Nova Friburgo: uma cidade que tem medo

Moradores querem suas vidas de volta
Liomar Gomes Pinto

Córrego Dantes é uma das regiões mais atingidas pelas chuvas em Nova Friburgo. Uma família, a última que ficou naquela área de risco, está sendo intimada a deixar sua casa. Eles resistem mesmo sabendo dos perigos que estão correndo. Água e luz já foram cortadas, e a família diz que não vai sair. Além do casal, moram também dois filhos. O conselho tutelar já ameaçou tirar as crianças da mãe se não forem levadas para um local seguro.

Comunidade do Rui, outra área bastante afetada. Somos convidados para um aniversário. A dona da festa chegou a abrigar 80 pessoas que perderam suas casas. São 18h e começa a chover. Os dois companheiros presentes, Paulo, bancário de São Paulo, e Kellé, de Nova Friburgo, ficaram assustados, mas nada comparado com o desespero das crianças a cada trovão.

Poderíamos relatar outras centenas de casos. Hoje vivemos numa cidade que tem medo. Fatos como estes poderiam ser evitados se os governos colocassem em prática apenas uma das reivindicações dos cartazes do PSTU colados por toda cidade: abrir vagas nos hotéis para os desabrigados.

Os governos são os culpados
A Austrália também teve suas enchentes nesse começo de ano. Algumas áreas de Brisbane, ao sul de Quesland, receberam mais de 400 milímetros de chuvas, fazendo com que o total de chuvas acumulada em 13 dias superasse a marca de 800 milímetros. Lá na Austrália, foram 20 mortos.

Em Nova Friburgo, choveu 378 milímetros de 1º a 13 de janeiro de 2011. O número oficial de mortos foi 430. Aliás, número bastante contestado por toda a população. Um vereador da direita, dono de uma rede de TV local, fala em mais de 800 mortos. O dono de uma funerária deu uma declaração falando que liberou mais de 700 caixões. Famílias inteiras estão desaparecidas.

Outro número bastante grande é o de mutilados. Quando comparamos o número de mortos em Nova Friburgo com o da Austrália fica claro que os governos são os culpados. Após 50 dias da tragédia, muito pouco foi feito. Passaram por aqui os governos federal e estadual, centenas de engenheiros etc. Todos já tinham passado pelo Bumba, em Niterói, na tragédia idêntica em 2010. Apesar das promessas, nada fizeram lá.

Nova Friburgo virou um grande negócio capitalista para as empresas da área da construção civil, como Odebrecht, Queiróz Galvão, Delta e outras que vivem das desgraças alheias com suas obras sem licitações e a desculpa de reconstruir esses locais.

Dia 12 de março é marcado por ato público
No dia 12 de março, entidades que participam do Fórum Sindical e Popular de Nova Friburgo, como a CSP-Conlutas, o PSTU, sindicatos, associações de moradores, partidos de esquerda e ativistas do movimento popular organizaram um ato público na praça da cidade para marcar os dois meses da tragédia na região serrana do Rio de Janeiro. Os números de toda a região são alarmantes: mais de 900 mortos; 400 desaparecidos; 15 mil desabrigados.

Mesmo com toda a chuva dos últimos dias e por uma semana marcada pelo carnaval, a população de Nova Friburgo mostrou que não está disposta a seguir o conselho do secretário de obras da prefeitura. Numa sessão na câmara de vereadores, ele pediu para as pessoas que vivem em áreas de risco rezem para não chover.

A população, em resposta, foi às ruas cobrar dos governos federal, estadual e municipal as promessas feitas no início da tragédia, como a construção de 3 mil casas populares, já bastante ameaçadas com o corte de R$ 50 bilhões do orçamento feito por Dilma, sendo que R$ 5 bilhões eram do programa Minha Casa Minha Vida.

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