No 8 de março, mulheres árabes nas trincheiras

Detalhe do 8 de março no Cairo

Após décadas de supressão, as mulheres voltaram a comemorar seu Dia Internacional de Luta, superando obstáculos e proclamando sua união na luta de outros setoresApesar da pluralidade do mundo árabe, e conseqüentemente das tendências dos protestos em cada país, há um grande fato novo: houve um 8 de Março no Oriente Médio. Nova em diversos países, ou retomada com força agora, a data de luta internacional das mulheres foi acolhida por inúmeras ativistas no mundo árabe, que saem às ruas para impulsionar as revoluções em curso e fazer reconhecer o papel central delas nas vitórias contra ditadores.

Repressão às mulheres no coração da luta egípcia
Entre as principais reivindicações das mulheres egípcias, cujo papel no movimento iniciado em 25 de janeiro é inegável, estão as punições mais duras contra abuso sexual, uma maior representação parlamentar (hoje são apenas 4; em uma conquista prévia à revolução, uma cota de 64 cadeiras, 12% do total, foi aprovada), e a possibilidade de concorrer à Presidência.

Um dos temas mais urgentes é a ausência de mulheres ou sequer homens com preocupações antimachistas na Comissão de Sábios que se propõe a reformar a Constituição. Este grupo reacionário chegou a propor proibir candidatos a presidentes que não fossem casados com mulheres egípcias – e por extensão, excluir candidatas mulheres.

As mulheres egípcias sofrem com dois problemas candentes: a violência sexual e a mutilação genital. A última vem sendo enfrentada por uma ampla articulação, que inclui organizações muçulmanas − pois o Corão não prescreve a mutilação do clitóris. Já o abuso sexual é tema tabu na sociedade, que encobre especialmente os casos de estupro marital e abuso infantil dentro da família. Hosni Mubarak, o ditador deposto, aplicou uma política de paulatina exclusão das mulheres do mercado de trabalho e desproteção jurídica para agradar a setores machistas conservadores, entre quais se contam lideranças islâmicas e cristãs.


Mulheres protestam no 8 de março no Egito

No entanto, após 30 anos de ditadura e neoliberalismo, o movimento egípcio ainda sofre com o histórico machismo no interior de suas fileiras. A convocação à marcha das mulheres foi recebida por alguns grupos como uma tentativa de divisão da revolução. Grupos de homens se reuniram para intimidar as manifestantes, provocando-as e perseguindo-as para fora da praça Tahrir. A força militar presente, longe de evitar, estimulou. Casos de assédio sexual foram reportados.

As mulheres egípcias estavam na luta revolucionária e por isso são agora alvos prioritários das tentativas de abrir espaço à contra-revolução. Tahani el-Gebali, primeira mulher a ser indicada juíza no Egito, em entrevista ao periódico Al-Masry Al-Youm, cita forças que querem sequestrar a revolução e impor uma agenda conservadora. “A celebração desta data simbólica foi sitiada para impedir que as mulheres tragam suas pautas para essa confluência revolucionária” .

Libanesas em solidariedade às domésticas filipinas
Reunidas pelo coletivo feminista Nasawyia, cerca de uma centena de mulheres e homens participaram da marcha “Tome de volta a noite” pelos bairros centrais de Beirute para protestar contra a atmosfera machista proibitiva nas ruas. Também nos ambientes de trabalho as libanesas são obrigadas a tolerar intimidação sexual e “exigências” estéticas dos chefes. Em um dos casos relatados a esse jornalista, durante uma entrevista de emprego a candidata foi requisitada a fazer uma cirurgia de nariz, ouvindo ainda do empregador que todo o resto do corpo estava já aprovado.

As organizações de mulheres no Líbano denunciam especialmente os abusos com empregadas domésticas do Sri-Lanka e Filipinas, trazidas para um ambiente de escravidão doméstica. Dependentes do visto “licenciado” pelas famílias, as trabalhadoras estrangeiras não podem sair da casa e muitas vezes são proibidas de ligar para casa. Um crescente número delas sofre abuso sexual e, humilhadas e encarceradas, acabam se suicidando.

Um outro caso evidente de como as libanesas são tratadas como cidadãs de segunda classe em seu próprio país é o impeditivo legal de darem cidadania libanesa a seus filhos. A batalha longa por direitos de maternidade vem dando alguns frutos, mas poucos projetos de revisão legal saíram do papel.

O coletivo Nasawyia é responsável também por uma campanha em TV e web com a personagem Salwa, a “respondona”, que aparece em situações de assédio sexual comuns como em táxis e filas, e sempre combate os assediadores.

Mulheres pela vitória da Líbia liberada
Um protesto massivo de dezenas de milhares de mulheres em Benghazzi marcou o Dia na capital rebelde líbia. Elas gritaram palavras de ordem de apoio à luta contra o ditador, como “Nenhuma negociação com Kaddafi!”, “O sangue dos nossos mártires não será em vão!”. Uma faixa conclamava a unidade contra Kaddafi e também contra a OTAN: “Nem Oriente, Nem Ocidente, Líbia apenas!” Novas organizações femininas vêm surgindo, como as Filhas de Omar Mukhtar, em homenagem ao mártir da resistência líbia à colonização italiana. Também há relatos de comitês de mulheres atuando febrilmente nas atividades da retaguarda das tropas, cuidando da logística e da alimentação do front.

Consolidação de novas organizações feministas na Tunísia
“Não há democracia sem igualdade!”, dizia slogan da Associação Tunisiana de Mulheres Democráticas durante os atos do dia 8 de Março. Uma expressiva luta vem sendo travada com o novo governo para exigir as reivindicações femininas. As várias organizações formadas antes e durante a luta que derrubou o ditador Ben Ali, como a Associação de Mulheres Tunisianas para Pesquisa e Desenvolvimento e o Coletivo Maghreb pela Igualdade, preparam agora um documento com todas suas reivindicações. Entre elas, a expansão da lei de cotas eleitorais conquistada pelas mulheres no regime anterior, e uma discussão ampla sobre leis que garantam a igualdade.