Jornadas de Julho: Os bolcheviques se deparam com um levante

Assembleia dos sovietes em Petrogrado

Os acontecimentos de junho e julho de 1917 são marcados por enorme tensão social. Depois  e derrubar o czar em fevereiro e organizar os sovietes por toda a Rússia, os operários, soldados e camponeses esperavam o fim da guerra, a reforma agrária, a diminuição da jornada de trabalho e o fim da fome. Mas nada disso aconteceu.

O governo provisório, que desde de maio era composto também pelos maiores partidos de esquerda da Rússia (os mencheviques e os socialistas-revolucionários), não atendeu a essas reivindicações e ainda fez o país voltar para a guerra.

O governo e os partidos da esquerda reformista tentavam frear a revolução e impedir que o proletariado e os sovietes tomassem o poder, pois desejavam consolidar um regime democrático burguês.

Porém, como dizia o ditado do nosso inesquecível Mané Garrincha, “faltou combinar com os russos” ou, melhor ainda, com a classe trabalhadora russa. A massa de trabalhadores compreendia, rapidamente, que não havia sido suficiente derrubar o regime czarista para conseguir suas reivindicações.

Tropas russas foram obrigadas a voltar para a Primeira Guerra Mundial

Contudo, havia uma desigualdade tremenda na experiência que os trabalhadores russos faziam com os reformistas, que dirigiam os sovietes. No começo de junho, os delegados do Primeiro Congresso Nacional dos Sovietes aprovaram uma resolução de apoio ao governo e à retomada da ofensiva militar russa na Primeira Guerra Mundial (1914-1919). Os delegados bolcheviques não eram mais do que 20% desse congresso. Do outro lado, os operários e os soldados da capital Petrogrado estavam mais radicalizados e cada vez mais passavam a apoiar a proposta de “todo poder aos sovietes” defendida pelos bolcheviques. Os bolcheviques eram minoria em todo o país, mas, em Petrogrado, já eram a corrente política mais forte.

Durante os trabalhos do congresso, a edição do Pravda, principal jornal bolchevique, caiu como uma bomba. O jornal convocava uma manifestação para o dia seguinte, 10 de junho. O pânico se instalou entre os reformistas. O líder dos mencheviques declarou: “se medidas não forem tomadas pelo congresso, o amanhã será fatal!”.

A iniciativa para a manifestação veio da organização militar dos bolcheviques. “Seus dirigentes afirmaram, muito corretamente, como mostraram os eventos, que se o partido não tomasse a liderança para si, os soldados sairiam por si sós às ruas”, explicava Trotsky.

Os operários de Petrogrado pressionavam o partido por uma insurreição. Mas a direção achava aquilo precipitado, e que poderia levar a derrota. Lenin permanecia firme em sua posição de explicar pacientemente a todo o proletariado russo o caráter traidor do governo provisório.

Nessa manifestação, os bolcheviques levantariam a bandeira de “poder aos sovietes”, mas também a palavra de ordem “abaixo os dez ministros capitalistas”. Isso era uma exigência aos mencheviques e socialistas-revolucionário (SRs) para que rompessem sua coalizão com a burguesia. A procissão marcharia até onde estava o congresso. Isso enfatizaria que a questão não era derrubar o governo, mas pressionar os líderes do soviete.

Alarmados, esses partidos fizeram com que o congresso dos sovietes aprovasse uma resolução proibindo a manifestação. Delegações foram enviadas aos bairros operários e quartéis para impedir que ela ocorresse. Diante disso, e temendo uma ruptura com os sovietes, os bolcheviques desistiram do protesto.

“As massas obedeceram à decisão dos bolcheviques, mas não sem indignação e protestos. Em certas fábricas, adotaram-se resoluções de censura ao comitê central. Os mais fogosos membros do partido nos bairros rasgaram seus cartões de militantes”, conta Trotsky.

Para dar vazão à revolta das massas, o congresso dos sovietes convocou uma mobilização para 18 de junho pela “paz universal” e “apoio a democracia”. A manobra dos mencheviques era clara: transformar a manifestação num ato de apoio ao governo.

Os bolcheviques aceitaram o desafio. “Nós nos uniremos à manifestação do dia 18”, escrevia o Pravda, “para lutar pelos objetivos pelos quais pretendíamos nos manifestar no dia 10”. Mais de 400 mil marcharam em Petrogrado. Para todo lado, via-se faixas e bandeiras com as palavras de ordem dos bolcheviques: “Abaixo os dez ministros capitalistas!”, “Abaixo a ofensiva militar!”, “Todo poder aos sovietes!”. O triunfo dos bolcheviques era óbvio. Suas propostas eram defendidas pela esmagadora maioria daqueles que estavam nas ruas. Mas as coisas ficariam ainda mais quentes no mês seguinte.

Dias de fúria nas ruas de Petrogrado
Em 3 de julho, uma unidade militar, o 1º Regimento de Metralhadoras, enviou delegados às demais unidades militares de Petrogrado e às fábricas para buscar o apoio dos soldados e dos operários para uma manifestação armada. O objetivo era claro: a derrubada do governo provisório e a transferência do poder aos sovietes. Algumas unidades de soldados se recusaram a participar do plano. Contudo, milhares de operários toparam a ideia.

O movimento cresceu e pressionou os bolcheviques. A organização militar do partido tinha tentado deter os protestos, mas sem sucesso. No começo da noite, os soldados sublevados já controlavam a estação de trem e as pontes. Caminhões armados percorriam a avenida Nevsky, a principal da cidade. Ao mesmo tempo, milhares de operários e soldados se dirigiam em passeata ao centro da cidade. Não havia como conter os protestos. Por isso, os dirigentes bolcheviques decidiram apoiar as manifestações. Aliás, parte da base do partido já havia se unido aos manifestantes.

Os bolcheviques decidiram, então, dirigir a multidão até o Palácio Tauride, sede da direção dos Sovietes, para apresentar as exigências dos manifestantes: a derrubada do governo provisório e a transferência do poder aos sovietes. Mais de 70 mil cercaram a sede dos sovietes e pediram que sua direção tomasse o poder. Obviamente, os mencheviques e SRs, que dirigiam o soviete, se recusaram a fazer isso. Queriam sim reorganizar o governo de conciliação de classe com a burguesia.

O dia 4 amanheceu em clima de greve geral em Petrogrado. Ninguém foi trabalhar, e as ruas estavam tomadas por manifestações, conflitos e tiroteios com grupos de extrema direita. Apavorados, os ministros do governo, sem nenhum apoio nas fábricas ou de soldados, se refugiaram no estado-maior do Exército. Tropas foram chamadas da frente de combate para reprimir as manifestações, mas só chegariam no dia seguinte. Enquanto isso, o ministro da Justiça decidiu publicar uma investigação em que acusava Lenin de ser um agente alemão. Essa seria a primeira importante ação contra os bolcheviques, que visava criminalizá-los. Mais tarde, outras mentiras e calúnias foram utilizadas pelo governo para prender os líderes bolcheviques.

Para acabar com o protesto, o soviete enviou o dirigente socialista-revolucionário e ministro da Agricultura, Victor Chernov. O dirigente quase foi linchado. O pior só não aconteceu por causa de uma rápida intervenção de Trotsky, que tinha grande confiança dos operários, soldados e marinheiros, e conseguiu libertar Chernov.

No dia 5, o Pravda afirmava que as greves e manifestações previstas para o dia haviam sido desconvocadas. Os protestos perderam força, e a repressão começaria naquela mesma manhã, quando um destacamento militar arrasou a redação do Pravda. Mais tarde, a própria sede do partido foi cercada por forças militares pró-governo. Após o fim das manifestações, foi emitido um mandado de prisão contra Lenin, Zinoviev e Kamenev. Lenin passou para a clandestinidade, pois sabia que a burguesia queria vê-lo morto.

As Jornadas de Julho terminaram em repressão e prisão de muitos bolcheviques. Mas, nem de longe, isso colocaria um ponto final na revolução. Os próximos meses guardariam novas surpresas e demonstrariam o enorme e explosivo potencial da classe operária russa.


Por que os bolcheviques não tomaram o poder em julho?
Mas por que os bolcheviques não tomarem o poder em julho já que havia disposição entre parte do proletariado e dos soldados? Trotski responde a essa questão: “A direção do partido estava completamente certa em não tomar a via da insurreição armada. Não é suficiente tomar o poder – deve-se mantê-lo. (…) Em julho, nem mesmo os operários de Petrogrado possuíam ainda a disposição para uma luta indefinida. Embora capazes de tomar o poder, eles, contudo, ofereceram-no ao Comitê Executivo [direção dos Sovietes formada majoritariamente pelos mencheviques e SRs]. O proletariado da capital, embora inclinado para os bolcheviques em sua esmagadora maioria, ainda não rompera o cordão umbilical de fevereiro que o ligava com os conciliadores. Muitos ainda nutriam a ilusão de que tudo poderia ser obtido por palavras e manifestações que, por intimidação dos mencheviques e socialistas-revolucionários poderia pressioná-los até uma política comum com os bolcheviques”.

Depois de ter a prisão decretada, Lenin caiu na clandestinidade. Para não ser reconhecido, passou a andar disfarçado

O proletariado russo, e muito menos os soldados e camponeses, não era politicamente homogêneo. Se os bolcheviques tivessem tomado o poder em julho, certamente não teriam condições de mantê-lo.

Para Lenin, o único erro dos bolcheviques naqueles dias foi que o partido ainda “considerava possível um desenvolvimento pacífico da transformação política por meio de uma mudança política por parte dos sovietes”. Para ele, “os mencheviques e socialistas-revolucionários já estavam ligados ao compromisso com a burguesia, e a burguesia se tornou tão contrarrevolucionária que não era mais possível falar de um desenvolvimento pacífico”.