Mais uma chacina no Ceará revela falência da segurança pública no estado

Foto Sinpol-ce

A madrugada do dia 27 de janeiro de 2018 virou um cenário de terror no bairro de Cajazeiras, periferia de Fortaleza. Foi a maior chacina da história do Ceará. 14 pessoas foram mortas no local, muitos outros ficaram feridos e, dos que foram encaminhados aos hospitais da cidade, 4 morreram.

Já no início de 2018 havia ocorrido uma outra chacina, em Maranguape, em Serra Pelada, onde 4 pessoas foram encontradas mortas com a hipótese de um suposto crime de facções locais. Ano passado, outra chacina deixou 6 pessoas mortas em Porto da Dunas em Aquiraz. Também ano passado, 4 adolescentes foram retirados do centro de semi-liberdade mártir Francisca no bairro Sapiranga e executados. Há 2 anos, 11 pessoas foram assassinadas na grande Messejana. E ainda em 2015, 6 pessoas de uma mesma família foram encontradas mortas na região rural de Sobral.

Em entrevista para um dos jornais da cidade, o Secretário de Segurança, André Costa, falou do ocorrido como um “fato isolado”. E ainda disse: “No mundo todo há evento que matam pessoas em boates. É uma situação criminosa, que foi organizada, planejada e veio a ser executada“. O secretário referiu ainda que “não há perda de controle” da violência no Estado para as facções.

Não estamos diante de um caso isolado. O Ceará chegou à marca de 5.114 assassinatos em 2017, 50% a mais que 2016. Já são 10 anos de taxas crescentes de homicídios. Nos últimos anos, além de jovens negros da periferia, os crimes vêm fazendo mais vítimas também na população LGBT e nas mulheres da periferia. Na caipital do Estado, Fortaleza, os homicídios mais do que duplicaram em relação aos anos anteriores. A maioria esmagadora, ocorreu nos bairros da periferia da cidade.

Os conflitos de território nos quais o tráfico de drogas é a grande motivação tem tido um grande aumento em toda a região Nordeste nos últimos anos. No Ceará e principalmente na sua capital, a realidade tem sido mais cruel. Segundo o relatório “Trajetórias Interrompidas” lançado pela Assembleia Legislativa do Ceará, os homicídios acontecem a 500 metros de casa; 73%, no próprio bairro. De todas as mortes, 44% acontecem em apenas 18 dos 119 bairros da capital, 3% da área da cidade.

A verdade é que existe um caos na segurança pública e um aumento do crime organizado no Estado, diferente do que o Camilo Santana (PT) quer mostrar através de seu Secretário de Segurança. Se dividirmos o número de assassinatos que aconteceram em 2017 pelos dias do ano vamos perceber que foram cometidos 14 assassinatos ao dia, ou seja, já vivemos uma chacina diária.

Fortaleza tem o título da capital brasileira onde mais são assassinados adolescentes de 12 a 18 anos, sendo considerada a capital mais perigosa do Brasil para adolescentes. Associado a essa realidade de violência está o aumento do índice de desemprego e a piora dos serviços públicos. O crescimento de quase 20% de roubos e furtos em 2016/17 chegando a mais de 130 mil casos registrados é também reflexo disto.

Os governos se mostram insuficientes em resolver o atual problema. Todos eles implementam uma política de aumento da repressão e encarceramento da juventude pobre e negra. O que nenhum dos governos tem como prioridade é acabar com a base em questão, a miséria e a segregação de camadas da população pobre e jovem das periferias, que sofrem as consequências da ambição capitalista com desemprego e falta de perspectivas. As reformas da Previdência e trabalhista e o congelamento de gastos públicos feitos por Temer e Camilo Santana vão piorar essa situação.

A política de segurança pública do Governador do Estado, Camilo Santana que tem como foco a construção de mais presídios e aumento do efetivo da PM já deu sinais de que não vai resolver o problema. É preciso ter política pública para atacar a raiz do problema, atacar os altos índices de analfabetismo e evasão escolar, a miserabilidade e a fome, as taxas crescentes de desemprego, o caos na saúde pública, a ausência de lazer para os jovens da periferia. É preciso dar um futuro para o nossa juventude para que ela não seja presa fácil para o crime organizado.

Para combater de verdade o crime organizado é preciso em primeiro lugar discutir a questão das drogas. Temer, Camilo Santana e André Costa tratam o problema das drogas como uma questão de polícia e repressão, uma verdadeira guerra à periferia. Isso está errado e nunca vai resolver o problema. É preciso legalizar o consumo de drogas e colocar o controle de sua produção e comercialização nas mãos do Estado, para que seja tratado como um problema de saúde pública, não como caso de polícia. Isso retiraria a fonte de renda e de poder do crime organizado e o Estado cuidaria da saúde de usuários.

Outro problema que precisa ser discutido a fundo é o da polícia. O Governo não dá educação, saúde e emprego para a população, mas enche a cidade de policiais para reprimir os jovens negros da periferia. É necessário desmilitarizar a PM e criar uma Polícia Civil única controlada pela população, com direito de sindicalização, greve e eleição de oficiais. E mais que isso, o próprio povo pobre precisa ter o direito de se defender das arbitrariedades do crime e da própria repressão do Estado, para isso é necessário liberar o porte de armas e garantir treinamento. Não podemos esperar apenas que o Estado através de sua polícia nos defenda, o próprio povo pobre precisa organizar sua defesa.

Situações como essa, que revoltam a população e que tiram a vida de jovens inocentes nos fazem ver a podridão desse sistema. É preciso lutar para colocar abaixo o sistema capitalista que se sustenta sob o racismo e a desigualdade social. Se faz urgente a construção de uma sociedade socialista com um governo dos trabalhadores e do povo pobre.