Israel Luz, de São Paulo (SP)

No dia 3 de maio, a região da Brasilândia foi cenário de mais um protesto contra a violência policial. Desta vez, as famílias de Samuel Mohamed e do auxiliar de produção Lucas Mirtzrael se manifestaram cobrando respostas pela prisão sem provas dos rapazes.

Samuel
Lucas

Entenda o caso

Samuel e Lucas foram presos sob a acusação de participarem do golpe do falso encontro e do pix em 28 de janeiro. Mas os dois passaram grande parte do dia em casa, saindo algumas vezes só para comprar em uma adega vizinha.

À noite resolveram fumar na viela próxima e, pouco depois, foram surpreendidos por uma viatura da PM que buscava um carro roubado. Dentro do veículo estava um corretor de imóveis, vítima do golpe. Ao avistar a polícia, todos que estavam no local correram. Dá para entender: na periferia você pode apanhar da PMSP ou até sofrer algo pior, mesmo sem dever nada.

Perseguidos, os dois rapazes acabaram presos junto com uma terceira pessoa.                                                                                                                                                        Na delegacia, nem Lucas, nem Samuel foram reconhecidos pela vítima. O outro preso, de fato identificado como um dos assaltantes, também afirmou não os conhecer.

Posteriormente, as famílias conseguiram imagens da câmera da adega que reforçam o que têm dito: os trabalhadores passaram o dia em casa e em suas proximidades, bem distante do local do crime.

Protesto faz parte da campanha pela absolvição

O único elemento em que se baseia a prisão dos dois trabalhadores é o relato dos policiais que participaram da ação. Nessa cadeia de violência racista e de classe, cada instituição até agora, das polícias ao judiciário, contribuiu para manter os rapazes encarcerados.

Diante desse nítido abuso de poder do Estado, o protesto pacífico do dia 3 de maio foi muito importante. Com cartazes e panfletos contando a história, familiares, amigos e o movimento Brasilândia Nossas Vidas Importam/Brasilândia em Luta cobraram justiça. Até o julgamento de Lucas e Samuel no final de maio, outras ações serão realizadas.

Polícia e Record tentam criminalizar a manifestação

Já na concentração do protesto, a forte presença policial impressionou. Pelo menos 12 carros, motos e um helicóptero estavam no local. Chegamos a cogitar que haveria alguma operação importante. Mas logo ficou nítido que toda aquela preparação era para tentar intimidar os presentes.

Ao mesmo tempo, o programa sensacionalista Cidade Alerta contava uma história bem longe da realidade. O apresentador Luiz Bacci, depois de associar toda a região da Brasilândia a uma facção, mostrou imagens de outro ato afirmando ser o mesma organizada pelas famílias.

Como explica Adailza, mãe de Lucas:

“Nossa manifestação ocorreu de início das 17h20min até às 18h10min no máximo na Av. Deputado Cantidio Sampaio na altura do número 2549. E a manifestação que a TV Record fez a reportagem foi na Av. General Penha Brasil”.

Nesse segundo protesto, houve fechamento da rua e fogo em sacos de lixo. Era o que o Bacci precisava para cobrar ação enérgica da polícia. Esse vale tudo pela audiência foi feito às custas da verdade e de uma luta justa. Até a tarde deste dia 4, a reportagem permanecia no site do R7.

Isso é uma nítida tentativa de criminalizar o protesto. Utiliza um velho discurso que associa os moradores da periferia e a Brasilândia, em particular, à criminalidade. O objetivo é convencer a opinião pública de que toda violência do Estado é válida aqui. Não podemos permitir que isso aconteça.

Passe-livre para a violência do Estado

É sintomático que tudo isso se dê agora, em meio ao aumento da violência policial no estado de São Paulo. De acordo com dados analisado pela Ponte Jornalismo, as mortes praticadas pelas polícias Civil e Militar subiram 7% no 1º trimestre de 2023.

Há poucas semanas, o secretário de Segurança Pública de São Paulo, Guilherme Derrite, declarou no Roda Viva: “eu entendo que o policial, num confronto, é sempre a primeira vítima”. Na mesma ocasião, negou que a PM seja uma instituição racista. Essas afirmações mostram o que está por trás dos números.

Ao que tudo indica, o governo Tarcísio (PL) está dando um passe-livre para o abuso das polícias. O alvo é o mesmo de sempre: as periferias, em particular negros, negras, indígenas e trabalhadores pobres em geral.

A luta continua

Se eles se valem do medo, nós ousamos ter coragem. E a coragem é um sentimento coletivo. Não vamos aceitar que inocentes sejam presos e famílias sejam destruídas. Levantaremos nossa voz contra o racismo do Estado dos ricos. Justiça para Lucas e Samuel!