Calou-se neste sábado, 8 de agosto, uma das vozes mais marcantes nas últimas décadas em defesa dos povos indígenas e tradicionais, e dos setores mais explorados e oprimidos da sociedade, que se levantou também contra os anos de chumbo da ditadura. Dom Pedro Casaldáliga, bispo emérito da Prelazia de São Félix do Araguaia (MT), faleceu aos 92 anos no interior de São Paulo deixando um exemplo de coragem de alguém que fez a opção de estar de forma incondicional ao lado dos mais pobres e oprimidos.

Por esta opção, que o levou a uma intensa atuação política, principalmente a partir da década de 1970, foi perseguido pela ditadura e por latifundiários. Catalão, foi ameaçado de expulsão do país diversas vezes, teve sua cabeça colocada a prêmio e sobreviveu a atentados de grileiros e latifundiários, além da repressão do regime militar. Isso não o impediu de se levantar contra as injustiças e desigualdades sociais, tendo presença fundamental na organização da Comissão Pastoral da Terra (CPT) e no Conselho Indigenista Missionário (CIMI).

Apesar de não compartilharmos a mesma organização e uma estratégia de revolução socialista, a honestidade, coerência e coragem que sempre se guiou nos aproximava muito. Valores estes que o fizeram, por exemplo, se enfrentar com os governos do PT como na construção de Belo Monte ou na regulamentação das terras indígenas.

Fragilizado pela idade e o Parkinson, Dom Pedro nunca abandonou as trincheiras da luta que escolheu desde cedo travar. Seu legado está eternizado não somente em suas ações, mas em versos em que expressou sua luta pelos explorados e a esperança de um futuro sem desigualdades. Num momento em que vivemos a barbárie capitalista aprofundada pela pandemia, e uma ofensiva do latifúndio contra indígenas, ribeirinhos, quilombolas, insuflada pelo governo Bolsonaro, seu exemplo de luta e dignidade deve ser ressaltado por todos que lutam.

A Terra dos Homens
que caminham por ela,
pé descalço e pobre.
Que nela nascem, dela,
para crescer com ela (…)
Malditas todas as
propriedades privadas
que nos privam
de viver e de amar!
Malditas sejam todas as leis,
amanhadas por umas poucas mãos
para ampararem cercas e bois
e fazer a Terra, escrava
e escravos os humanos!