Luiza Arantes, do Rebeldia-SP

Já superamos a marca assustadora de mais de 145 mil mortes e quase 5 milhões de casos causados pela Covid-19, sem contar a subnotificação que aumenta ainda mais esses números. Enquanto o Brasil enfrentava uma média diária de mais de mil mortes por Covid-19, e tinha recordes de novas infecções, diversos governadores iniciaram a flexibilização da quarentena nos seus estados. E nesse cenário de mortes e da irresponsável flexibilização que esses governadores impõem o “novo normal”, anunciam a voltas às aulas colocando a vida de crianças, adolescentes, jovens e professores em risco, à custa de salvar o ano letivo.

O Instituto Oswaldo Cruz (Fiocruz) mostrou que o retorno às aulas em nível nacional pode contaminar mais de 9,3 milhões de brasileiros do grupo de risco, pois esses vivem na mesma casa que crianças e adolescentes em idade escolar (entre 3 e 17 anos). Em Manaus, no dia 10 de agosto, 106.294 mil alunos do Ensino Médio da rede estadual de ensino começaram uma experiência de retorno às aulas. Menos de duas semanas depois, o governo testou 1.064 professores que estavam trabalhando nessas escolas e o resultado foi revelador: quase um terço desses professores (342) testaram positivo para o novo coronavírus.

Uma pesquisa realizada pela Rede Nossa São Paulo em parceria com o Ibope mostrou que 81% dos paulistanos são contra a volta às aulas. Afinal, o estudo realizado pelo IAB e pelo Dieese revelou que apenas 6,5% das escolas do Estado de São Paulo estariam adequadas para obedecer ao distanciamento mínimo de 1,5 m entre os alunos. E para piorar 99% dessas escolas carecem de enfermaria, consultório médico e ambulatório. Além disto, basta perguntar a qualquer profissional da educação ou algum estudante que passou pela escola pública para saber que a estrutura desses espaços é precária. O governo nos oferece salas abafadas, bebedouros quebrados, falta de papel higiênico, ou seja, o básico do básico simplesmente não existe. E querem nos fazer acreditar que terá álcool, máscara, distanciamento e medidas que garantam a segurança da comunidade escolar. Esse mesmo governo que fez uma quarentena fake e colocou a classe trabalhadora em ônibus lotados em meio à pandemia.

Na rede de ensino privado, muitas escolas e universidades estão retomando as atividades, alunos e professores desse setor privatizado vem sofrendo desde o início da pandemia com a não redução das mensalidades, em um momento de crise em que muitos jovens perderam seus empregos e sua fonte de renda. Além do aumento da precarização das instituições com demissões de funcionários e o Ensino remoto. E agora são os primeiros a retomarem as aulas, pois os donos dessas grandes empresas, pressionados pelo discurso de salvar a economia, colocam o lucro acima da vida, e os mais afetados sem dúvida são os bolsistas que lutam para permanecer estudando.

Porém, sabemos que a solução não são as aulas EAD. Para as grandes empresas privadas da educação esse modelo está diminuindo os seus gastos e aumento seus lucros, às custas de sucateamento de professores e das aulas, impondo uma rotina de stress e ansiedade para muitos profissionais da educação e os próprios alunos, além de aumentar ainda mais as desigualdades, escancarando a realidade de muitos jovens que não tem acesso à internet, computadores e estrutura dentro de suas casas para estudar com o ensino remoto.

E é nessas condições que Bolsonaro diz que os professores sindicalizados, que estão lutando para garantir a vida da sua família e de seus alunos, estão em casa por dois motivos: Primeiro eles ficam em casa e não trabalham, por outro colabora que a garotada não aprenda mais coisas, não volte a se instruir”. Esse discurso é uma afronta com os professores e o movimento estudantil, precisamos urgentemente fazer uma campanha massiva contra Bolsonaro e Mourão, os governadores que são cúmplices desse projeto genocida e uma Greve Nacional da Educação contra a volta às aulas.

Infelizmente, nesse momento em que precisamos juntar todas as organizações para lutarmos pela a vida da comunidade escolar e dizer não a volta às aulas, é vergonhoso o papel da UMES (União Municipal de Estudantes Secundaristas), que está se colocando do lado da Secretária da Educação, negociando a possibilidade de retornar as aulas com “segurança”. O presidente da UMES, após audiência com o secretário de Educação do Estado de São Paulo, Rossieli Soares, afirmou a necessidade “de um canal de diálogo fundamental entre estudantes e poder público neste período. Devemos garantir as condições necessárias para o aprendizado dos estudantes, presencial ou virtualmente”. Além disso, no início de agosto, a UMES participou de uma simulação dos protocolos de voltas às aulas nas escolas estaduais. Está na hora de subir o tom no combate a essa política genocida, essa lógica de “diálogo” e vistorias de protocolos só legitima e aumenta a possibilidade do governo de impor a volta às aulas mesmo com a crise do coronavírus estando longe de acabar!  Por outro lado, a UEE- SP e a UPES não chamam os estudantes a se organizar contra esse absurdo que é o volta às aulas!

Não dá para negociar com esse governo que só defende os patrões e as empresas! É por isso que, mesmo em meio à pandemia, os estudantes e o movimento estudantil precisam voltar a se organizar em São Paulo, mesmo que seja de maneira virtual! Os professores estão se organizando contra a volta às aulas e achamos que precisamos nos unificar junto aos professores e demais funcionários da educação para barrar a volta às aulas, até termos a vacina! Achamos também que é possível organizar os estudantes através de assembleia virtual das escolas e os grêmios devem impulsionar essa luta. Achamos que é preciso uma greve nacional contra a volta as aulas! Nenhum aluno na sala de aula até que tenhamos a vacina!

O Rebeldia propõe:

– Nossas vidas importam: volta às aulas só com vacina!

– Organizar os estudantes junto aos professores e funcionários contra a volta as aulas!

– Assembleias virtuais das escolas para organizar a luta!

– Greve nacional da educação!