa experiência fugisse do controle e evoluísse para algo parecido com Canudos, ao mesmo tempo que perdiam a mão-de-obra barata que utilizavam para os seus serviços e muitas vezes eram obrigados a pedir ao próprio beato Zé Lourenço que os mandassem trabalhadores. Para os coronéis da região isso era uma verdadeira afronta. Os padres salesianos e o bispado do Crato também continuavam sentindo seu poder ameaçado pela influência de Zé Lourenço.

Em 1934 morre o padre Cícero, que ainda mantinha a proteção sobre o sítio Caldeirão. No seu testamento o padre deixou a terra do Caldeirão para os padres Salesianos, não para o beato e o povo que morava nele. Nesse período, voltaram a circular na imprensa da região e do próprio estado várias acusações de todo tipo contra o beato. Por outro lado, padres Salesianos exigiam na justiça o despejo dos moradores da comunidade alegando que haviam recebido o terreno por herança.

A Intentona Comunista e o genocídio ao povo do Caldeirão de Santa Cruz do Deserto
Em 1935, sem que houvesse correlação de forças para isso e sem apoio da classe trabalhadora, o Partido Comunista Brasileiro (PCB), liderado por Luis Carlos Prestes e pelos militares que ele dirigia, e orientados diretamente pela direção estalinista da Internacional Comunista, tentam um golpe no Brasil para implantar um regime comunista no país. O golpe fracassa, e alguns comunistas de Natal, após a dura repressão do governo de Getúlio Vargas, se infiltram no Caldeirão para tentar se proteger. Foi a desculpa que faltava para destruir a comunidade.

Políticos da região, grandes proprietários de terra, a justiça e a Igreja juntam-se aos poderosos da capital e montam um plano de destruição contra o Caldeirão. Mas antes mandaram espiões. O Capitão José Bezerra foi até à comunidade disfarçado de comerciante e retornou com o relato de que o Caldeirão era um reduto de fanáticos comunistas e que deveria ser destruído com urgência.

A primeira expedição do Exército foi realizada em setembro de 1936. Inicialmente queriam oferecer passagens de trem para as famílias transportarem as bagagens e se retirar do local. O povo não aceitou. Os soldados cumpriram as ordens chegadas de Fortaleza. Queimaram 400 casas, as moagens e as roças. Nenhuma arma foi apreendida, ninguém tinha arma entre habitantes do Caldeirão. Os moradores foram mantidos presos em um curral por alguns dias esperando que o beato Zé Lourenço retornasse. Ele havia fugido antes da chegada dos militares para evitar ser preso. Antes de saírem, os soldados roubaram tudo que podiam levar. Uma mulher morreu porque, em protesto contra a atitude covarde dos militares, ateou fogo no próprio corpo.

Ainda em 1936, foram presos acusados falsamente de participarem do levante comunista de 1935, Severino Tavares, Isaias e o filho de Severino, Eleutério Tavares.

A segunda expedição ocorreu em maio de 1937, e encontrou resistência de um grupo liderado por Severino Tavares, que havia sido solto e acabou matando um capitão, seu filho, um sargento e um soldado. Outros soldados ficaram feridos. Três camponeses morreram, entre eles o próprio Severino Tavares. Os jornais noticiavam a morte dos militares como algo que deveria punido. O governo do Estado telegrafou pedindo reforço Federal e o próprio presidente Getúlio Vargas ordenou a destruição da comunidade, enviando soldados com metralhadoras e três aviões militares. A comunidade desarmada foi atacada por terra, por soldados do Exército e da polícia militar do Ceará portando metralhadoras, e bombardeada pelo ar com aviões de guerra. Foi a segunda vez que o governo do Brasil usou aviões de guerra contra civis. A primeira vez havia sido em outra rebelião no Sul do país, o Contestado.

Vítimas da segunda expedição

Cerca de mil trabalhadores, entre eles velhos, mulheres e crianças foram assassinados (os números oficiais indicam apenas 300 mortos, mas esses números são falsos). Os mortos foram enterrados em uma vala comum que até hoje o exercito e a polícia militar do Ceará se negam a dizer onde fica. O ex-prefeito da cidade de Juazeiro do Norte, José Geraldo da Cruz, após o massacre do Sítio Caldeirão, encontrou em um único lugar na Chapada do Araripe, 16 crânios de crianças. Após o massacre, houve a execução sumária de prisioneiros já rendidos. Os relatos indicam que mais de 100 foram degolados por um jagunço que fazia chacota enquanto os executava.

Relatos de pessoas que viveram aquela crueldade mostram que as mulheres lutaram bravamente. Muitas saíam das trincheiras em direção aos soldados com equipamentos de agricultores nas mãos e eram cortadas pelos tiros de metralhadoras. Um grupo delas avançou sobre um destacamento que havia tomado uma cacimba e todas foram metralhadas. Apesar da desproporção entre as forças dos militares e da comunidade, foram vários dias de luta de um povo que se negava a abandonar o lugar onde puderam viver livres da fome e da mão pesada dos coronéis. Onde tentaram construir uma comunidade sem classes sociais, em que tudo era de todos.

Sobreviventes do Caldeirão de Santa Cruz

Após o extermínio da comunidade, o beato Zé Lourenço ainda tentou reerguê-la em 1938, mas em algum tempo foi expulso por um mandato policial. Após isso ele vendeu seus pertences e comprou um pequeno terreno em Exú, no sertão de Pernambuco, onde viveu com alguns poucos seguidores em uma pequena comunidade que reproduzia os ideais de igualdade do Caldeirão. Em 1946 o beato Zé Lourenço morreu de peste bubônica, mas como dizia o poema de Patativa do Assaré que abriu esse texto “sempre haverá Conselheiro e Beato Zé Lourenço.” A nossa missão é manter viva a memória e a luta do beato e de tantos que morreram por esse ideal de igualdade.