O balanço da ocupação Santo Dias em debate

No Opinião Socialista nº 157, publicamos uma avaliação sobre a desocupação do terreno da Volks em São Bernardo do Campo (SP) pela polícia, que desalojou os sem-teto do acampamento Santo Dias. O dirigente do MTST João Batista Albuquerque, o Jota, nos enviou um artigo que publicamos abaixo, acompanhado de nossa resposta.

A verdade sobre o despejo e a resistência dos sem tetos em São Bernardo

João Batista Albuquerque,
da direção do MTST

O despejo das 3 mil famílias do acampamento Santo Dias fora determinado pela juíza da 4º vara civil de São Bernardo e cumprido no dia 07/08 pelo Batalhão de Choque da Polícia Militar da capital. Com um total de 800 homens da tropa de choque, cavalaria e infantaria com cães.

Orientamos o povo a fazer um cordão humano em volta da área simbolizando o interesse em permanecer no local. Às 10h a PM tensionou com empurrões nos advogados e parlamentares em frente ao portão principal, dando início ao clima de conflito que obrigou o povo a desmanchar o cordão humano e se deslocar para a portaria principal. Neste momento já havia entrado a cavalaria pelos fundos do acampamento agredindo acampados que corriam dos fundos para a frente do acampamento. Alguns já estavam com seus pertences nas mãos dizendo que não queriam violência. Pedimos ao coronel da polícia que retirasse as tropas para que fizéssemos uma assembléia decisiva. Eles pararam de tencionar mas posicionavam atiradores de elite com fuzis automáticos no telhado da Volks. Nós percebemos a marca vermelha da mira laser perpassando-nos a face durante o tempo que falávamos com o povo em assembléia. Sabíamos também que o governador Geraldo Alckmin havia feito pessoalmente contato com os diretores dos presídios da região deixando-os alerta às prisões que seriam efetuadas. Ao governo interessava a violência. Estava claro também quem iria ficar com as marcas dessa violência e, conseqüentemente, de quem seria a vitória se persistíssemos na idéia do conflito. A imprensa burguesa em todo momento mostrava-nos como um movimento violento, fazia relação entre a morte do repórter e nossa organização buscando criminalizar-nos, ao passo que, denunciávamos publicamente que os argumentos tendenciosos eram próprios de quem busca tratar as questões sociais com polícia e não com política. No auge do conflito que se instalava optamos pela saída pacífica.

Bem antes do despejo, nossos militantes se esforçaram no sentido de dar a qualidade necessária para que o povo pudesse resistir na área. Apoiando-se nos estudos de teoria da organização e nas práticas populares deram organicidade interna construindo brigadas e setores onde discutia-se os rumos do acampamento e desenvolvia-se cursos de formação política (como funciona a sociedade, análise de conjuntura etc). Foi um salto de qualidade na produção de consciência. Fomos vitoriosos porque o povo ainda não se dispersou. Essa ofensiva não freou a organização dos pobres de São Bernardo que seguem em reuniões massivas. Provamos com isso que o Estado burguês é incompatível à organização popular, responde a ela com seu aparato militar. Isso ocorre em nível municipal, estadual e federal. De modo que não temos dúvidas sobre o caráter do governo Lula. Mas, pressionamos o governo do estado de São Paulo e o prefeito de São Bernardo, que no momento se apresentaram como os principais defensores da grande invasora de terras brasileiras, a Transnacional Volkswagen.

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O despejo e a resistência sob o crivo da verdade

Emannuel Oliveira e Paulo Aguena,

do PSTU de São Bernardo do Campo (SP)

Em essência, a posição do companheiro Jota é de que a ocupação Santo Dias se desenvolveu sob uma correlação de forças desfavorável, não havia como organizar a resistência e, ainda assim, o movimento saiu vitorioso porque avançou em sua consciência. Não concordamos com essas conclusões e acreditamos que elas estão relacionadas com os debates que tivemos durante a ocupação sobre quem eram nossos inimigos e se devíamos ou não resistir.

Qual era a correlação de forças na qual se inseria a ocupação? Na nossa opinião, sentindo-se vitoriosos com a eleição de Lula, os trabalhadores encontraram forças para avançar na luta por suas reivindicações. Pegos de surpresa pelo seu “próprio governo”, meio milhão de servidores entraram em greve contra a reforma da Previdência. Primeiro 30 mil e depois 70 mil marcharam sobre Brasília. Os sem-terra, exigindo reforma agrária, realizaram no primeiro semestre 171 ocupações. Os sem-teto acompanharam essas ações realizando ocupações nos prédios e terrenos dos grandes centros. O acampamento Santo Dias era uma expressão desse movimento e ganhou dimensão nacional e internacional.

Onde estava a situação defensiva em julho/agosto? Infelizmente, na cabeça de diversos dirigentes dos mais variados setores da nossa chamada esquerda. Fazendo eco à pressão das classes dominantes – incluindo as que se encontram no próprio governo – que clamavam por “ordem”, o PT começou a ver nas mobilizações sociais o motivo de desestabilização. Passou a exigir o estrito cumprimento da lei.

Sob a pressão desta política, outros setores da esquerda começaram a frear e desviar as lutas. As ocupações foram uma a uma recuando, tanto na cidade como no campo, salvo as que resistiram a tal orientação. O latifúndio e a chamada direita foram ganhando terreno, voltando a assassinar lideranças sem-terra e, agora, não só José Rainha, mas também Diolinda, sua mulher, encontra-se presa.

A tática implementada no acampamento Santo Dias pela maioria da coordenação do MTST, consciente ou inconscientemente, foi prisioneira desta lógica defensiva construída a partir do Palácio do Planalto, estimulada pela própria direção do MST que pôde expô-la com todas as letras no próprio acampamento.

É a única explicação por ter poupado o PT e o governo das críticas e dos movimentos táticos que o pressionassem, quando boa parte da solução estava no Planalto – via Ministério das Cidades e Secretaria Nacional de Habitação, cujo secretário, Jorge Hereda, é da região. Ao limitar as exigências a Alckmin e ao prefeito, perdeu-se a oportunidade de aproveitar inclusive o compromisso feito por Vicentinho de entregar uma carta dos sem-teto a Lula, para encontrar uma solução.

É também a única explicação plausível para que durante os 20 dias de ocupação, com a repercussão que teve, não se preparasse nenhuma forma de resistência frente a uma possível reintegração. Não se pode afirmar que não havia disposição do movimento. A assembléia na noite anterior ao despejo votou pela resistência. É verdade que, de manhã, com a presença da repressão, uma nova assembléia realizada às pressas decidiu pela saída pacífica. Os sem-teto entenderam que uma dura batalha exigia uma direção mais segura.

A saída pacífica, seguida do espancamento dos sem-teto transportados nos caminhões desviados pela PM, a falta de um lugar para ter de pernoitar no Paço Municipal, a expulsão do Paço, a ida sob chuva para a Praça da Matriz, por fim nova “transferência” para a quadra da escola de samba Gaviões da Fiel, foi uma séria derrota.

É verdade que a guerra não está perdida. O movimento tem reservas e seguirá sua marcha em frente. Mas extrair as lições corretas das lutas de hoje é condição para as vitórias de amanhã. Entender quem é o inimigo e diferenciar uma derrota de uma vitória é uma pré-condição elementar.

  • Releia o texto publicado no Opinião Socialista nº 157

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