Mais estranho que a ficção

Cena do filme: encontro entre Harold e Jules
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Harold Crick (Will Ferrell) é um auditor da Receita Federal cuja rotina diária é minuciosamente cronometrada por seu relógio. O relógio, a narradora onisciente do filme e o próprio Harold detalham tudo em números e gráficos, como a quantidade de escovadas nos dentes pela manhã, o número de passos até o ponto de ônibus, o tempo exato da pausa para o almoço em seu trabalho. Na tela, gráficos transparentes surgem sobrepostos às cenas.

Harold tem uma vida medíocre, sem sobressaltos, sem namorada ou amigos. Mora, come e dorme sozinho. E é esta vida que a narradora do filme “Mais estranho que a ficção”, dirigido por Marc Forster, vai descrevendo.

A narrativa está tranqüila até que Harold começa a ouvir a narradora, bem como seus comentários e interpretações poéticas sobre cada um de seus passos e pensamentos rotineiros. Harold tenta discutir com a narradora, questionar quem ela é. Como qualquer narrador onisciente, ela não responde a nenhum dos questionamentos feitos pela personagem.

Além deste fato inusitado, entra em sua vida a dona da padaria que ele deveria fiscalizar, Ana Pascal (Maggie Gyllenhaal). É divertido ver Harold, em sua análise, tentando descobrir se sua história com Ana é uma tragédia ou uma comédia conforme as características literárias.

Quem o auxilia na busca pela narradora e na tentativa de compreender a narrativa de sua própria vida é o professor e especialista em teoria literária, Jules Hilbert (Dustin Hoffman). O filme conta, paralelamente, a história desta narradora, a escritora Karen Eiffel (Emma Thompson), que sofre um bloqueio criativo e não publica uma linha há mais de dez anos porque não sabe como matar a personagem de seu livro “Morte e impostos”.

Do riso à subversão
Além de ser uma comédia brilhante e inesperada por suas características metalingüísticas, “Mais estranho que a ficção” usa elementos e cenas sutis para criticar e satirizar o governo Bush, suas guerras e seus impostos exorbitantes, a burocracia, os psicólogos e a psicologia, a universidade como instituição, ou mesmo a natureza e existência de Deus (quem mais onisciente que ele?). Também é um filme que reflete sobre o medo da morte, o livre-arbítrio, os sonhos abandonados no decorrer da vida.

Há piadas sutis, como quando Harold leva uma caixa com farinhas (flours em inglês), ao invés das tradicionais flores (flowers, mesma pronúncia) para conquistar a padeira. É um filme estranho, como o próprio nome diz, que subverte a estrutura narrativa e os clichês das comédias românticas, derruba a autoridade do autor e dá poder à personagem para questionar sua própria situação na história.

Personagem x autor
Ao compreender-se como personagem, Harold decide tomar as rédeas e interferir em sua própria história, deixar de ser marionete. A ruptura assemelha-se e dá contemporaneidade à revolução narrativa que Luigi Pirandello (1867-1936) realizou no teatro, ao tirar seus personagens de seu distanciamento com o autor e com o público.

Na peça “Seis personagens à procura de um autor”, de Pirandello, seis personagens rejeitadas por seu criador original tentam convencer um diretor de teatro a ser autor e encenar suas vidas. As discussões entre as personagens e o diretor se transformam numa análise do teatro. O diretor-autor e as personagens discutem sobre o que é real e o que é ficção, o que é a arte e a representação.

A idéia central da peça de 1921, escrita por Pirandello, ressurge moderna e cômica no filme de Marc Forster, onde a arte fala sobre a arte. A metalinguagem é um elemento e uma brincadeira tão presente que o filme critica seu próprio final, que, nas palavras do professor, não é o melhor de toda a literatura, mas é bom.

FICHA TÉCNICA
Título Original: Stranger than Fiction
Gênero: Comédia
Tempo de Duração: 113 minutos
Ano de Lançamento (EUA): 2006
Direção: Marc Forster
Roteiro: Zach Helm
Produção: Lindsay Doran
Música: Britt Daniel e Brian Reitzell
Fotografia: Roberto Schaefer
Desenho de Produção: Kevin Thompson
Direção de Arte: Craig Jackson
Figurino: Frank L. Fleming
Edição: Matt Chesse

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