Mais uma cena de barbárie em Vigário Geral

O desaparecimento de oito jovens em Vigário Geral, desde dezembro, é mais um lamentável episódio na história de uma comunidade marcada pela violência do tráfico e da polícia. Não necessariamente nesta ordemEm agosto de 1993, foram muitos os que ficaram estarrecidos com as cenas da “Chacina de Vigário Geral”, na qual um grupo de extermínio formado por policiais militares, autodenominado ‘Cavalos Corredores’, matou 21 moradores para vingar a morte de quatro policiais do 9º Batalhão da PM.

No dia 13 de dezembro, os moradores de Vigário Geral passaram por outra madrugada de terror quando dezenas de casas foram invadidas e oito jovens, entre 13 e 27 anos, foram brutalmente retirados de suas moradias por cerca de 20 homens, a maioria deles vestidos com fardas da Polícia Militar, em mais um episódio de barbárie. Um drama que, passado mais de um mês, ainda está longe de terminar.

Naquela madrugada, outros três moradores também foram seqüestrados, mas, depois de um “julgamento”, foram liberados. Em relação à maioria dos desaparecidos não consta nenhum indício sobre a participação no tráfico. E, segundo testemunhas, tudo indica que a escolha dos jovens foi totalmente aleatória.

Por outro lado, desde o início desta escabrosa história, sobram indícios de que a polícia esteve diretamente envolvida no seqüestro. Além dos uniformes (que mesmo que tivessem sido usados como “disfarces”, foram fornecidas por alguém), que posteriormente foram encontrados e pertenciam ao 3º Batalhão da Polícia Militar, testemunhas disseram que o comportamento e linguajar dos seqüestradores eram típicos de policiais. A mãe de um garoto de 15 anos que foi seqüestrado, por exemplo, revelou que os homens falaram que “quem não estivesse devendo nada“ voltaria para casa vivo.

Além disso, sabe-se que menos de uma hora antes do crime, a polícia havia estado em Vigário Geral – num “caveirão”, o assustador e temido blindado usado pela PM carioca – numa operação feita supostamente à procura de drogas.

O fato “intrigante” desta história é que, dois dias depois, um jovem de 16 anos foi preso – em uma casa que teria sido usada para torturar e, provavelmente, assassinar os garotos – e afirmou que o seqüestro foi feito por traficantes auxiliados por PM´s, quatro deles pertencentes ao Destacamento de Policiamento Ostensivo de Parada de Lucas. E mais: que ele e um traficante conhecido como “Furica”, pouco antes de invadirem as casas – acompanharam toda a ronda da PM de dentro do “caveirão”.

Se isto não bastasse, um dos principais suspeitos pelo seqüestro e assassinato dos jovens, um traficante apelidado de Açougueiro (devido sua habilidade em esquartejar vítimas) chegou a ser preso durante a reconstituição do seqüestro, em dezembro. No entanto, ele foi solto por policiais militares do Posto de Policiamento Comunitário de Parada de Lucas.

Segundo testemunhas, os dois policiais teriam recebido R$ 50 mil pelo serviço prestado aos traficantes. Já os ocupantes da guarita que fica entre as duas favelas teriam ganho entre R$ 900 e R$ 1.500 para fazer vistas grossas para a atividade dos assassinos.

A polícia por sua vez, alega que seqüestro aconteceu devido a rivalidade entre os traficantes da favela vizinha, Parada de Lucas (pertencentes ao Terceiro Comando), e os controladores do tráfico em Vigário Geral, liderado pelo Comando Vermelho. Segundo o chefe da Polícia Civil, delegado Álvaro Lins, os traficantes de Parada de Lucas, avisados da operação policial, se “fardaram e aproveitaram o momento em que os traficantes de Vigário Geral estariam recolhidos, por causa da ação que ocorreu pouco antes, para agir“. (Folha de S. Paulo, 15/12/05).

Uma história cuja veracidade é mais do que questionável, não só pelos indícios anteriores, mas também pela atitude na polícia desde então.

A suspeita lentidão da polícia
Apesar da intensa pressão que está sendo feita pelas mães dos desaparecidos e demais moradores de Vigário Geral, a polícia tem agido com uma lentidão mais do que suspeita.

A primeira busca em Parada de Lucas só foi feita três dias depois do seqüestro e somente mais de um mês depois do crime (no dia 16 de janeiro), o suposto mandante, o traficante “Furica” (Cauã da Conceição Pereira), foi preso.

Além disso, apesar de que desde dezembro existirem denúncias e evidências de que os corpos dos garotos tenham sido jogados em um córrego que fica nos fundos da favela, somente esta semana a polícia aventou a possibilidade de fazer uma drenagem local. Algo, contudo, que ainda não foi realizado sob a alegação de que os equipamentos não podem chegar ao local.

Indignada com o descaso da polícia, uma das mães apontou corretamente o que está por trás da lentidão nas investigações: “Não foi o filho da governadora que desapareceu. Foram os filhos de umas marias-ninguém de Vigário Geral. Se fosse alguém importante, já teriam encontrado”. (“O Globo”, 25/1/05).

Já sem esperanças de encontrarem seus filhos vivos, as mães de Vigário Geral ainda têm conviver com o descaso da policia, por um lado, e as ameaças dos traficantes, por outro.

Segundo a “Folha de S. Paulo”, de 24 de janeiro, um grupo delas foi ameaçado ao sair de um depoimento na 41ª delegacia de Polícia: “Elas contaram que iam para o ponto de ônibus, quando um homem, que seria o Nego [sucessor de Furica] passou em um carro e disse que mataria uma delas para dar o exemplo”.

No mesmo dia, advogado João Tancredo, que está acompanhando as famílias, sofreu uma ameaça semelhante, durante um seqüestro relâmpago. A possibilidade de que a ameaça tenha sido armada pela polícia não é pequena. João Tancredo é conhecido por casos envolvendo crimes policiais. Foi ele, por exemplo, que representou parentes das vítimas da chacina de Vigário Geral em 1993 e da chacina da Baixada Fluminense, em março de 2005.

Barbárie sem limites
Além disso, e apesar da lentidão das investigações, a divulgação de detalhes do que ocorreu com os jovens tem provocado extremo sofrimento para essas mulheres, seus parentes e demais moradores.

Testemunhos dos jovens que foram liberados dão conta de que os demais foram brutalmente torturados. Segundo os relatos, depois de espancarem violentamente os oito desaparecidos, os seqüestradores cortaram a língua dos rapazes; depois, cada um dos dedos das mãos; em seguida, as orelhas e, por último, o nariz. Outras denúncias apontam para o fato de que eles foram esquartejados e seus corpos foram jogados aos porcos ou num córrego.

Depois de muita insistência, as famílias conseguiram que, no dia 24 de janeiro, a polícia finalmente desse uma busca numa casa indicada por um dos moradores que foi liberado pelos assassinos. Lá, além peças de roupa, foi encontrado um cômodo coberto com cimento fresco, o que indica que os garotos possam ter sido enterrados no local. Contudo, mais uma vez a polícia postergou a investigação, escavando apenas um pequeno buraco no local.

Enquanto isto, a possibilidade de mais gente inocente morra é enorme. Já foram interceptadas escutas telefônicas em que os chefes do tráfico de Vigário Geral prometem vingar as mortes, investindo contra os moradores de Parada de Lucas.

Além de tudo isso, até mesmo os sobreviventes da chacina tiveram suas vidas totalmente afetadas pelo episódio. Os três que foram “absolvidos e liberados” tiveram que se esconder. E, segundo o jornal “O Globo”, de 22 de janeiro, as mães dos desaparecidos enfrentam dificuldades diárias: “Uma viu como única opção manter o silêncio e não fala com a imprensa. Outra perdeu o emprego e teve que abandonar sua casa, mesmo fora da favela, por medo de represálias. Duas estão com os filhos fora da escola (…) São pelo menos 20 pessoas que ficaram marcadas pelos acontecimentos do dia 13.

O clima de pânico é generalizado. E isto irá continuar assim enquanto, diante da miséria crescente e do descaso dos governos municipal, estadual e federal, os moradores das comunidades carentes do Rio de Janeiro (e do país afora) continuarem a mercê de uma polícia corrupta e violenta e de criminosos que ostentam a condição de serem “organizados” por contarem exatamente com a conivência das instituições do Estado que deveriam proteger a população.

Somente a organização e a auto-defesa dos moradores poderá garantir um futuro sem novas chacinas. Como também, é cada vez mais urgente o desmantelamento de aparato policial que, comprovadamente, mantém relações mais do que espúrias com a criminalidade.