Secretaria Nacional de Negras e Negros do PSTU

Há uma grande polêmica em curso no PSOL e que tem envolvido parte do movimento negro. Esta polêmica surgiu com a doação de R$ 78 mil feita por banqueiros para a campanha de Wesley Teixeira, um jovem negro candidato a vereador em Duque de Caxias, na Baixada Fluminense do Rio de Janeiro.

No curso desta polêmica, muitas perguntas têm sido feitas: candidaturas socialistas devem ou não receberem doações da burguesia? Partidos de esquerda estão imunes ao racismo? Candidaturas negras estão imunes às pressões financeiras e políticas da burguesia?

Acreditamos que não, é a resposta para todas estas perguntas. E explicaremos ao longo deste texto porque a independência financeira é um princípio fundamental para todos aqueles que querem lutar contra o capitalismo e contra o racismo.

Candidaturas socialistas devem ou não receberem doações da burguesia?

A convite de Pedro Abramovay, Wesley se reuniu com a intelectual negra Sueli Carneiro, e com o que Abramovay classifica como “algumas pessoas do topo da pirâmide no Brasil”: os irmãos Moreira Salles, com Beatriz Bracher e com Armínio Fraga.

Mas, afinal, quem são e o que fazem essas pessoas?

Pedro Abramovay é advogado e diretor da Open Society Foundations para a América Latina, uma organização criada pelo bilionário George Soros. Sueli Carneiro é fundadora do Instituto Geledés, e do Conselho Deliberativo do Baobá, um Fundo para equidade racial financiado pela Fundação Ford. Os irmãos Moreira Salles são grandes acionistas e herdeiros do banco Itaú e da Companhia Brasileira de Metalurgia e Mineração – CBMM. Beatriz Bracher, é herdeira do banco Itaú. E Armínio Fraga é um banqueiro e foi presidente do Banco Central durante o governo FHC.

O recebimento de doações dessa natureza fere o estatuto do PSOL que diz que “Não serão aceitas contribuições e doações financeiras provindas, direta ou indiretamente, de empresas multinacionais, de empreiteiras e de bancos ou instituições financeiras nacionais e/ou estrangeiros“.

A bem da verdade, o trecho acima não elimina por completo o recebimento de doações da burguesia. Mas é o bastante para que o PSOL exija a devolução deste dinheiro e/ou uma punição a Wesley Teixeira.

O problema é que essa não é a primeira vez que candidatos do PSOL recebem dinheiro da burguesia. Em 2008, Luciana Genro recebeu R$ 100 mil da Gerdau para sua campanha à Prefeitura de Porto Alegre (RS). Quando perguntado sobre a doação, o coordenador da campanha, Roberto Robaina, respondeu que “recebemos [o dinheiro] e já estamos gastando[1].

Em 2012, Marcelo Freixo concorria à Prefeitura do Rio de Janeiro pelo PSOL e recebeu R$ 120 mil da Victor Hugo Demolições, empresa que participou – dois anos depois – da remoção de moradores do bairro Vila Autódromo, na Zona Oeste do Rio, para dar lugar às obras das Olimpíadas.

Na medida em que o PSOL permitiu esse tipo de comportamento sem qualquer punição rigorosa aos candidatos infratores, pavimentou o caminho para que novas ações como as de Wesley Teixeira ocorressem.

E no meio disso tudo estão inúmeros ativistas socialistas filiados ao PSOL que exigem a devolução imediata desse dinheiro aos banqueiros, e que também exigem que nenhuma candidatura do PSOL receba financiamento da burguesia. Sabem que este foi o caminho percorrido pelo PT e que a renúncia à independência financeira sempre dá base para a renúncia à independência política.

Apesar disso, para justificar o recebimento da doação de banqueiros à candidatura de Wesley, Marcelo Freixo diz que “ele recebeu ajuda sem nenhuma contraproposta, sem nenhuma condição[2]”.

Mas o dito popular de que “quem paga a banda escolhe a música” é, também, uma lei de ferro na política. Pouca importa se há, ou não, alguma cláusula contratual exigindo contrapartida política das candidaturas para seus financiadores. Pouco importa, também, se há um contrato ou não.

Muitos acreditam que as organizações da classe trabalhadora são arruinadas pela violência imposta por ditaduras ou pelo fascismo. Mas, na verdade, a maior parte dessas organizações vão à ruína durante a democracia burguesa, quando renunciam à independência financeira.

A adaptação ao parlamento e à ordem burguesa, por exemplo, são expressões políticas de uma adaptação econômica aos salários polpudos de parlamentares e às regalias absurdas que inexistem para o conjunto da classe trabalhadora e para o povo pobre. E quando a crise econômica arruína as camadas médias e a pequena burguesia, corroendo suas rendas e arrastando-a para as fileiras do proletariado, os partidos reformistas que se erguem sobre esses setores médios, tendem a buscar apoio financeiro diretamente na burguesia.

Partidos de esquerda estão imunes ao racismo?

À medida em que a direção nacional do PSOL não puniu candidatos brancos por receberem dinheiro de burgueses, é natural se perguntar se uma eventual punição à candidatura de Wesley Teixeira não será estimulada pelo racismo.

Em consequência, surgem vários depoimentos de ativistas do PSOL que denunciam a desigualdade do tratamento e da distribuição de recursos entre as candidaturas de negros e brancos no partido.

Os partidos de esquerda não estão imunes ao racismo. De tal sorte que a desconfiança de muitos ativistas negros com estes partidos é bastante justa. Afinal,  boa parte dos partidos que se reivindicam socialistas ou comunistas são herdeiros de uma tradição estalinista que compreende a luta contra as opressões como algo secundário ou, ainda, como algo que divide a classe e enfraquece a “revolução”.

Ademais, a maior parte destes partidos absorveram em fartas doses a ideologia da democracia racial. E por não adotarem e nem defenderem políticas específicas para negras e negros, reforçam a desigualdade racial e social em suas fileiras e na sociedade.

Nós do PSTU, porém, herdamos o entendimento de Trotsky de que o racismo é uma brutal opressão que subjuga, inferioriza e justifica todo tipo de violência física e psíquica contra negras e negros. Sendo assim, para os trabalhadores negros e pobres, o racismo e o capitalismo são duas pontas de uma mesma corda que envolve seus pescoços.

Além disso, o racismo divide a classe trabalhadora. Em outras palavras, se o capitalismo e o racismo são duas pontas de uma mesma corda que enforca os pescoços dos negros trabalhadores e pobres, essa corda também serve para atar as mãos e pernas dos brancos da classe trabalhadora. Embriagados pelo racismo, a classe trabalhadora branca se torna incapaz de lutar com todas as suas forças contra a burguesia porque se comporta como uma espécie de patrão dos negros.

Por isso, nós temos o firme compromisso de lutar contra o racismo em nossas fileiras, nos dedicamos ao estudo sobre a questão racial e promovemos jovens, mulheres e trabalhadores negros à direção de nosso partido e às candidaturas nas eleições burguesas. E antes mesmo da decisão do TSE de dividir o fundo eleitoral e tempo de TV de forma proporcional ao total de candidatos negros, nós já éramos o partido que apresentava a maior proporção de candidaturas negras.

Fomos o primeiro e único partido no país a lançar uma chapa presidencial 100% negra, quando lançamos Vera e Hertz Dias, em 2018. E mesmo lançando a candidatura antirracista e socialista revolucionária de Vera e Hertz, um setor expressivo do movimento negro preferiu apoiar e votar no primeiro turno em um homem branco e em uma mulher branca mostrando que, por trás do discurso da representatividade racial o que importa é realmente manter a ordem social capitalista, que é a base material do racismo.

Candidaturas negras estão imunes às pressões financeiras e políticas da burguesia?

Wesley promete que em seu mandato haverá “controle e participação popular, para pensar uma cidade para se viver e não para o lucro. Discutindo políticas públicas com quem sente na pele os problemas e pode trazer soluções, com isso daqui a quatro anos teremos outras e outros em um processo de renovação política[3].

No entanto, quando a Insurgência – tendência interna do PSOL à qual Wesley integrou por seis anos – determinou que ele deveria devolver todo o dinheiro recebido de banqueiros, ao invés de acatar a decisão coletiva de sua organização, Wesley anunciou a sua saída, dizendo que receber ou não dinheiro da burguesia é uma questão “tática”, e não um princípio político.

Ora, Wesley não acatou as decisões tomadas pela maioria dos ativistas da tendência política da qual integrava por seis anos! Mas promete que quando for eleito vereador para a Câmara de Duque de Caxias haverá controle e participação popular sobre seu mandato…

Por fim, Wesley Teixeira disse que ficará com o dinheiro recebido por banqueiros para fazer uma “ocupação preta pra chegar na Câmara Municipal de Duque de Caxias e combater a política de morte das mesmas famílias que governam esta cidade […][4]. Como se bastasse ser negro e ocupar espaços de poder, e como se não houvesse um rastro de sangue no dinheiro de banqueiros.

A rigor, não há nada de muito novo nisso tudo. Afinal, sempre que a burguesia não consegue mais impor suas candidaturas tipicamente burguesas, lança mão da cooptação de lideranças da classe trabalhadora e dos movimentos sociais para usá-las, não em favor da classe trabalhadora e dos oprimidos, mas contra eles.

Esse é um recurso bastante eficiente pois, ao utilizar lideranças sindicais e/ou políticas da classe trabalhadora e dos movimentos sociais, a burguesia consegue, por um lado,  “decapitar” as organizações da classe trabalhadora e, por outro lado,  controlar greves e explosões sociais, usando do prestígio social dessas figuras cooptadas.

E aqui não pode restar dúvidas. Por detrás de toda fraseologia negra, e da tentativa de evocar a memória de lideranças como Martin Luther King, Lélia Gonzalez e Chico Mendes, Wesley Teixeira escolhe o caminho da renúncia à independência de classe e, ironicamente, ele renuncia até mesmo à independência de raça – afinal, como no Brasil sequer há uma consistente burguesia negra, como há em outros países, Wesley vai servir aos interesses da burguesia branca, virando as costas para os negros da classe trabalhadora e o povo pobre.

Frente a isto, nós negros, socialistas e revolucionários finalizamos com esta passagem do ex-pantera negra, Stokely Carmichael:

Agora, eu quero fazer uma distinção entre um militante preto e um revolucionário preto. Eles são muito confusos porque, de início, se parecem. Um militante preto é um homem preto (Black) irritado – observe que eu não disse (Negro) – está irritado com as pessoas brancas por mantê-lo fora do sistema branco. Vocês o veem o tempo todo. Eles descobrem que a cidade está ficando tensa, eles têm seus afros e dashikis [roupas com tecidos africanos; batas africanas, coloridas], eles correm pelas ruas. Estão nos noticiários, dando conferências de imprensa pelas esquinas. “Se os homens não nos dão um programa de pobreza, esta cidade virá; e vamos seguir para Detroit, e vamos para Washington”. De repente, eles estão na televisão todos os dias, dizendo ao prefeito: “Senhor Prefeito, esta cidade vai queimar. Conheço o sentimento das pessoas no gueto. Eu estou junto com elas. Conheço a sua alienação. Conheço o seu senso de abatimento. Eu sei isso; eu sei disso; e a cidade queimá”. O prefeito coloca-os em um comitê e lhes dá um emprego de US$ 30.000 por ano; então, a cidade explode e eles correm pelas ruas: “Acalme-se, irmãos, começamos o diálogo com o prefeito”.

Mas um revolucionário preto é um jovem irritado que quer derrubar e destruir todo um sistema que oprime o seu povo e o substitua por um novo sistema onde seu povo possa viver como seres humanos.

Este país está cheio de militantes pretos, mas há muitos poucos revolucionários pretos. Precisamos de mais revolucionários pretos e menos militantes. O militante, em última análise, é um homem que se preocupa apenas com ele mesmo; além do mais, ele usa os sentimentos do seu povo para se autopromover. E esse é o pior crime que você pode cometer” (Um novo mundo para construir).

Referências

CARMICHAEL, Stokely. Stokely fala: do poder preto ao Pan-Africanismo. Brasil: Diáspora Africana, 2017, p. 187.

[1]Ver: https://politica.estadao.com.br/noticias/eleicoes,doacao-da-gerdau-ao-psol-abre-debate-ideologico-na-esquerda,233409. Acesso em: 03 out. 2020.

[2]Ver: https://noticias.uol.com.br/colunas/chico-alves/2020/10/02/freixo-defende-doacao-de-arminio-fraga-a-candidato-e-ameaca-deixar-psol.htm?utm_source=facebook&utm_medium=social-media&utm_campaign=noticias&utm_content=geral&fbclid=IwAR37hhnum8slDc-ZXd8iefGDfPN4-OAh2rd4kyEZckJi2Y3ToXpifjPJZ7E&cmpid=copiaecola. Acesso em: 04 out. 2020.

[3]Ver: https://www.facebook.com/wesleyteixeira.ceim/posts/3338546452898352. Acesso em 03 out. 2020.

[4]Ver: https://www.facebook.com/wesleyteixeira.ceim/posts/3338546452898352. Acesso em 03 out. 2020.