Inundação em Aracaju: “O que ‘tão´ fazendo com a gente é uma covardia”

Morador mostra marca de agressão policial

Depois de inundação, moradores do Santa Maria, em Aracaju (SE), perdem barracos e ainda são reprimidos pela Polícia MilitarNem crianças e idosos escaparam dos choques elétricos da Policia Militar. Depois de sofrerem com as chuvas que alagaram vários pontos de Aracaju na última terça-feira, 24 de maio, as 260 famílias que moravam na ocupação da Água Fina, no Bairro Santa Maria, em Aracaju, foram retiradas de seus barracos pela Prefeitura na última quarta-feira, 25. Para garantir que ninguém voltasse aos barracos, tudo foi incendiado. Sem ter pra onde ir, os moradores resolveram ocupar uma escola do bairro. Na mesma noite foram expulsos de forma violenta pelos policiais.

“O que ‘tão´ fazendo com a gente é uma covardia”. Foi assim que definiu Nacieto dos Santos, morador da ocupação Coelho Neto, que fica ao lado da Água Fina. Na manhã da quinta-feira, foi a vez dele e das cerca de 15 famílias da ocupação verem os seus barracos destruídos pela Prefeitura. Nacieto tem três filhos, um deles recém-nascido, ainda estava no hospital. Saiu de seu barraco apenas com o nome em um cadastro e a promessa de que receberá um auxílio de até R$ 300,00 para alugar alguma casa.

O secretário municipal de Assistência Social e Cidadania (Semasc), Bosco Rolemberg (PCdoB), disse que é mentira a agressão sofrida pelos moradores. “Eu acompanhei pessoalmente a operação comandada pelo major Edênisson (Guarda Municipal). Aconteceu tudo de forma tranqüila“, declarou. Rolemberg aconselhou os desabrigados a procurarem casas de parentes enquanto não conseguem casas para serem alugadas. “Eles sempre dão um jeito. Sempre tem um parente. Casa de parente é que nem coração de mãe. Sempre cabe mais um”, ironizou o secretário.

Cadastros
Erílio dos Santos mora com sua mãe e nove irmãos num pequeno sítio na ocupação Coelho Neto. Há oito anos, fez um cadastro na Prefeitura para receber uma casa. Na última quinta-feira, foi avisado de que deveria deixar a sua casa no prazo de três dias. Até agora, só a promessa de que receberá uma “ajuda” para alugar uma casa. “Eu nem sei onde vou achar casa pra alugar. Por R$ 300, é difícil achar um lugar. E quando a gente acha, o dono não aceita porque a Prefeitura atrasa o pagamento”, reclama. Para o secretário Bosco Rolemberg, esse é um “problema das leis de mercado” e tira a responsabilidade de suas costas.

Em Aracaju, são mais de 1.300 famílias incluídas no Cadastro Único para Programas Sociais até o momento. Mas, como admite a própria Prefeitura em seu domínio na internet, “o cadastramento não significa a inclusão automática da família nos programas sociais”. Ou seja, assim como Erílio, os desabrigados das últimas chuvas podem ficar vários anos sem serem beneficiados.

Tratados como criminosos
Bosco Rolemberg, que é do Partido Comunista do Brasil (PCdoB), prefere chamar de “invasores” os moradores que acabavam de ter seus barracos derrubados. “Nós já cadastramos os invasores antigos. Esses vão ser atendidos o mais rápido possível. Mesmo os novos invasores estão sendo cadastrados agora. Então, quem veio aqui há poucos meses ou poucos anos pensando que poderia se aproveitar vai ter que aguardar“, afirmou. O secretário estava rodeado por de cerca de 20 guardas municipais para garantir sua segurança.

Apenas 91 das 260 famílias retiradas da ocupação Água Fina receberam o auxílio moradia da Prefeitura. “Eles têm os seus palácios. A gente nem tem onde morar. O que é de nosso direito a gente tem que lutar”, defendeu dona Maria Natália, de 54 anos. Ela faz parte do grupo de 260 famílias de “invasores” que tiveram seus barracos queimados e foram agredidos pela polícia.

Plano de obras públicas
Segundo o Governo de Sergipe, hoje cerca de 80 mil famílias não têm casa em todo o Estado. Os movimentos populares de moradia discordam e afirmam que esse número chega a 200 mil. De acordo com cálculos do Departamento Intersindical de Estudos Sócio-econômicos (Dieese), esse problema seria resolvido com cerca de R$ 2,5 bilhões. O orçamento anual do estado é de aproximadamente R$ 5 bilhões.

“Nós trabalhadores devemos ir às ruas exigir do governo Déda (PT) que faça um plano de obras públicas pra resolver o problema da falta de moradia do nosso povo. Os trabalhadores precisam de casas, saneamento básico, hospitais. Não de choques da polícia”, defende a presidente estadual do PSTU, Vera Lúcia.