Intolerância às religiões de matriz africanas: manifestações de racismo e ódio


Aumentam os casos de ataques às religiões de matriz africana. Nessa segunda, uma menina de 11 anos levou uma pedrada na cabeça ao sair de um culto de candomblé no Rio de Janeiro. Publicamos abaixo matéria do PSTU-Bahia sobre o tema

Salvador, uma cidade tão rica culturalmente com um povo criativo que sabe viver em paz. Essa propaganda que sempre vemos nas agências de turismo e nas propagandas do governo esconde as práticas de intolerância religiosa e as manifestações racistas presentes em nossa cidade.

Não é incomum terreiros serem queimados e mães de santos humilhadas por fanáticos de outras religiões, como a protestante. Esses ataques expressam o racismo e os interesses dos ricos, significam uma ideologia de ódio às crenças negras e ao povo negro. Ideologia que é na verdade a ideologia dominante que visa dividir os trabalhadores através do preconceito e da opressão.

Espaço sagrado, o terreiro de candomblé constitui um lugar importante de resistência do negro na sociedade brasileira; um espaço de preservação das tradições e reconstrução de sua identidade onde as relações seguem uma lógica que, em muitos casos, contradiz a lógica da sociedade patriarcal.

Mulheres negras, gays e lésbicas nas religiões de matriz africana podem ocupar o mais alto grau na escala hierárquica religiosa: os postos de yalorixá e babalorixá. As sacerdotisas e os sacerdotes afros atuam propondo e participando ativamente dos processos decisórios, possuindo um papel político importante dentro dos terreiros, além de orientar religiosamente os filhos de santo para fortalecer os laços com a ancestralidade e aconselhá-los em sua vida cotidiana.

Nesse sentido, nas instituições religiosas de matriz africana, as mulheres negras são ouvidas, respeitadas e fortalecidas além de que, a orientação sexual ou a identidade de gênero de qualquer indivíduo não é tratada como algo que deve ser reprimido, questionado ou modificado. O sexo como tabu, fundamentado pelo mito do “Pecado original”, como acreditam as religiões cristãs, também não faz sentido para o Candomblé, que o entende como natural e vital causando repulsa nos setores mais conservadores da sociedade.

Apesar de não existirem dentro de uma bolha, os terreiros de candomblé, guardam características que contrariam os sistemas ideológicos opressores (machismo, racismo e homofobia). Sabemos que o capitalismo se alimenta das opressões para aumentar a exploração à classe trabalhadora e as religiões de matriz africana, de forma orgânica, conspiram contra estes sistemas ideológicos.

Outra reflexão a ser feita é o fato de que o ser humano inserido na cultura ocidental aprendeu que está acima da natureza e que ela existe para servi-lo, dentro de um sistema que preza pela maximização dos lucros e adota a ideia de que o dinheiro move o mundo. A minoria mais rica não se opõe em explorar e destruir o meio ambiente para atingir o “desenvolvimento” sem considerar a biodiversidade, os recursos hídricos, ou cultura local de um “povo”.

As religiões de matriz africana, também sobre esse aspecto, tem uma ideologia contrária ao capitalismo por entender o ser humano como uma ramificação da natureza, assim como a natureza é sentida como uma extensão do ser humano. Portanto, para o Candomblé, não é possível dar continuidade às tradições e manter o equilíbrio do planeta sem preservar os recursos naturais. Se esse pensamento fosse mais coletivo, talvez os lucros de grandes empresas que desmatam e poluem para manter as fortunas de seus donos e acionistas estivessem ameaçados.

O sistema capitalista necessita se organizar para atacar e tentar destruir o candomblé e as demais religiões de matriz africana porque, ainda que estas religiões sejam aparentemente organizações insignificantes quando comparadas ao imperialismo e ao poder das grandes fortunas, elas representam uma força que mundo ocidental não é capaz de entender nem explicar.

O fundamentalismo religioso tem sido uma forma de manipulação do povo brasileiro, que já foi orquestrada pela Igreja católica e agora tem como principal protagonista líderes de algumas igrejas evangélicas pentecostais e neopentecostais. Estes líderes inclusive introduziram em seus cultos elementos e símbolos do Candomblé para atrair e manter os adeptos que são, em sua maioria, afro-descendentes.

Pregando o ódio e a intolerância religiosa, estas lideranças atuam dividindo a classe trabalhadora, pois com seu discurso manipulam os adeptos e estimulam o ataque ao povo de Santo. No Congresso Nacional, formam uma bancada oportunista que se associa com empresários e os setores mais conservadores da sociedade para tomar o poder, propondo medidas que retrocedem principalmente nas pautas trabalhistas e de direitos humanos.

Não é à toa que o presidente da Câmara de Deputados, Eduardo Cunha, defende um projeto de lei que intitula a “cristofobia”, com o objetivo explícito de oficializar a religião católica e reafirmar a intolerância à outras religiões, que serão “menos oficiais”. Manifestações de intolerância em relação ao catolicismo seriam encaradas como crime, enquanto que a outras práticas religiosas não. Esse projeto de lei, na verdade, surge como um projeto que reafirma a intolerância e o preconceito religioso. É um grande retrocesso!

Uma face cruel da intolerância religiosa tem surgido também da associação destas igrejas com o tráfico de drogas que persegue yalorixás e babalorixás nas favelas.

As religiões de matriz africana resistiram ao longo de sua história a todos os tipos de violência e perseguição, fortalecendo e mantendo o povo de Santo ligado aos seus laços com a ancestralidade e permitindo sua perpetuação para outras gerações. É preciso, no entanto, despertar para esta recente reorganização de ataques e traçar estratégias de combate para atuar de forma precisa em todas as esferas da sociedade.

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