Leia a nota da seção peruana da LIT-QI sobre o massacre de índios no Peru

No dia 5 de junho, o exército e a polícia peruana atiraram contra indígenas que bloqueavam uma estrada no interior do país. O protesto era justamente contra a privatização de áreas na região. Os indígenas afirmam que sequer foram consultados conforme determina a OIT. Pelo menos 150 manifestantes ficaram feridos e 40, mortos segundo a Associação Interétnica de Desenvolvimento da Selva Peruana, principal entidade indígena do Peru.

“As comunidades indígenas estão em greve há 60 dias defendendo a soberania sobre suas terras e o meio ambiente, ameaçados por dez decretos emanados do Palácio sem consulta nem legalidade”, informa o Partido Socialista dos Trabalhadores (PST), seção peruana da Liga Internacional dos Trabalhadores – Quarta Internacional (LIT-QI).

Na prática, os índios estão sendo expulsos de suas terras. O objetivo do governo Alan García é garantir os acordos do Tratado de Livre Comércio (TLC). Transnacionais têm se instalados nas terras em disputa.

Em nota, o PST afirma que “a greve indígena contra os Decretos Legislativos assinala um caminho de luta para derrotar esta ofensiva do governo e dos empresários. (…) o que está em jogo é a afirmação de um governo apoiado nas forças repressivas e nos setores mais reacionários que tentam por ordem a sangue e fogo a fim de aplicar seu plano de ajuste e manter os ganhos das multinacionais e dos capitalistas”.

Abaixo, publicamos a íntegra da nota do PST.

PERU: FORA O ASSASSINO ALAN GARCÍA!

O único responsável pelo massacre é o governo. Unidade até a vitória da luta indígena e o atendimento das reivindicações operárias e populares!

Partido Socialista dos Trabalhadores, seção peruana da LIT-QI

García articulou um feroz massacre contra nossos irmãos indígenas em Bagua, deixando um saldo indefinido de mortos, feridos e desaparecidos.

Corpos baleados e queimados foram jogados no rio Marañón. Homens, mulheres e crianças foram perseguidos e muitos baleados em suas casas por helicópteros em ação de guerra. Foi uma exibição massiva e planificada das forças especiais da polícia em apoio ao estado de emergência e respondendo às ordens ditadas por Alan García.

Esta ação assassina consternou e desencadeou uma ampla solidariedade com a luta amazônica em nível mundial. García vira-se de costas para o mundo. Junto com seus porta-vozes, empenha-se em acusar os indígenas de culpados, a quem qualifica de assassinos, bárbaros e criminosos. Apresenta a situação como produto de agitadores, inicia uma perseguição ao dirigente Alberto Pizango e, em sua loucura, responsabiliza inclusive os países vizinhos.

A verdade é que o único responsável pelo genocídio, inclusive dos policiais vitimados em legítima defesa ou como vingança, pelos nativos, é Alan García e ninguém mais.

As comunidades indígenas estão em greve há 60 dias defendendo a soberania sobre suas terras e o meio ambiente, ameaçados por dez decretos emanados do Palácio sem consulta nem legalidade. E não só os jogam de um lado para outro, como os insulta e os ameaça. Alan García finalmente deu a ordem de disparar para restituir a ordem e afogar em sangue o justo apelo amazônico.

O massacre em Bagua somente começou. García tem mais sede de sangue. Por trás de suas mentiras e da homenagem que rende aos policias caídos (contrastando com seu desprezo pela vida das dezenas de indígenas mortos) está incitando a ação impune das forças repressivas contra os indígenas em luta. Não pensa em retroceder, não tenta um mínimo acordo, sequer escuta aos opositores oficiais.

Alan García, entregue aos interesses vorazes das multinacionais, deseja impor a sangue e fogo o que não pode fazer por bem. Sua veia assassina já aflorou quando ordenou disparar nos operários de Retamas, o que resultou em dois mortos, nos operários de Casapalca onde assassinou outros quatro, e também quando levou a morte à heróica cidade de Tacna levantada contra sua arbitrariedade. Suas credenciais de genocida estão na Comissão da Verdade que o acusa pelo massacre de mais de cem presos em El Frontón durante seu primeiro governo.

García está louco? Não. Simplesmente, por trás da sanguinária derrota da luta indígena o que busca é a derrota do conjunto do movimento operário e popular para impor a aplicação não só de seus decretos contra a selva, senão a entrega dos portos, a privatização da água, as demissões em massa, o congelamento dos salários de fome e a redução dos direitos trabalhistas.

A queda do PIB por dois trimestres consecutivos evidenciou que o Peru entrou em recessão e que o desenvolvimento da crise econômica levará ao fracasso o chamado Plano Anticrise, trazendo mais demissões e ajustes para os trabalhadores.

A greve indígena contra os Decretos Legislativos assinala um caminho de luta para derrotar esta ofensiva do governo e dos empresários. Por isso, depois da greve indígena, vem a greve mineira anunciada para o 15 de julho e outras lutas como a dos portuários e de setores populares.

Por esta razão, hoje, além do destino da luta indígena contra os Decretos do TLC, o que está em jogo é a afirmação de um governo apoiado nas forças repressivas e nos setores mais reacionários que tentam por ordem a sangue e fogo a fim de aplicar seu plano de ajuste e manter os ganhos das multinacionais e dos capitalistas.

A direção da Central Geral dos Trabalhadores do Peru (CGTP) deixou a luta amazônica isolada. No entanto, no movimento de massas, salta à vista a responsabilidade das direções nacionais, em particular a direção de Mario Huamán da CGTP, por ter deixado a luta dos povos da Amazônia, isolada durante 50 dias, enquanto García preparava o massacre.

A direção da CGTP tem mantido a classe operária refém de seus planos eleitorais para Ollanta Humala, promovendo a dispersão das lutas. Toda a política da direção nacional da CGTP e da oposição nacionalista, foi centrar seus esforços em diálogos infrutíferos e em gestões parlamentares quando, tratava-se de unificar a luta em torno da greve indígena.

A conformação da chamada “Frente em defesa da soberania e da vida”, com a participação da Assembleia das Organizações Indígenas do Peru (AIDESEP), CGTP, Confederação Nacional Agrária (CNA), CCP, CAOI etc., e a convocação para uma Jornada Nacional de Luta no dia 11 de junho, ainda que tardio, foi um passo fundamental que temos de apoiar e fortalecer.

Mas hoje já não basta a solidariedade com a luta amazônica nem a reivindicação de revogação dos dez decretos privatizadores da selva. Hoje, trata-se de derrotar o governo assassino de García, seu plano econômico antioperário e antipopular, que é motor e motivo de sua atual escalada repressiva.

Por isso, pedir a renúncia de Simon e Cabanillas, como faz Mario Huamán, é pedir uma mudança de seis por meia dúzia. É salvar a pele do verdadeiro assassino e culpado pelo banho de sangue que corre no país: Alan García.

Unificar as lutas na greve geral
A realidade tem superado em muito a atitude conciliadora da direção da CGTP que ainda hoje continua hesitando em convocar ou não uma greve nacional.

Não há outra saída para a luta indígena, nem para o conjunto das lutas operárias e populares contra a ofensiva patronal, a não ser enfrentar García e o governo de forma decidida e por meio da greve geral que unifique e centralize a mobilização nacional em torno das reivindicações mais importantes do movimento de massas:

  • revogação dos dez decretos antiselva e da lei que privatiza a água;
  • não à privatização dos portos;
  • reintegração de todos os demitidos;
  • renacionalização da Doe Run;
  • aumento salarial de 100%.

    Esse é o exemplo que nos dá a IV Cúpula Amazônica, realizada em Tarapoto, no último fim-de-semana, que votou o início da greve geral por tempo indeterminado em toda a Amazônia a partir de 11 de junho.

    A Frente em Defesa da Soberania e da Vida, que deve permanecer aberta à participação ampla das organizações operárias, camponesas, indígenas e populares, deve assumir plenamente a condução desta luta unificada de todo o povo, constituindo-se de fato num Comando Nacional e Unificado de Luta que leve à vitória as justas reivindicações dos povos da Amazônia, dos operários mineiros e demais setores explorados e oprimidos do país que, indignados pelo massacre orquestrado pelo governo García, hoje mais do que nunca podem ver com clareza o inimigo e entender a urgência de colocá-lo para fora.

    Lima, 8 de junho de 2009