Meu amigo Junior era bacana

Recebi há pouco em Roma, onde estou temporariamente trabalhando, a notícia do falecimento de meu amigo Sinésio Alves Junior. Embora tenha acompanhado tão perto quanto me era possível a luta de Junior contra o câncer e soubesse de seu estado crítico, sua morte deixou-me profundamente triste. Conhecendo-o há longo tempo creio que ele não gostaria disso. Todos perderam um exemplo de vida, muitos perderam um amigo, Dona Glória um filho, Mariane um companheiro, Ricardinho um pai. Eu perdi um cúmplice.

Encontramo-nos pela primeira vez em 1988, em Brasília. Ele era membro do Diretório Central de Estudantes, juntamente com Renato Guedes, Chico Villa e outros militantes da Convergência Socialista. Além de estudar, Junior era controlador de vôo em Brasília. “Ele sozinho para o país”, brincavam seus companheiros. A energia de Junior era motivo de piada entre os amigos e me impressionou. Não parou de falar, de contar histórias, de fazer mil coisas ao mesmo tempo.

Encontrávamos com freqüência nas reuniões e congressos do movimento estudantil e estabelecemos, apesar de nossas personalidades muito diferentes, fortes laços de companheirismo e amizade. Creio que foi no começo dos anos 1990 que Junior veio para São Paulo. Nos primeiros meses hospedou-se na casa de Nilza Ruth, que trabalhava comigo no jornal da Convergência e nos víamos com muita freqüência. Foi aí que ganhou o apelido de Bacana, uma expressão que usava frequentemente.

Sempre que nos encontrávamos conversávamos sobre a vida e uma parte importante das nossas, o partido. Junior enfrentou dificuldades para ser aceito no setor estudantil de São Paulo. Eram tempos de intensa luta política no interior da Convergência e foi visto, por vários, com desconfiança. Às vezes me procurava para conversarmos sobre isso, ou simplesmente para nos revermos. Sobre muitas coisas pensávamos de igual maneira. Éramos parte da mesma geração de militantes e tínhamos uma educação política similar, éramos, enfim cúmplices.

Essa cumplicidade fez com que embora tivéssemos passado longos tempos sem contato, sempre que o retomávamos pudéssemos conversar a partir de referências que não haviam mudado. Retomávamos nessas ocasiões projetos antigos e fazíamos novos planos em comum. Era como se a conversa fosse sempre a mesma. Com poucas pessoas de minha geração consegui construir essa cumplicidade.

Na crise da Convergência Socialista e da Liga Internacional dos Trabalhadores no começo dos anos 1990 um número considerável de companheiros e amigos nossos saíram de nossa corrente. Vários abandonaram a luta política. Outros continuaram, mas em outras trincheiras. Muitos seguiram um curso oportunista, aceitaram cargos nas administrações petistas, subordinaram-se à lógica eleitoral-parlamentar, transformaram-se em assessores sindicais ou de organizações não-governamentais.

Junior permaneceu na nossa corrente e ajudou a fundar o PSTU. Não permaneceu por habito, comodidade ou conveniência. Permaneceu por convicção. Como é comum em nosso partido, em mais de uma oportunidade manifestou seu desacordo com alguns aspectos da atividade política do PSTU. Durante os debates a respeito da fundação de um novo partido socialista, depois da posse de Lula conversamos mais de uma vez sobre a tática de nosso PSTU. Às vezes ligava-me de Londres, onde estava morando e tínhamos longas discussões a respeito. Quando o PSOL foi fundado teve sérias dúvidas sobre a adequação de nossa política e se perguntava se ela não era sectária, algo que abominava. Mas logo essas dúvidas foram desfeitas pela própria evolução oportunista do PSOL.

Em uma das primeiras vezes que o visitei após o diagnóstico de câncer manifestou-se com desdém a respeito da evolução do PSOL e conversamos sobre a dificuldade de construir uma política eleitoral para o PSTU que rompesse o isolamento e, ao mesmo tempo, fosse uma alternativa programática visível ao oportunismo predominante no PSOL. Falamos também com otimismo sobre a Conlutas e a reorganização do movimento sindical, assim como sobre o movimento estudantil da Universidade de São Paulo, onde havíamos estudado.

A doença avançava visivelmente, apesar de seu empenho em derrotá-la. Pudemos ainda conversar fluentemente algumas vezes e na última delas planejamos escrever a quatro mãos um artigo mapeando os resultados eleitorais do PSTU nos diferentes distritos eleitorais. Queríamos verificar em que estratos sociais a influência eleitoral do PSTU era maior. Quando o vi novamente já tinha grande dificuldade para dizer o que pensava, o que lhe provocava grande angústia. O artigo foi nosso último plano de cumplicidade.

Junior foi ferroviário, metroviário, controlador de vôo, ativista estudantil e pesquisador. Na maioria das vezes, como era do seu jeito, foi várias dessas coisas ao mesmo tempo. Sempre tive a impressão de que ele poderia ter sido o que quisesse ser na vida. Tinha inteligência e energia para tal. Mas o que ele era mesmo é socialista, companheiro e amigo. Um sobrevivente de uma geração de militantes que em sua maioria não soube manter seu compromisso com a luta pelo socialista nos anos de refluxo e recomposição do movimento. É por isso que ele é um exemplo. Não se vendeu e não se rendeu. Lutou até o fim pelo socialismo e pela vida.