Redação

No início da tarde deste sexta-feira, 6, várias organizações de esquerda, movimentos negros, sindicatos e movimentos populares se reuniram em frente ao prédio da Bolsa de Valores de São Paulo onde ocorria o leião do presídio de Erechim (RS).

Parte da política de privatização e PPP’s (Parceria Público-Privadas) do governo Lula, o leilão do presídio ocorre em parceria com o governo estadual de Eduardo Leite (PSDB). O acordo prevê financiamento do BNDES (Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social) para a construção do presídio e a sua concessão por 30 anos a uma empresa privada. A empresa que levou o leilão, a única a se apresentar aliás, foi a “Soluções Serviços Terceirizados”. O repasse de recursos públicos à empresa se dará “por cabeça”, ou seja, por presidiário alojado na unidade, o que aumenta a pressão pelo encarceramento em massa da juventude negra.

Leia também

Subindo a rampa, descendo à cova

Estamos aqui, em frente à Bolsa de Valores, porque neste momento os filhos da classe trabalhadora estão na iminência de se tornarem mercadorias nas mãos do empresariado, e pasmem, estamos vendo isso acontecer no governo Lula, que disse que não ia mais privatizar, mas autorizou a privatização do metrô em Belo Horizonte, e agora privatiza presídio junto com o governo tucano de Eduardo Leite“, denunciou Vera, dirigente do PSTU e ex-candidata à Presidência. “O Estado só aparece na periferia pra bater, pra matar, humilhar e encarcerar. No Brasil não tem cadeia pra ladrão rico, porque se fosse assim, os empresários, a maioria dos ricos, inclusive os banqueiros estariam lá, se cadeia fosse pra bandido, os vários governos estariam lá, inclusive Bolsonaro“, afirmou.

Esse projeto transforma cada presidiário num produto, numa mercadoria”, afirmou Cláudio Donizete, da Secretaria de Negras e Negros do PSTU e do movimento Quilombo Raça e Classe, filiado à CSP-Conlutas. Cláudio enquadrou a privatização do Presídio de Erechim no marco geral projeto privatista do Governo Federal de Lula e Alckmin, lembrando que a mesma portaria que permite a entrega dos presídios, também autoriza a privatização de uma série de serviços públicos, como saúde, saneamento e educação.

Vera Dalzotto, da Pastoral Carcerária, expressou sua decepção com o governo Lula. “Qual é a razão de avançar ainda mais a privatização dos presídios, que já é em grande parte privatizado? Esperávamos uma política abolicionista, mas o que estamos vendo é justo o contrário, é mais privatização, e com isso vamos ter ainda mais tortura e uma privação ainda maior dos direitos de pessoas que já tem seus direitos negados“, denunciou numa fala emocionada.

Os nossos jovens, o nosso povo é quem está sofrendo com toda essas privatizações, o nosso povo deveria estar sendo tratado com respeito e dignidade, e a privatização não vai garantir isso, já vimos isso“, afirmou Maria Cristina Quirino, mãe de Denys Quirino, uma das vítimas do massacre promovido pela PM num baile da Zona Sul da cidade em 2019, e hoje uma das lideranças do movimento Mães de Paraisópolis.

Para cada quatro pessoas presas, uma não tem julgamento, 70% das pessoas presas são pretas e pardas“, afirmou Thiago Torres, o “Chavoso da USP”, influencer e ativista, chamando atenção para o perfil racista do encarceramento promovido pelo Estado e a polícia. Além de denunciar a privatização e o encarceramento, Chavoso exigiu a legalização das drogas, a justificativa utilizada pelo Estado para assassinar e encarcerar jovens pretos da periferia.

Israel Luz, do Comitê Brasilândia Nossas Vidas Importam e militante do PSTU ressaltou que o incentivo à privatização dos presídios é um incentivo, na verdade, ao encarceramento em massa. “A empresa que vence o leilão ganha por pessoa presa, isso significa que a situação hoje, em que o Brasil já tem a terceira maior população carcerária do mundo, vai piorar muito“, afirmou. “Esse protesto é o primeiro passo, contra a privatização e pelo fim do encarceramento em massa e o fim dessa política racista do Estado capitalista“, finaliza.

Presença ostensiva da PM

Apesar de simbólico ao reunir algumas dezenas de ativistas, a manifestação contou com a presença ostensiva da Força Tática da Polícia Militar, que deslocou ao menos seis viaturas ao local. A PM fez questão de exibir seu armamento e anotou os dados dos organizadores a fim de intimidar os manifestantes.