Não foi um acidente, foi um crime

Fotos Luciana Candido

Governos e empreiteiras que perpetuam a especulação imobiliária são responsáveis

O incêndio e o desabamento do prédio ocupado por sem-teto no centro de São Paulo marcou este 1º de maio de forma trágica. O Edifício Wilton Paes de Almeida, no Largo do Paissandu, foi tomado pelo fogo ainda na madrugada desta terça-feira e desabou destruindo o lar de 150 famílias que viviam ali. A cena de Ricardo, “Tatuagem”, desaparecendo em meio à fumaça e labaredas, chocou o país. Não se sabe ainda o exato número de mortes.

Os governos e a imprensa, como sempre, utilizaram o caso para criminalizar os movimentos sociais e os sem-teto, invertendo os papéis e fazendo das vítimas algozes delas mesmas. “O que temos que fazer é convencer as pessoas a não morar desse jeito“, afirmou o atual governador Márcio França (PSB). O ex-prefeito de São Paulo e atual pré-candidato à presidência, João Doria, foi ainda mais longe e disse que o prédio foi “invadido por uma facção criminosa”.

Só para lembrar, a administração Doria é investigada por cobrança de propina na área de iluminação pública. Sem contar o terreno de quatrocentos metros quadrados de Campos de Jordão que o prefeito playboy “ocupou” de forma irregular e teve que devolver à Justiça. Se há um lugar ocupado por facções criminosas são os palácios do poder: tanto a prefeitura, quanto o governo do Estado, o Congresso Nacional e o Planalto.

O presidente Temer até tentou se aproveitar de forma oportunista do incêndio, mas foi escorraçado pelos moradores e teve que fugir. O prédio em questão era da União, mas o governo federal nunca fez nada para solucionar o drama daquelas famílias.

Agora, como não bastasse, a prefeitura ameaça uma ofensiva contra as demais ocupações do centro da cidade utilizando a segurança como pretexto.

Responsáveis
As causas do incêndio e do desabamento ainda são nebulosas. Mas como afirma o movimento Luta Popular, “não sabemos a origem do incêndio (…) mas sabemos que é um crime que os governos submetam as pessoas a precárias condições de moradia, é um crime que existam mais imóveis vazios do que gente sem lugar pra morar, é um crime que não existam políticas habitacionais que realmente tratem a moradia como um direito, é um crime que a moradia seja tratada como uma mercadoria pra quem comprar“.

Seja um “acidente”, seja provocado de forma criminosa como tantos outros incêndios que misteriosamente atingem áreas alvo de especulação imobiliária, o que aconteceu em São Paulo nesta terça tem culpados sim, e não são os moradores. Os governos, tanto municipal, quanto estadual e Federal, que governam para os ricos e em benefício da especulação imobiliária, mantendo e perpetuando o déficit habitacional, são os verdadeiros responsáveis pelas cenas de terror que presenciamos nesse dia.

Lógica essa que simplesmente nega o direito à moradia a milhares de famílias, e expulsa cada vez mais outras milhares para as periferias das periferias das grandes cidades. Segundo a própria prefeitura, São Paulo tem um déficit de quase 1,2 milhão de moradias, contando as pessoas que não tem casa ou que moram em situação precária. Segundo a Secretaria de Habitação, com a verba atual para a construção de moradias, demoraria 120 anos para resolver o problema. Ao mesmo tempo, sobram imóveis vazios pela cidade.

Já o país conta com um déficit de 6,3 milhões de moradias, segundo a Fundação João Pinheiro. Por outro lado, há 7,9 milhões de imóveis vagos. O “Programa Minha Casa, Minha Vida”, carro chefe dos governos petistas, não solucionou o problema, que até cresceu nesse período. Apenas transferiu mais dinheiro para as grandes empreiteiras.

O drama das famílias sem moradia é uma das expressões mais bárbaras da crise e da guerra social contra os pobres. Por um lado há uma massa de pessoas vivendo nas ruas, ou de forma precária. Outras tantas convivendo com o medo constante de se ver no olho da rua, premidas pelo desemprego e os altos alugueis. Ou vivendo em ocupações e sob o medo constante das reintegrações ou das cada vez mais recorrentes remoções ilegais. De outro, há meia dúzia lucrando com tudo isso.

A solução para a crise de moradia nesse país passa pela desapropriação dos imóveis que servem hoje à especulação imobiliária, sem indenização. Passa também por um plano de obras públicas que garanta o direito à moradia digna para todos. Recursos para isso há, basta romper com a dívida pública que desvia metade do orçamento da União para os banqueiros. Mas para isso é preciso dar um basta, botar pra fora Temer, esse Congresso Nacional e as demais facções criminosas que, junto aos banqueiros e empreiteiras, submetem o povo pobre a um cotidiano de massacre e morte. Esse país precisa de uma rebelião.

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