Mais um líder sindical é assassinado no Sudeste do Pará

Pedro Laurindo da Silva, 46 anos, casado, pai de três filhos e esposa grávida de seis meses. Era coordenador do acampamento Zumbi dos Palmares, foi assassinado por volta das 19:30h da noite de ontem, com dois tiros na cabeça, em uma das principais ruas do bairro pioneiro de Marabá.

Pedro veio do acampamento para Marabá, para participar de um seminário sobre Violência e Direitos Humanos, promovido pela Sociedade Paraense de Defesa dos Direitos Humanos. Ao final do dia, Pedro se dirigiu para a sede do Sindicato dos Trabalhadores Rurais, onde estava hospedado. Após o jantar, foi convidado por um dos diretores do STR para irem até um orelhão fazer uma ligação telefônica. Quando voltavam para o Sindicato, a cerca de 200 metros do STR, o pistoleiro Valdemir Coelho de Oliveira, se aproximou pelas costas da vítima e disparou dois tiros em sua cabeça.

O pistoleiro saiu correndo e, por acaso, foi visto por um policial civil que estava em uma lanchonete próxima ao local. O policial então solicitou reforço e o prendeu a cerca de mil metros de onde ocorreu o crime.

Na delegacia o pistoleiro contou uma historia fantasiosa. Disse que matou o sindicalista porque teria repassado a ele R$ 500,00 por um lote e ele não teria recebido a terra. Uma versão previamente montada por pistoleiros e fazendeiros da região para confundir as investigações e desviar o foco das atenções da população. Plantando a idéia que as mortes são resultado de conflitos internos. O pistoleiro estava trabalhando como vaqueiro da fazenda Cabo de Aço e foi visto pelos acampados por várias vezes na fazenda.

Pedro Laurindo coordenava o acampamento Zumbi dos Palmares com cerca de 150 famílias. Reivindicam a desapropriação da Fazenda Cabo de Aço, localizada a 50 Km de Marabá. O acampamento já dura três anos. No mês de maio, a Polícia Militar de Marabá realizou o despejo das famílias. A ação foi questionada pelos Movimentos Sociais porque este tipo de operação só é realizada pelo batalhão de choque de Belém, para evitar o que aconteceu no Massacre do Eldorado. Decisão tomada pelo Conselho de Segurança Pública do Estado. A ação foi uma demonstração clara de poder do fazendeiro junto à polícia e a justiça local.

Na tarde de ontem, ainda no seminário, Pedro denunciou a violência utilizada pela polícia para despejar as famílias, uma filha sua quase morreu queimada pelo fogo ateado pela polícia nos barracos. Ainda no seminário, Pedro confidenciou a um colega do Sindicato que estava recebendo ameaças de pessoas ligadas à fazenda. Esse fato foi confirmado por depoimentos de vários trabalhadores acampados.

No mês de março Pedro denunciou as ameaças que vinha sofrendo para a coordenação estadual do programa Nacional de Proteção dos Defensores de Direitos Humanos, em reunião realizada em Marabá. Nada foi feito. No início do mês de abril, Pedro e um grupo de acampados, conseguiram prender dois pistoleiros da fazenda, que rondavam o acampamento armados de revolveres. Os dois foram entregues à polícia civil de Marabá. Nada aconteceu.

Desde 1999 que Pedro lutava para conseguir um pedaço de terra para viver com sua família. Foi despejado pela polícia por quatro vezes. Morreu sem realizar o sonho. Infelizmente, se soma a centenas de outros pais de família que já foram assassinados na região na luta pelo justo direito a terra.

A situação de ameaças e mortes ficou mais grave após a mega operação de despejo realizada pela polícia militar na região nos meses de junho a setembro. Mais de quatro mil famílias foram expulsas dos latifúndios improdutivos. Saiu a polícia e ficaram os pistoleiros nas fazendas. Para impedir novas ocupações os pistoleiros procuram eliminar as lideranças.

A morosidade do INCRA, a parcialidade da polícia e a certeza da impunidade abrem caminho para a ação violenta de pistoleiros e fazendeiros e colocam em risco dezenas de lideranças ameaçadas de morte na região.

Marabá, 18 de novembro de 2005.

FETAGRI Regional Sudeste.
Comissão Pastoral da Terra – CPT de Marabá.
STR de Marabá.
FASE Programa Amazônia.
Sociedade Paraense de Defesa dos Direitos Humanos.
MST.
CEPASP.