“No Haiti está se jogando o futuro da América Latina”

Em maio no ano passado uma comissão de entidades dos movimentos sociais foi ao Haiti e produziu o relatório “Missão Internacional de Investigação e Solidariedade com o Haiti”*. O Opinião entrevista Sandra Quintela, integrante da comissão que fala sobre asOpinião Socialista – Quais são as principais conclusões do relatório da Missão Internacional?

Sandra Quintela – O vínculo da discussão sobre a ocupação militar com a ocupação econômica do país. O Haiti é uma região onde estão disputando espaço entre os países “hospedeiros” de maquiladoras. Hoje há um corredor de maquiladoras pela América Latina, que vai do México até a América Central. Multinacionais estão instalados maquiladoras em zonas francas no Haiti. São 14 plantas industriais ao longo de toda fronteira com a República Dominicana.

O relatório também traz vários elementos para entender a situação geopolítica do Haiti, como as bases militares na região em Curaçao, Guantánamo e Arruba. É importante destacar que o Haiti está numa região estratégica, próximo de Cuba e da Venezuela.

OS – O que você opina sobre as eleições e as fraudes?

Sandra – Pela doutrina Bush o Haiti é um país ingovernável. Isso provoca uma série de conseqüências para o país. Nas eleições, só não votou quem não encontrou urna. Vale lembrar que o voto no Haiti não é obrigatório. O povo haitiano foi e compareceu à eleição, o que pra mim é um sinal claro da vontade de avançar na construção de sua soberania.

Foi impressionante a capacidade de resistência do povo. Quando eles viram que seu candidato, que estava com 70% da intenção dos votos, não conseguiu nem 49% na apuração, foram para as ruas defender a sua vontade e opinião. Algo que foi chamado de barbárie e vandalismo pela imprensa. As tropas da ONU, por outro lado, atiravam contra a população balas de borracha, com bombas sobre essa população.

OS – ‘Tá na hora de fazer uma campanha pela retiradas das tropas?

Sandra – Estamos fazendo essa campanha. Lançamos a campanha em Caracas [no último FSM]. Fizemos uma conferência com a imprensa para divulgar o relatório, no último dia 16. Não apenas as tropas brasileiras devem sair do Haiti. Devemos lutar para que todas as tropas estrangeiras saiam do país. E devemos construir um outro tipo de cooperação, ligada aos movimentos sociais. A questão das Zonas Francas é um problema seríssimo. O movimento sindical deveria assumir um combate internacionalista contra as maquiladoras. Isso é a ponta da neoescravidão humana. Além disso, tem que lutar contra as privatizações das terras que ocorrem no Haiti e expulsam os camponeses do campo. Devemos lutar também pelo cancelamento da dívida haitiana. O problema do Haiti não é militar. No Haiti está se jogando o futuro do que poderá vir a acontecer na América Latina.
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