Iraque alcança marca de 2 mil mortes de soldados dos EUA

Rosto de Bush, feito com fotografias de soldados mortos no Iraque
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Os ataques dos últimos dias no Iraque levaram o número de vítimas dos soldados norte-americanos à marca – simbólica – de 2 mil mortos desde a invasão, em 2003. O anúncio ocorreu horas depois que a Comissão Eleitoral Iraquiana anunciou a aprovação do esboço da nova Constituição no país.

Antes mesmo da votação da Constituição – fortemente contestada por sunitas e outros setores -, os soldados das forças de ocupação já esperavam o aumento de ataques dos insurgentes iraquianos. De qualquer forma, não se esperava que a marca dos 2 mil soldados mortos viesse a ser atingida tão prontamente. Segundo estimativas do Pentágono, pelo menos 1983 militares norte-americanos já morreram no Iraque. Já a página eletrônica “Baixas de Guerra” publicou, há poucos dias, a cifra de 1.996 mortos e 15.220 feridos. A morte do sargento texano George Alexander Jr. – vítima de uma explosão na cidade iraquiana de Samarra – seria a 2.000ª morte norte-americana no país.

“O número 2000 é tão significativo que vai ter, sem dúvida, ressonância nos EUA. É provável que o conflito mate mais mil soldados norte-americanos dentro de um ano”, declarou Charles Heiman, especialista em assuntos militares do Centro de Investigação “Jane`s Information Group“, de Londres. “É um marco artificial, escrito por pessoas e grupos com interesses específicos e segundas intenções”, retrucou o porta-voz das forças armadas dos EUA no Iraque, tenente-coronel Steven Boylen.

Do lado iraquiano, desde janeiro, fontes oficiais sugerem – já que os EUA não contabilizam quantos civis do Iraque foram mortos no conflito – algo em torno a 4.373 pessoas mortas (3.015 civis, 970 polícias e 388 soldados). Mas, segundo o grupo independente “Iraq Body Count” ( www.iraqbodycount.net ), desde março de 2003 morreram entre 26.690 e 30.051 iraquianos.

“Esta guerra exigirá mais sacrifícios, mais tempo e mais determinação”, diz Bush
Alguns minutos antes, Bush almoçava com mulheres de militares dos EUA no Iraque. “Cada perda de uma vida é de partir o coração e a melhor maneira de honrar o sacrifício dos soldados caídos é completar a missão” – disse Bush com a voz embargada -, “esta guerra exigirá mais sacrifícios, mais tempo e mais determinação (…) os terroristas estão entre os inimigos mais ferozes que já enfrentamos”.

Bush contradisse, desta forma, declarações do embaixador dos EUA no Iraque, Zalmay Khalilzad, que previa a possibilidade da retirada de algumas das tropas norte-americanas. “Acredito que seja possível ajustar as forças, reduzindo o efetivo militar [dos EUA no Iraque] durante o próximo ano”, disse referindo-se ao processo eleitoral do referendo iraquiano, “[mas isto] dependerá não só da estratégia militar, mas de avanços políticos”.

O senador democrata John Kerry, do Estado de Massachusetts, defendeu a retirada de 20 mil militares após as eleições parlamentares de dezembro no Iraque. Muitos democratas e alguns republicanos começam a sugerir um cronograma de retirada que atenda um critério de fases e eixos – envolvendo treinamento militar e estabilização política -, de 12 a 15 meses de duração.

Atoleiro e a síndrome do Vietnã: problemas dentro e fora de casa
Somente em um dia, 26 de outubro, marcaram-se mais de 300 manifestações contra a Guerra do Iraque nos EUA. O Senado norte-americano já realizou um minuto de silêncio, em sentido análogo. Patrick Leahy, senador democrata, declarou estar farto da “pregação de Bush“ pela continuidade do curso militar, e chegou a acusá-lo de “ignorar as lições da Guerra do Vietnã”. Sem meias-palavras, disparou: “minha pergunta é: quando – e como – vamos conseguir sair desta canoa furada?”.

As declarações lembram aspectos quase anedóticos da derrota militar dos EUA no Vietnã. Quando se deu o “empantanamento” da situação política e militar do exército norte-americano no país, e a vitória já tinha se transformado num desejo irrealizável, um senador democrata chegou a sugerir – enquanto solução possível para um impasse insuperável – que os EUA declarassem vitória e retirassem imediatamente suas tropas do país.

Ademais, aos problemas relacionados à ocupação do Iraque somam-se a total desmoralização face ao desastre do Furacão Katrina, no Golfo do México. O cada vez mais decrescente índice de popularidade de seu governo (também relacionado à alta do combustível), por sua vez, atingiu o maior nível de desaprovação desde o início de seu primeiro mandato, em 2001. A emblemática ativista Cindy Sheehan, mãe de um soldado morto no Iraque, constituiu-se em sua maior expressão. Além disso, uma investigação sobre o vazamento do nome de uma agente secreta da CIA – ligada à Guerra do Iraque – poderá prejudicar seriamente Bush se seu principal assessor político, Karl Rove, for indiciado. O marido da agente e ex-diplomata Joseph Wilson acusou o governo Bush de falsear informações sobre as armas de destruição massiva do Iraque, as quais – diga-se de passagem – nunca foram encontradas.

“Tragam nossos rapazes de volta para casa, já”
A marca simbólica dos dois mil soldados dos EUA mortos no Iraque são mais um elemento de crise para o governo Bush. Em 2003, Bush Jr. esperava executar uma “guerra-relâmpago” – como fizera seu pai na década de 1990 – e, mesmo a partir dos primeiros ataques da insurgência, não se deixou abalar. “Que venham!“, disse à época.

O consenso imperialista em torno à invasão do Afeganistão mostrou-se impossível em relação ao Iraque. O apoio interno à guerra de rapina, promovida por Bush & Cia., é cada vez mais escasso, popularizando a palavra-de-ordem “Tragam nossos rapazes de volta para casa, já”. Hoje, o que era uma guerra de ocupação transformou-se progressivamente numa verdadeira guerra de libertação nacional.

* Com informações do jornal Independence e da agência Reuters.