Julho das Pretas: Mês de rebeldia e independência de classe

Com Cláudia Durans, da Secretaria Nacional de Negras e Negros

O dia 25 de julho, Dia da Mulher Negra Latino-americana e Caribenha, começou a fazer parte do calendário de lutas em 1992, durante o 1º Encontro de Mulheres Afro, Latino-americanas e Caribenhas, na República Dominicana.

No Brasil, essa data se estende para homenagear Tereza de Benguela e o dia 31 de julho, Dia da Mulher Africana. Nada mais justo que chamar este mês de Julho das Pretas. Este ano, a articulação das mulheres negras propõe que o 25 de Julho celebre os 30 anos da história do movimento de mulheres negras no Brasil, fazendo alusão à 1988, quando ocorreu o 1º Encontro de Mulheres Negras.

Reconhecemos a história desse movimento no combate à invisibilidade e à discriminação a que estão submetidas as negras, assim como os esforços em resgatar a história de luta e a identidade da mulher negra. A atuação de algumas entidades que compõe esta articulação, porém, tem supervalorizado instâncias governamentais, ONGs, fóruns estaduais e internacionais, levando a um processo de institucionalização dessas entidades.

O grande orientador dessas políticas é a ONU, que dissemina a ideologia do empreendedorismo e do empoderamento individual para ocupar as oportunidades que o sistema oferece: parlamento, secretarias de governos, ONGs. Não é por acaso que a ONU tem reconhecido algumas entidades e eleito ativistas para serem porta-vozes desse projeto, reforçando a conciliação com o Estado, os governos, as empresas e os patrões. Ou seja, dissemina a ideia de que é possível combater o racismo e as demais opressões dentro do capitalismo.

Nessas parcerias, empresas como Coca-Cola e Lojas Renner são vistas como exemplares. Contudo, essas duas empresas são conhecidas por práticas de racismo e violação de direitos humanos. Em 2014, 37 funcionários bolivianos foram resgatados em condições de trabalho escravo numa fábrica da Loja Renner em São Paulo. A loja também foi obrigada a tirar de circulação uma camiseta com a estampa carnavalesca “foi mal, estava doidão”, que naturalizava a violência sexual.

A Coca-Cola, que chegou a criar um produto só para brancos do Sul dos EUA durante o regime segregacionista, tem um longo histórico de opressão e exploração. Em 1999, 10 funcionários da empresa apresentaram queixas por crimes de racismo nos EUA.

Mais do que parceira, a ONU é um braço político de empresas racistas e imperialistas como a Coca-Cola. Vale lembrar que foram a Nações Unidas que promoveram a ocupação militar do Haiti, liderada pelo Brasil, que resultou em estupros, mortes e repressão (leia nas páginas 12 e 13).

A forma como a ONU trata a questão da opressão da mulher negra serve apenas para desviar a atenção dos problemas reais provocados pelo capitalismo. Campanhas em redes sociais fazem parte dessa estratégia. Por essa lógica, basta dar visibilidade às personalidades negras para que o racismo e o machismo sejam superados. Porém não se trata apenas de identidade, do saber e do poder, tampouco do respeito. Não se elimina o racismo transferindo esse tema para o campo da moral burguesa e das relações pessoais, transformando problemas impostos pela dominação e humilhação capitalista numa guerra de sexos e de raça no interior da classe trabalhadora.

A CONTA DO CAPITAL
Crise atinge mulheres negras

Só no Brasil, do final de 2014 até o final de 2017, a taxa de desocupação entre as mulheres negras passou de 9,2% para 15,9%. Esse é o resultado da saída da crise imposta pelos capitalistas e seus governos. O ajuste fiscal, a diminuição dos investimentos em políticas sociais, retirando direitos com a reforma trabalhista, atingem principalmente as mulheres negras.

Entre 2005 e 2015, constatou-se que 52% das mortes das chamadas intervenções legais ou operações de guerra eram de mulheres negras. As mulheres também são a maioria entre a população carcerária feminina, com um aumento de 680% nos últimos 16 anos. Também são as mais afetadas pelo desemprego que assola o país. Os responsáveis por essa tragédia são o capitalismo e seus governos, de Collor a Temer, passando por FHC, Lula e Dilma.

No Julho das Pretas, é preciso seguir o exemplo de Dandara, Luiza Mahin e Tereza de Quariterê, que se rebelaram contra a escravidão sem nenhum acordo com os nossos algozes. Para garantir o direito à vida das mulheres negras, é preciso construir uma rebelião socialista.

SEM RESPOSTA
Mais de 100 dias da execução de Marielle e Anderson

Já se passaram mais de 100 dias da execução de Marielle e Anderson, no Rio de Janeiro, e até agora nenhuma solução para o crime foi dada. Todos os sinais apontam para o envolvimento da polícia, de milicianos e de políticos. Além de esse crime não ter sido solucionado, aparecem cada vez mais sinais de que autoridades agem para não o resolver mesmo.

É inadmissível que esse bárbaro assassinato resulte em impunidade. A execução de Marielle simboliza o que o povo pobre e negro vive no seu dia a dia: uma guerra social promovida pelos governos e pela burguesia. São vítimas do massacre em massa promovido pela PM. Vivemos num verdadeiro cativeiro social.