Juventude e Revolução

Turbulentos, perigosos, contestadores. Quando se trata de enquadrar a juventude, os adjetivos são sempre muito parecidos. O jovem é visto como um rebelde, um revoltado, que está sempre se recusando a aceitar as coisas que lhe são impostas. Isso até que nãIntrodução

Exigir o impossível

Guitarras e canções

Socialismo com democracia


INTRODUÇÃO

Desde a primeira metade do século passado que se comenta de um mal-estar da juventude. Talvez por ainda não estarem ligados diretamente às estruturas da sociedade, os jovens sempre resistiram em aceitar passivamente o que a burguesia e os governantes tinham a lhes oferecer. Na maior parte das vezes, o que se vislumbrava adiante era uma vida massacrante e sem sentido, regida pela exploração e pela lógica hipócrita da moral burguesa. Muitos recusaram a oferta, e esta recusa foi expressa por diferentes gerações e de diferentes formas.

A geração que viveu depois da Primeira Guerra Mundial sofreu o impacto da Revolução Russa e lutou para derrubar o capitalismo. A geração seguinte lutou e derrotou o nazismo e o fascismo nos campos de batalha e nas mobilizações de rua. Milhões de jovens morreram defendendo a liberdade contra o mais monstruoso totalitarismo da história da humanidade.

Mas a revolta da juventude também se expressou muitas vezes em explosões de ódio sem objetivo. Como em uma tarde de 1956, quando a avenida principal de Estocolmo foi invadida por grupos de jovens que quebraram vitrines, viraram automóveis e montaram barricadas. Tudo sem nenhum motivo aparente, sem nenhuma reivindicação definida. Este tipo de explosão violenta é marca de nossos dias. É dada pela falta de perspectivas, pela dificuldade em se integrar às estruturas existentes, mas, se não evolui em seu caráter, permanece apenas como sinônimo de delinquência, condenada à brincar de gato e rato com a polícia. Frente a situações semelhantes, um amplo setor da juventude respondeu de uma maneira progressiva, aparecendo como um movimento próprio e questionando o seriamente o sistema.

Exigir o impossível!

Talvez o maior destes fenômenos tenha sido o Maio de 68 na França, uma ampla mobilização que influenciou radicalmente as estruturas da sociedade francesa e que captou como nunca o espírito de insatisfação da juventude. As frases deixadas nos muros da capital francesa iam do confuso “Tenho uma coisa para dizer, mas não se o que é“ até o “Sejamos realistas: exijamos o impossível!“.

Meses antes, o movimento teve inicio por uma reivindicação inusitada. Influenciados por uma palestra de Wihelm Reich, cerca de 60 estudantes de Nanterre ocuparam o alojamento feminino exigindo o direito de dormir com suas namoradas. A partir daí, um verdadeiro furacão sacudiu Paris e outras cidades da França. Exigiam melhores condições de ensino e de trabalho, questionavam o regime repressivo da V República e o próprio capitalismo. No olho deste movimento, jovens que se enfrentaram com a polícia no Quartier Latin, convocaram os operários da Renault e de outras empresas a engrossarem o movimento, o que influiu decisivamente para a convocação de uma greve geral. Em poucos dias haviam se tornado o inimigo número um do presidente Charles De Gaulle.

O Maio de 68 não atingiu somente os estudantes franceses. Suas atitudes impulsionaram uma onda de mobilizações em todo o mundo. No Brasil e em outros países da América latina, o movimento estudantil protagonizou sucessivas e numerosas manifestações. Pelos lados de cá, lutava-se por liberdades democráticas, combatendo regimes militares, instalados em muitos países do cone sul.

No ponto alto das mobilizações no Brasil, a passeata dos Cem Mil, a juventude era o setor mais importante na resistência. Depois de um ano de intensos combates nas principais capitais do país, a falta de lutas da classe operária isolou os estudantes e facilitou a decretação do AI-5 e o consequente endurecimento do aparato repressivo do estado, levando finalmente à derrota do movimento estudantil.

Por todo o mundo, a juventude cumpria papel de destaque e aparecia como um movimento contestatório. Nos Estados Unidos, por exemplo, se iniciou a forte campanha contra a guerra do Vietnã, com protestos de rua e os concertos do movimento hippie. Com esta pressão crescente em seu país e com as inesperadas vitórias militares dos vietcongues nas florestas, o Tio Sam não teve outro jeito senão retirar-se do conflito.

Guitarras e canções

A Força do movimento hippie demonstra como muitas vezes este “mal-estar“, este inconformismo da juventude desemboca na música e em outras manifestações culturais. As bases para o movimento hippie nos EUA já haviam sido deixadas mais de uma década antes, pelos beatniks. O movimento beat expressou antes os questionamentos ao modo de vida burguês. Em “On the Road“, um relato autobiográfico de Jack Kerouac, o país é atravessado de costa a costa, numa rotina de experimentações e descobertas, que mais tarde seria repetida pelos hippies. O Rock também foi sinônimo desta revolta, ajudando a expressar angústias e aspirações juvenis. E, em letras ácidas, o movimento Punk cantou a morte da família Real Inglesa, símbolo da opulência em uma sociedade em que a falta de perspectivas dos jovens de subúrbio era expressa em três acordes.

Socialismo com democracia

Não foi apenas contra as formas de vidas carcomidas do capitalismo que a juventude se levantou. Do lado de lá do muro, a juventude incomodou os burocratas stalinistas, numa demonstração cabal de que socialismo não pode existir com privilégios e falta de democracia. Também em 1968, a Primavera de Praga, movimento que exigia liberdades e que foi sufocado pelos tanques russos, fez com que milhares de militantes comunistas em todo o mundo rasgassem suas carteirinhas do partido. Os tanques não impediram que o colapso das burocracias stalinistas prosseguisse.

Em 1989, tanques foram chamados para conter os estudantes chineses, em vigília na praça da Paz Celestial. E novamente havia um jovem disposto a se colocar na frente da coluna de tanques. Havia jovens em tantos outros países do Leste Europeu, ganhando os soldados para seu lado e derrubando muros, como nas mobilizações estudantis na Tchecoeslováquia.

São muitos os exemplos de como a juventude não está disposta a aceitar passivamente o receituário burguês: a Intifada palestina, onde adolescentes enfrentaram soldados israelenses com pedras; a revolta de Soweto, na África do Sul, onde secundaristas se levantaram contra o apartheid; o movimento dos estudantes brasileiros pelo Fora Collor. Todos indicam que a revolta juvenil só encontra consequência sob a bandeira do socialismo.

(Texto retirado da Revista Ruptura Socialista n°0)